
20 de abril de 2026
João Luiz Filho
O crescimento de 53% nas entregas de fertilizantes no Brasil em janeiro de 2026, conforme dados divulgados pela Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), não deve ser interpretado apenas como um indicador positivo de demanda agrícola. Trata-se, na realidade, de um movimento estratégico do agronegócio brasileiro diante de um cenário global cada vez mais volátil, marcado por incertezas geopolíticas, dependência externa e riscos crescentes na cadeia de suprimentos de insumos essenciais. O aumento expressivo nas entregas no início do ano reflete, em grande medida, a recomposição de estoques após um ciclo anterior de compras mais cautelosas, influenciado por oscilações de preços internacionais e custos elevados de financiamento. Além disso, há um componente relevante de antecipação de demanda, especialmente voltado à safrinha de milho e ao planejamento da safra 2026/27, em um contexto no qual produtores e distribuidores buscam se proteger contra potenciais choques de oferta e aumentos de preços ao longo do ano. Esse comportamento defensivo está diretamente associado à estrutura do mercado brasileiro de fertilizantes, caracterizado por elevada dependência de importações. De acordo com dados do Ministério da Agricultura , Pecuária e Abastecimento (MAPA) e da própria Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), aproximadamente 85% a 90% dos fertilizantes utilizados no país são provenientes do exterior, o que torna o Brasil particularmente sensível a variações geopolíticas, logísticas e cambiais. No caso dos fertilizantes potássicos, fundamentais para culturas como soja e milho, o Brasil depende majoritariamente de fornecedores como Rússia, Belarus e Canadá. Já os fosfatados têm forte participação de países como Marrocos, China e Estados Unidos. No segmento de nitrogenados, especialmente ureia e amônia, a dependência recai sobre China, Rússia, Irã e Trinidad e Tobago, sendo este último grupo particularmente sensível a variações no mercado de gás natural, principal insumo produtivo. Do ponto de vista territorial, a distribuição desses fertilizantes no Brasil segue a geografia da produção agrícola. Estados do Centro-Oeste concentram a maior parte das entregas, com destaque para Mato Grosso, principal polo de produção de soja, milho e algodão do país, além de Goiás e Mato Grosso do Sul. Na região Sul, Paraná e Rio Grande do Sul também apresentam elevada demanda, enquanto no Sudeste destacam-se São Paulo e Minas Gerais, impulsionados principalmente pela produção de cana-de-açúcar e café. Dados históricos da ANDA indicam que o Mato Grosso, isoladamente, pode representar mais de 20% das entregas nacionais, evidenciando o peso do agronegócio na dinâmica de consumo de insumos. Nesse contexto, as tensões geopolíticas envolvendo o Irã ganham relevância estratégica. O país é um dos principais produtores globais de ureia, fertilizante nitrogenado amplamente utilizado na agricultura brasileira. A produção iraniana é fortemente baseada em gás natural, o que a torna altamente sensível a sanções internacionais, restrições logísticas e instabilidades regionais. Eventuais interrupções na oferta iraniana ou elevação dos custos energéticos têm impacto direto nos preços internacionais dos fertilizantes nitrogenados. Adicionalmente, conflitos ou tensões no Oriente Médio afetam rotas marítimas estratégicas, elevando custos de frete e seguros, o que repercute diretamente no preço final dos insumos importados pelo Brasil. Esse efeito cascata tende a pressionar os custos de produção agrícola, com impactos potenciais sobre a competitividade das commodities brasileiras no mercado internacional. A China ocupa posição central nesse cenário, atuando simultaneamente como fornecedora relevante de fertilizantes e como principal destino das exportações agrícolas brasileiras. Nos últimos anos, autoridades chinesas adotaram medidas para restringir exportações de fertilizantes, com o objetivo de garantir a segurança alimentar interna e estabilizar preços domésticos, conforme reportado por veículos como a agência estatal Xinhua e diretrizes do Ministério do Comércio chinês. Esse movimento adiciona uma camada adicional de incerteza ao mercado global, reduzindo a disponibilidade de insumos e pressionando preços. O Brasil apresenta demanda crescente e consistente por fertilizantes, associada à expansão contínua do agronegócio. Ao mesmo tempo, a vulnerabilidade externa cria espaço para investimentos em produção local, infraestrutura logística, armazenamento e distribuição de insumos. Além disso, há potencial relevante para integração vertical entre cadeias de fertilizantes e produção agrícola, fortalecendo a segurança de suprimento e reduzindo exposição a choques externos. Em síntese, o aumento de 53% nas entregas de fertilizantes no início de 2026 não representa apenas um movimento conjuntural de mercado, mas sim um sinal claro de adaptação estratégica do agronegócio brasileiro a um ambiente global mais complexo e incerto. O fertilizante, nesse contexto, deixa de ser apenas um insumo produtivo e passa a ocupar posição central na geopolítica da segurança alimentar, com implicações diretas para o Brasil, a China e o equilíbrio das cadeias globais de produção agrícola.

17 de abril de 2026
João Luiz Filho
A decisão recente da China de suspender temporariamente as importações de carne bovina de uma unidade frigorífica brasileira não deve ser interpretada como um sinal de ruptura comercial, mas sim como um reflexo direto do elevado nível de rigor sanitário que rege o comércio agroalimentar internacional, especialmente no eixo Brasil–China. Em um contexto de crescente sofisticação regulatória e de ampliação da demanda por segurança alimentar, episódios como este revelam mais sobre a maturidade institucional da relação bilateral do que sobre qualquer fragilidade estrutural do fluxo comercial. O caso em questão envolve a identificação, por parte da General Administration of Customs of China (GACC), de resíduos de acetato de medroxiprogesterona, hormônio sintético progestagênico, utilizado principalmente em protocolos de sincronização reprodutiva e controle do ciclo estral em bovinos, não permitido pela legislação chinesa para carne destinada ao consumo humano. A detecção ocorreu a partir de controles laboratoriais aplicados a uma carga exportada por uma planta localizada em Várzea Grande (MT), pertencente à Pantaneira Indústria e Comércio de Carnes e Derivados, integrante do grupo Frigosul (SulBeef), registrada sob o Serviço de Inspeção Federal (SIF) nº 1206. Como consequência, houve a rejeição do lote exportado e a suspensão temporária da habilitação da unidade para embarques ao mercado chinês. Do ponto de vista técnico-regulatório, a medida segue um padrão já consolidado na atuação da GACC. O sistema chinês de controle sanitário é estruturado sobre três pilares principais: monitoramento contínuo, resposta imediata a não conformidades e suspensão preventiva de unidades específicas. Isso significa que, ao contrário de embargos amplos, as ações são direcionadas e proporcionais ao risco identificado, preservando a continuidade do comércio com os demais operadores que permanecem em conformidade. Esse modelo regulatório não é novo. Em episódios anteriores, incluindo suspensões registradas em 2025, a China adotou procedimentos semelhantes após auditorias remotas e análises de conformidade sanitária. Em todos os casos, o processo seguiu um fluxo previsível: identificação da irregularidade, suspensão da planta, apresentação de plano de ação corretivo e, posteriormente, reavaliação técnica para eventual reabilitação. Trata-se, portanto, de um sistema que privilegia a previsibilidade regulatória, elemento fundamental para investidores e operadores internacionais. No Brasil, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) atua de forma coordenada nesses casos, notificando a empresa envolvida, acompanhando a elaboração de medidas corretivas e conduzindo o diálogo técnico com as autoridades chinesas. Paralelamente, o governo brasileiro reforça a robustez do sistema nacional de inspeção sanitária, baseado no Serviço de Inspeção Federal (SIF), reconhecido internacionalmente e responsável por garantir os padrões de qualidade exigidos pelos principais mercados importadores. É importante destacar que a suspensão é restrita à unidade específica e não afeta o conjunto das exportações brasileiras. O Brasil mantém mais de uma centena de plantas habilitadas a exportar carne bovina para a China, e o fluxo comercial segue operando normalmente. A China, por sua vez, permanece como o principal destino da carne bovina brasileira. O caso reforça um ponto crítico para operadores brasileiros: a necessidade de compliance absoluto ao acessar o mercado chinês. O controle sobre resíduos veterinários, a rastreabilidade da cadeia produtiva e a aderência estrita aos protocolos bilaterais deixaram de ser diferenciais e passaram a constituir requisitos mínimos de permanência nesse mercado.

14 de abril de 2026
João Luiz Filho
Localizado no sudoeste do estado de Goiás, o município de Rio Verde consolidou-se como um dos principais polos do agronegócio brasileiro, reunindo características estruturais que explicam sua relevância econômica: alta produtividade agrícola, forte adoção de tecnologia e integração eficiente das cadeias produtivas. A presença de cooperativas robustas, com destaque para a COMIGO, contribuiu para transformar a região em um ambiente altamente organizado do ponto de vista produtivo, especialmente nas culturas de soja e milho, além da produção de proteínas animais. Esse conjunto de fatores posiciona Rio Verde não apenas como um centro de produção, mas também como um polo de inovação e difusão tecnológica no campo, papel que se materializa de forma evidente na realização anual da Tecnoshow COMIGO, uma das maiores feiras do agronegócio da América Latina. Nesse contexto, vale destacar que a IEST GROUP mantém um relacionamento institucional consolidado na região, especialmente junto aos principais agentes do ecossistema agroindustrial local, como a COMIGO. Essa proximidade permite o acompanhamento contínuo das transformações do agronegócio brasileiro diretamente em campo. Essa atuação próxima ao território fortalece a capacidade da IEST GROUP de interpretar movimentos de mercado com maior precisão e de estruturar soluções alinhadas às demandas reais de seus clientes, especialmente aqueles com interesse estratégico no Brasil. O encerramento da edição de 2026 da Tecnoshow COMIGO trouxe sinais relevantes sobre o momento atual do agronegócio brasileiro. Apesar da forte presença de público e da manutenção do evento como um importante ponto de encontro entre produtores, empresas e instituições financeiras, o volume de negócios registrou uma retração significativa em relação ao ano anterior, com estimativas indicando queda próxima de 30% frente a 2025. Em segmentos específicos, como o de máquinas agrícolas, a redução foi ainda mais acentuada, com relatos de recuos que chegam a aproximadamente 50% nas vendas. Esse comportamento evidencia uma mudança no padrão de decisão do produtor rural, que, embora continue interessado em tecnologia e inovação, tem adotado uma postura mais cautelosa, priorizando a análise detalhada das condições de financiamento e postergando investimentos de maior porte. Além de seu peso econômico, a Tecnoshow COMIGO também se diferencia no cenário nacional por características únicas de organização e experiência do visitante. A feira é amplamente reconhecida não apenas pelo elevado volume de negócios gerados entre empresas e expositores, mas também pelo cuidado com o ambiente e a apresentação dos espaços. Trata-se de uma das feiras do agronegócio com maior presença de áreas verdes, jardins e elementos paisagísticos, criando um ambiente que combina tecnologia, produtividade e sustentabilidade visual, aspecto que contribui significativamente para a experiência dos participantes e reforça a identidade institucional do evento. Durante a realização da Tecnoshow COMIGO 2026, essa leitura de cautela foi reforçada diretamente pela liderança do setor. O presidente do conselho de administração da COMIGO, Antonio Chavaglia, destacou que o agronegócio brasileiro atravessa um momento de elevada incerteza, influenciado tanto por fatores domésticos quanto por variáveis externas. Segundo ele, o cenário internacional segue instável, com conflitos geopolíticos impactando diretamente os custos de produção, especialmente no que se refere aos insumos agrícolas e ao transporte. O aumento dos preços do petróleo e dos fertilizantes, somado ao encarecimento do frete, tem pressionado significativamente as margens do produtor rural, dificultando a sustentabilidade econômica da atividade em um contexto de preços mais baixos das commodities agrícolas. Além do cenário internacional, o ambiente macroeconômico brasileiro também foi apontado como um fator de preocupação. A combinação de inflação ainda presente e crédito mais caro cria um ambiente de maior cautela nas decisões de investimento, especialmente em bens de capital como máquinas agrícolas. Esse contexto ajuda a explicar o comportamento observado durante a feira, no qual produtores demonstraram interesse em tecnologia e inovação, mas optaram por postergar aquisições diante das incertezas sobre custos futuros e rentabilidade. Outro ponto relevante destacado por Chavaglia refere-se à imprevisibilidade no custo futuro dos fertilizantes, um dos principais componentes da estrutura de custos do agronegócio brasileiro. A dependência de importações e a volatilidade dos mercados internacionais ampliam o grau de incerteza para o planejamento da próxima safra, reforçando a necessidade de decisões mais conservadoras por parte dos produtores. Os efeitos dessa dinâmica já começam a se refletir ao longo da cadeia produtiva. Fabricantes e distribuidores de máquinas agrícolas indicam aumento nos níveis de estoque, menor conversão de negociações em vendas e necessidade de revisão de estratégias comerciais para 2026. Ao mesmo tempo, observa-se uma tendência de maior competitividade entre fornecedores, com possível ampliação de modelos alternativos de acesso à tecnologia, como leasing e soluções financeiras mais flexíveis. Ainda assim, a Tecnoshow COMIGO mantém sua relevância estrutural. Mesmo com a retração no volume de negócios, o evento continuou movimentando intensamente a economia local de Rio Verde, com alta demanda nos setores de hotelaria, alimentação e serviços. Isso reforça o papel da feira como um hub estratégico de relacionamento, networking e construção de parcerias, indo além da simples comercialização de produtos. Do ponto de vista analítico, o desempenho da Tecnoshow COMIGO 2026 deve ser interpretado como um ajuste cíclico, e não como um enfraquecimento estrutural do agronegócio brasileiro. Os fundamentos do setor permanecem sólidos, sustentados pela elevada competitividade produtiva, pela disponibilidade de terras e pela posição estratégica do Brasil como um dos principais fornecedores globais de alimentos. Para investidores chineses, esse cenário oferece uma leitura clara e estratégica. A cautela observada no mercado brasileiro não representa retração de oportunidades, mas sim uma janela para entrada qualificada de capital e tecnologia. A combinação de demanda global crescente por alimentos, especialmente por parte da China, com limitações conjunturais de crédito no Brasil abre espaço para iniciativas estruturadas em financiamento agrícola, desenvolvimento de soluções tecnológicas adaptadas à realidade local e investimentos em infraestrutura logística e armazenagem, áreas que ainda apresentam gargalos relevantes. Nesse contexto, a Tecnoshow COMIGO 2026 não apenas refletiu um momento de maior prudência no campo, mas também sinalizou, de forma clara, as transformações em curso no agronegócio brasileiro e as oportunidades emergentes para parcerias estratégicas de longo prazo entre Brasil e China.

13 de abril de 2026
João Luiz Filho
A intensificação do controle sobre terminais alfandegados na exportação de grãos no Brasil, recentemente destacada por veículos especializados do agronegócio, deve ser compreendida não como uma medida operacional isolada, mas como parte de um movimento estrutural de reposicionamento do país dentro da cadeia global de fornecimento de alimentos, especialmente no contexto da relação estratégica com a China . Trata-se de uma resposta direta à elevação dos padrões regulatórios internacionais, com destaque para o rigor técnico e sanitário exigido pelo mercado chinês, hoje principal destino das exportações brasileiras de soja e um dos maiores importadores globais de milho. Nos últimos anos, a Administração Geral das Alfândegas da China (GACC) consolidou um novo paradigma regulatório para importação de alimentos, com base em instrumentos como os Decretos nº 248 e nº 249, ambos em vigor desde 2022. Esses dispositivos ampliaram significativamente o escopo de responsabilidade dos países exportadores, exigindo não apenas o registro formal de produtores e estabelecimentos, mas também a comprovação de conformidade ao longo de toda a cadeia logística, incluindo armazenamento, transporte e operações portuárias. Na prática, isso significa que eventuais não conformidades identificadas no destino, como presença de pragas quarentenárias, impurezas ou falhas na rastreabilidade, passam a ser atribuídas à estrutura sistêmica do país de origem, e não apenas ao exportador direto. É nesse contexto que se insere a recente decisão brasileira de ampliar a fiscalização sobre terminais alfandegados. A atuação coordenada de órgãos como o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e a Receita Federal do Brasil sinaliza uma mudança relevante na abordagem regulatória nacional, que passa a incorporar uma lógica de controle integrado da cadeia. Essa diretriz encontra respaldo na Lei nº 14.515/2022, que introduziu no ordenamento jurídico brasileiro o conceito de autocontrole supervisionado, atribuindo aos agentes privados maior responsabilidade sobre a conformidade sanitária e operacional de suas atividades, sob fiscalização baseada em análise de risco. Do ponto de vista operacional, essa mudança implica uma reconfiguração do papel dos terminais portuários e armazéns alfandegados, que deixam de atuar apenas como estruturas logísticas para assumir função ativa na garantia da qualidade sanitária das cargas. Isso envolve investimentos em infraestrutura, adoção de protocolos rigorosos de controle de pragas, segregação de lotes, rastreabilidade por origem e integração com sistemas digitais de monitoramento. Ainda que tais exigências possam representar aumento de custos no curto prazo, especialmente para operadores de menor porte, a tendência é de ganho de eficiência sistêmica no médio e longo prazo, com redução de rejeições internacionais, maior previsibilidade logística e fortalecimento da reputação do Brasil como fornecedor confiável. A leitura do lado chinês reforça essa interpretação. Veículos como a Xinhua News Agency e o China Economic Net têm reiterado, em suas coberturas recentes, que a segurança alimentar é tratada como prioridade estratégica de Estado, sendo parte integrante da política de estabilidade econômica e social do país. Nesse sentido, o endurecimento das exigências sobre importações agrícolas não se limita a uma questão técnica, mas reflete uma diretriz de governança nacional voltada à mitigação de riscos sistêmicos na cadeia de abastecimento. A narrativa predominante enfatiza a necessidade de garantir que os produtos importados atendam integralmente aos padrões chineses já na origem, transferindo aos parceiros comerciais a responsabilidade pela conformidade. Essa dinâmica tem implicações diretas para o posicionamento do Brasil no mercado internacional. Ao alinhar seus processos internos às exigências chinesas, o país não apenas reduz o risco de sanções comerciais, como suspensão de exportadores ou retenção de cargas, mas também fortalece sua posição como parceiro estratégico de longo prazo. Para o investidor chinês, esse movimento representa um sinal claro de maturidade institucional e compromisso com padrões internacionais, reduzindo incertezas operacionais e ampliando a atratividade de investimentos em cadeias associadas ao agronegócio brasileiro. Adicionalmente, abre-se uma janela relevante de oportunidades em infraestrutura logística e tecnologia aplicada ao controle sanitário. A necessidade de modernização dos terminais, implementação de sistemas avançados de rastreabilidade e integração digital da cadeia cria espaço para atuação de empresas com expertise em gestão portuária, automação e monitoramento, áreas nas quais grupos chineses possuem reconhecida competitividade global. Nesse sentido, o novo ambiente regulatório brasileiro pode ser interpretado não apenas como um mecanismo de controle, mas como um vetor de atração de capital e inovação. Em síntese, a intensificação da fiscalização sobre terminais alfandegados no Brasil deve ser analisada sob uma perspectiva sistêmica e bilateral . Trata-se de uma resposta técnica às exigências de um mercado cada vez mais rigoroso, liderado pela China, e ao mesmo tempo de um movimento estratégico de consolidação do país como fornecedor global de alimentos com alto padrão de qualidade e confiabilidade. Para investidores e operadores internacionais, especialmente chineses, o cenário que se desenha é de maior previsibilidade regulatória, redução de riscos e ampliação de oportunidades em uma das cadeias mais relevantes da economia global contemporânea.

10 de abril de 2026
João Luiz Filho
Nos últimos anos, a segurança sanitária tem se consolidado como um dos pilares centrais da estabilidade do mercado global de proteínas. Em um cenário de crescente integração entre cadeias produtivas e aumento das exigências regulatórias, eventos sanitários deixam de ser apenas questões técnicas e passam a influenciar diretamente decisões comerciais, fluxos logísticos e estratégias de investimento. É nesse contexto que a recente confirmação de focos de febre aftos a em rebanhos bovinos na China ganha relevância, não apenas pelo seu impacto interno, mas sobretudo pelas implicações que projeta sobre o comércio internacional de carne e a relação com parceiros estratégicos como o Brasil. A confirmação recente de focos de febre aftosa em rebanhos bovinos na China, envolvendo cerca de 6 mil cabeças, deve ser interpretada não como um evento isolado, mas como parte de um contexto estrutural da pecuária chinesa. Até o momento, não houve divulgação oficial, por parte das autoridades centrais chinesas, sobre as províncias específicas onde os focos foram identificados, o que segue um padrão recorrente de comunicação institucional do país em eventos sanitários dessa natureza. Ainda assim, a análise de fontes oficiais do governo chinês, aliada à cobertura da mídia estatal, permite compreender com maior profundidade os desdobramentos desse episódio e suas implicações diretas para o mercado interno chinês. Do ponto de vista institucional, o Ministry of Agriculture and Rural Affairs of China classifica a febre aftosa como uma doença de controle obrigatório de mais alto nível, inserida no grupo de enfermidades que exigem resposta imediata, vacinação compulsória e monitoramento permanente. Diferentemente de países que adotaram estratégias de erradicação completa, como o Brasil, a China estrutura sua política sanitária com base em um modelo de contenção e mitigação de riscos, sustentado por campanhas nacionais de imunização, sistemas de vigilância epidemiológica descentralizados e protocolos rígidos de controle da movimentação animal. Esse modelo reflete não apenas a dimensão continental do território chinês, mas também a heterogeneidade produtiva de sua pecuária, que ainda combina sistemas altamente tecnificados com estruturas tradicionais de menor controle sanitário. As ocorrências de febre aftosa são regularmente reportadas à World Organisation for Animal Health, em conformidade com os compromissos internacionais assumidos pelo país. Esses registros indicam que os surtos tendem a ser regionalizados, concentrados em determinadas províncias, e rapidamente submetidos a medidas de contenção, como abate sanitário, bloqueio de trânsito de animais e vacinação emergencial. A transparência relativa nesse processo, ainda que controlada, demonstra que o governo central busca equilibrar a estabilidade do abastecimento interno com a manutenção da credibilidade internacional em matéria sanitária. A cobertura da mídia estatal chinesa, especialmente por meio da Xinhua News Agency e do China Daily, não enfatiza diretamente episódios específicos de surtos, mas insere o tema dentro de uma narrativa mais ampla de segurança alimentar e modernização do setor agropecuário. O discurso oficial reforça a necessidade de fortalecimento da biossegurança, ampliação do uso de tecnologias digitais no monitoramento de rebanhos e consolidação de grandes produtores como forma de reduzir vulnerabilidades sanitárias. Ao mesmo tempo, reconhece-se implicitamente que desafios estruturais persistem, o que sustenta a estratégia de complementaridade via importações de proteína animal de países com status sanitário superior. Nesse contexto, a General Administration of Customs of China desempenha papel central na proteção da cadeia alimentar chinesa no âmbito externo. A autoridade aduaneira mantém um dos sistemas de controle sanitário mais rigorosos do mundo, exigindo que países exportadores atendam a protocolos específicos, possuam reconhecimento internacional de status sanitário e mantenham plantas frigoríficas habilitadas e auditadas. Em cenários de maior sensibilidade sanitária é esperado o aumento do rigor nas inspeções, ampliação de testes laboratoriais e eventuais ajustes operacionais nos fluxos de importação. Sob a ótica estratégica, a ocorrência de focos envolvendo mais de seis mil bovinos sugere uma falha localizada nos mecanismos de contenção, possivelmente associada a regiões de alta densidade pecuária ou menor nível de tecnificação. Ainda assim, a resposta institucional chinesa tende a ser rápida e coordenada, com o objetivo de evitar a disseminação da doença e preservar a estabilidade do mercado interno de carne bovina. Esse movimento, por sua vez, reforça a dependência estrutural da China em relação a fornecedores externos confiáveis, capazes de garantir regularidade de oferta e conformidade sanitária rigorosa. É nesse ponto que o Brasil se consolida como parceiro estratégico de primeira ordem. Sob a coordenação do Ministério da Agricultura e Pecuária, o país avançou significativamente em seu programa de erradicação da febre aftosa, alcançando o status de livre da doença sem vacinação em diversas regiões e estruturando um sistema robusto de vigilância, rastreabilidade e certificação sanitária reconhecido internacionalmente. Esse diferencial posiciona a carne bovina brasileira em um patamar de elevada competitividade no mercado chinês, especialmente em momentos de maior sensibilidade sanitária interna naquele país. Para investidores chineses, a leitura desse cenário é clara: a recorrência de eventos sanitários no ambiente doméstico reforça a importância da diversificação de origens e da construção de cadeias de suprimento resilientes. Nesse sentido, o Brasil não apenas se apresenta como fornecedor confiável, mas também como plataforma estratégica para investimentos diretos em produção pecuária, processamento industrial e logística de exportação de proteína animal. A complementaridade entre os dois países, portanto, não se limita ao comércio, mas se estende à integração de longo prazo das cadeias produtivas. Em síntese, os focos recentes de febre aftosa na China devem ser compreendidos como um elemento inerente ao modelo sanitário vigente no país, e não como uma ruptura estrutural. No entanto, seus efeitos indiretos são relevantes: elevam o nível de atenção regulatória, reforçam a demanda por produtos importados de alta confiabilidade e ampliam a relevância estratégica do Brasil no abastecimento do mercado chinês. Para agentes econômicos e investidores, trata-se de um cenário que combina risco sanitário doméstico na China com oportunidade de consolidação internacional para fornecedores com excelência sanitária comprovada.

6 de abril de 2026
João Luiz Filho
A edição de 2026 do Show Safra, realizado no estado de Mato Grosso, consolidou-se como um dos principais marcos estruturantes do agronegócio brasileiro, não apenas pela sua dimensão operacional, mas sobretudo por evidenciar uma transformação mais profunda do setor. Com aproximadamente 600 expositores e um público estimado em cerca de 190 mil visitantes, o evento demonstrou, na prática, a elevada capacidade de investimento do produtor rural brasileiro, bem como o avanço consistente da integração entre tecnologia, indústria, sistema financeiro e políticas públicas. Mais do que uma feira agrícola, o Show Safra 2026 posiciona-se como uma plataforma estratégica de articulação entre os principais agentes do agronegócio, funcionando simultaneamente como ambiente de negócios, vitrine tecnológica e espaço de sinalização institucional. A presença do Ministério da Agricultura e Pecuária, representado pelo ministro Carlos Fávaro, reforçou esse caráter ao destacar, durante a abertura do evento, a prioridade do governo brasileiro na ampliação do acesso a mercados internacionais, no fortalecimento das exportações e na consolidação do país como fornecedor global estratégico de alimentos. Essa atuação coordenada entre governo e setor produtivo indica um ambiente institucional cada vez mais previsível e alinhado às demandas do comércio internacional, fator essencial para investidores estrangeiros. Paralelamente, um dos sinais mais relevantes observados ao longo do evento foi a clara transição do modelo tradicional do agronegócio brasileiro, historicamente baseado na exportação de commodities, para uma estrutura mais sofisticada, orientada à agregação de valor e à industrialização local. Iniciativas destacadas por lideranças regionais, especialmente no município de Lucas do Rio Verde, promovidas pela Prefeitura de Lucas do Rio Verde, evidenciam o avanço dessa estratégia, com foco na implantação de plantas industriais, processamento de grãos, produção de biocombustíveis e integração logística. Trata-se de uma mudança estrutural que reposiciona o Brasil como uma plataforma agroindustrial completa, ampliando significativamente o potencial de atração de investimentos estrangeiros, sobretudo em cadeias produtivas de maior valor agregado. O governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, destacou a necessidade de avanço na agregação de valor à produção agrícola por meio da industrialização local. Segundo o governador, o estado, embora já consolidado como líder nacional na produção de grãos, ainda possui amplo espaço para expandir sua capacidade de processamento, o que demanda investimentos em infraestrutura, logística e plantas industriais. Ao enfatizar a importância de melhorar o ambiente de negócios e atrair capital nacional e internacional, o governo estadual sinaliza de forma clara a abertura para novos investimentos estruturantes, reforçando Mato Grosso como um dos principais destinos estratégicos para a expansão do agronegócio global. Ainda que os dados consolidados de volume financeiro da edição de 2026 não tenham sido oficialmente divulgados, a magnitude do evento e o perfil dos participantes indicam um ambiente altamente dinâmico de geração de negócios e tomada de decisões estratégicas. A forte presença de produtores capitalizados, aliada à elevada demanda por máquinas, insumos e soluções tecnológicas, reforça o papel do Show Safra como um dos principais momentos do calendário agrícola brasileiro para definição de investimentos. Esse dinamismo é complementado por uma infraestrutura logística robusta durante o evento, evidenciada pelo intenso fluxo de veículos e aeronaves, o que confirma sua relevância nacional. Outro eixo central da edição de 2026 foi a consolidação do uso intensivo de tecnologia no campo. Soluções baseadas em inteligência artificial, agricultura de precisão e análise de dados foram amplamente debatidas e apresentadas, indicando ganhos relevantes de eficiência operacional e produtividade. Esse movimento posiciona o agronegócio brasileiro como um setor cada vez mais sofisticado, orientado por dados e com elevado grau de previsibilidade, característica especialmente valorizada por investidores internacionais. Nesse contexto, o papel do sistema financeiro também se destaca como um indicador relevante da solidez do setor. De acordo com o Bradesco, uma das principais instituições financeiras do país, há expectativa de crescimento de até 20% na carteira de crédito voltada ao agronegócio, refletindo a confiança do mercado na capacidade de expansão do setor. Esse aumento na oferta de crédito evidencia não apenas a liquidez do produtor rural, mas também a existência de um ambiente estruturado de financiamento, capaz de sustentar novos ciclos de investimento em tecnologia, infraestrutura e industrialização. A análise integrada desses elementos permite concluir que o agronegócio brasileiro atravessa uma nova fase de desenvolvimento. O setor deixa de operar predominantemente como exportador de matéria-prima e passa a se consolidar como uma plataforma agroindustrial integrada, caracterizada por elevada capacidade de investimento, crescente sofisticação tecnológica, alinhamento institucional entre governo e setor privado e ampliação do acesso a crédito. Nesse cenário, o estado de Mato Grosso reforça seu papel como epicentro dessa transformação, atuando não apenas como principal polo produtivo, mas também como território estratégico para a implantação de projetos industriais e logísticos de grande escala.

26 de março de 2026
João Luiz Filho
A rápida incorporação de tecnologias digitais no agronegócio brasileiro, em especial o uso de drones para aplicação de defensivos agrícolas, tem ampliado a eficiência operacional no campo. No entanto, esse avanço vem sendo acompanhado por um aumento de riscos técnicos, jurídicos e financeiros associados à chamada deriva de pulverização, fenômeno em que o produto aplicado atinge áreas não alvo. Um caso recente ocorrido em Leopoldo de Bulhões, no interior do estado de Goiás, ilustra esse cenário. Um produtor rural utilizou um drone para aplicação de defensivos em área de pastagem, mas parte do produto atingiu uma lavoura vizinha, gerando um prejuízo estimado em até R$1 milhão. O episódio, amplamente divulgado pela mídia, evidencia que, mesmo com tecnologias de precisão, o risco operacional permanece elevado quando não há controle rigoroso das condições de aplicação. Contudo, esse não é um evento isolado. Levantamentos recentes indicam que casos semelhantes vêm sendo registrados em diferentes regiões do Brasil, sinalizando uma tendência estrutural. No estado do Maranhão, reportagem da Repórter Brasil (2025) identificou 228 comunidades afetadas por contaminação relacionada à pulverização de agrotóxicos, sendo que 94% dos casos estavam associados ao uso de drones. Os impactos relatados incluem perda de produção agrícola, contaminação ambiental e danos à saúde de populações locais, evidenciando a escala do problema em áreas de expansão agrícola. Em Minas Gerais, registros institucionais da Assembleia Legislativa do estado apontam denúncias de deriva de defensivos atingindo propriedades de produção orgânica, com perdas econômicas relevantes e impacto direto sobre a renda de aproximadamente 150 famílias. Estudos técnicos citados nessas discussões indicam que, em determinadas condições, menos de um terço do produto aplicado atinge efetivamente o alvo, reforçando a importância do controle operacional. Já no Ceará, série especial publicada pelo jornal O Povo (2025) destacou casos em que a deriva atingiu não apenas lavouras, mas também áreas residenciais e equipamentos públicos, como escolas, ampliando o debate sobre os limites regulatórios e a necessidade de fiscalização mais rigorosa no uso dessas tecnologias. A recorrência desses episódios em diferentes regiões, incluindo estados como Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Ceará e áreas do MATOPIBA, revela um padrão consistente: o avanço tecnológico no campo brasileiro não está sendo acompanhado, na mesma velocidade, por uma padronização operacional e regulatória capaz de mitigar riscos. Do ponto de vista técnico, a deriva está diretamente associada a variáveis como velocidade do vento, temperatura, umidade relativa do ar, altura de voo e tamanho de gota. Mesmo em aplicações com drones, considerados mais precisos do que métodos tradicionais, a ausência de controle rigoroso desses parâmetros pode resultar em dispersão significativa do produto. Nesse contexto, ganha relevância o processo de profissionalização e certificação dos operadores de drones agrícolas no Brasil, que vem sendo estruturado a partir de diretrizes estabelecidas por órgãos como a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) e o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). A regulamentação vigente exige, entre outros pontos, o registro das aeronaves não tripuladas, autorização de voo, observância das regras de segurança do espaço aéreo e, no caso específico da aplicação de defensivos, o cumprimento de requisitos agronômicos e operacionais definidos pelo MAPA. Paralelamente, observa-se a expansão de cursos técnicos e programas de capacitação oferecidos por instituições de ensino, empresas especializadas e fabricantes de tecnologia agrícola, com foco em formação prática, calibração de equipamentos, interpretação de condições climáticas e boas práticas de aplicação. Ainda assim, o mercado apresenta níveis heterogêneos de qualificação, e a ausência de padronização plena na formação dos operadores continua sendo um dos principais vetores de risco operacional. Nesse cenário, a certificação técnica e a capacitação contínua dos pilotos emergem como elementos críticos para a consolidação segura do uso de drones no agronegócio brasileiro, especialmente em operações de maior escala e com elevado nível de exigência regulatória. Sob a ótica jurídica, o ambiente brasileiro impõe um nível elevado de responsabilidade ao operador. Casos de deriva tendem a ser enquadrados no regime de responsabilidade civil objetiva, no qual a obrigação de indenizar independe da comprovação de culpa, bastando a demonstração do dano e do nexo causal. Na prática, isso significa que falhas operacionais podem resultar em indenizações elevadas, além de eventuais sanções administrativas e ambientais. Para investidores internacionais, especialmente aqueles provenientes da China, que vêm ampliando sua presença no agronegócio brasileiro, esse contexto traz uma leitura estratégica clara. O Brasil continua sendo um dos mercados agrícolas mais atrativos do mundo, com escala produtiva, disponibilidade de terras e rápida adoção de tecnologias. No entanto, a operação nesse ambiente exige um nível elevado de governança técnica, gestão de risco e compliance operacional. A adoção de drones e outras tecnologias de agricultura de precisão não deve ser analisada apenas sob a ótica da eficiência, mas também sob a perspectiva de controle operacional, capacitação de equipes e adequação às condições locais. Em um ambiente de alta intensidade produtiva e proximidade entre diferentes culturas, o risco de externalidades negativas, como a deriva, torna-se um fator crítico de gestão. Dessa forma, o diferencial competitivo no agronegócio brasileiro tende a migrar de um modelo baseado apenas em tecnologia para um modelo orientado por excelência operacional e mitigação de riscos. Empresas e investidores que conseguirem estruturar protocolos robustos de aplicação, monitoramento climático, treinamento técnico e rastreabilidade terão vantagem em relação aos demais players. O caso de Leopoldo de Bulhões, quando analisado em conjunto com os demais episódios registrados no país, não deve ser interpretado como uma exceção, mas sim como um sinal de alerta sobre a necessidade de evolução do modelo operacional do agronegócio brasileiro. Em um cenário de crescente integração entre Brasil e China no setor agrícola, compreender e gerenciar esses riscos será determinante para garantir não apenas a rentabilidade dos investimentos, mas também sua sustentabilidade no longo prazo.

23 de março de 2026
João Luiz Filho
O mercado brasileiro de fertilizantes voltou a operar em estado de atenção. Em um momento em que o agronegócio nacional depende fortemente do abastecimento externo, a combinação entre a guerra no Oriente Médio e o endurecimento da política chinesa para fertilizantes reacendeu o debate sobre segurança de suprimento, custo de produção e vulnerabilidade estratégica do Brasil. A fragilidade é conhecida, mas ganha nova dimensão em 2026. Segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil ainda importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no campo. O dado ajuda a explicar por que o tema foi alçado à condição de prioridade nacional no Plano Nacional de Fertilizantes, que busca reduzir essa dependência para 50% até 2050. O desafio não é pequeno: o país responde por cerca de 8% do consumo global de fertilizantes, e culturas como soja , milho e cana concentram mais de 73% da demanda doméstica por esses insumos. Em 2025, o Brasil registrou recorde de importação, com 45,5 milhões de toneladas internalizadas, segundo dados oficiais divulgados pelo governo federal, com base no Boletim Logístico da Conab. O volume confirma a robustez do agro brasileiro e a capacidade logística de internalização por portos como Paranaguá, Santos e Arco Norte. Mas também escancara o tamanho da dependência: quando o mercado internacional entra em turbulência, o impacto chega rapidamente ao custo de produção no campo. É exatamente isso que está em curso agora. A escalada do conflito no Oriente Médio atingiu um dos pontos mais sensíveis do comércio global de fertilizantes: o Estreito de Hormuz, por onde passa aproximadamente um terço do comércio marítimo mundial desses produtos. Como os nitrogenados dependem fortemente do gás natural como matéria-prima, a instabilidade regional afeta, ao mesmo tempo, produção, frete, seguro e disponibilidade. No caso da ureia, os preços de exportação no Oriente Médio já acumulam alta de cerca de 40% desde o início da crise. Para o Brasil, a pressão é direta. A ureia é um dos principais fertilizantes nitrogenados usados nas lavouras brasileiras, e o país é praticamente dependente de importações desse produto. Nos últimos dias, a alta de preços ganhou velocidade. A ureia no mercado brasileiro subiu cerca de 35% em duas semanas. No mesmo período, as importações brasileiras de ureia, nos dois primeiros meses de 2026, recuaram 33% na comparação anual, enquanto as compras de sulfato de amônio aumentaram 19%, movimento que sugere tentativa de substituição por alternativas de menor custo. Como se a pressão geopolítica não bastasse, a China passou a atuar de forma ainda mais defensiva no setor. Reportagem da Reuters, publicada em 19 de março, mostrou que Pequim apertou as restrições às exportações de fertilizantes, atingindo determinadas misturas NK, fosfatados e outros produtos já submetidos a controles. A agência informou que, somadas às limitações anteriores sobre ureia, as medidas podem afetar entre metade e três quartos das exportações chinesas do ano passado. Trata-se de um fator adicional de aperto para um mercado já tensionado pela guerra. Embora a China não tenha anunciado formalmente um bloqueio geral de exportações, em uma declaração oficial ampla, a direção da política pública chinesa aponta, com nitidez, para a proteção do mercado interno. Em 5 de fevereiro, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China publicou diretriz para assegurar a oferta e a estabilidade de preços de fertilizantes em 2026, com foco em matéria-prima, produção mínima, abastecimento prioritário ao mercado doméstico, estoques e gestão do comércio exterior. Em paralelo, o Ministério do Comércio chinês manteve, para 2026, o regime de quotas tarifárias e licenciamento de importação para produtos fertilizantes, reforçando o caráter estratégico do setor para a segurança alimentar do país. Esse movimento tem peso real para o Brasil. Os fertilizantes chineses responderam por aproximadamente um quinto das importações de países como Brasil, Indonésia e Tailândia no ano passado. Em outras palavras, a redução da oferta chinesa não ocorre em um mercado folgado, mas justamente em um momento em que o sistema global já enfrenta perturbações logísticas, energéticas e geopolíticas. O resultado é um novo ambiente de incerteza para o produtor brasileiro. Mesmo com o recorde de importações em 2025, o cenário atual mostra que a segurança de suprimento não depende apenas do volume comprado, mas também da diversificação de origem, da previsibilidade logística, da política externa comercial e do fortalecimento da produção nacional. O tema deixa de ser apenas conjuntural e volta a ser estrutural. Em síntese, o mercado de fertilizantes no Brasil deixou de ser apenas um componente operacional da cadeia agrícola e passou a ocupar posição central na estratégia econômica e alimentar nacional. Em um contexto global marcado por tensões geopolíticas e reconfiguração das cadeias de suprimento, a dependência externa brasileira se transforma em um fator crítico de risco, ao mesmo tempo em que abre espaço para investimentos estruturais de longo prazo. Para a China, cuja política recente reforça a prioridade do abastecimento interno, o Brasil se apresenta como um mercado estratégico, tanto do ponto de vista comercial quanto industrial, especialmente para iniciativas que busquem maior integração entre produção, logística e segurança de suprimento no setor de fertilizantes.

20 de março de 2026
João Luiz Filho
O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) anunciou, na noite de 13 de março, ajustes operacionais no processo de inspeção fitossanitária de cargas de soja destinadas ao mercado chinês. A medida, segundo o próprio governo brasileiro, busca reforçar o controle sanitário das exportações agrícolas e garantir o cumprimento rigoroso dos protocolos fitossanitários estabelecidos entre Brasil e China. Embora não represente a criação de uma nova legislação, a iniciativa se insere em um processo mais amplo de modernização da defesa agropecuária brasileira, estruturado a partir da Lei nº 14.515/2022, conhecida como Lei do Autocontrole, que reorganizou o sistema de fiscalização do agronegócio no país e instituiu novos instrumentos de monitoramento e conformidade sanitária ao longo das cadeias produtivas. O texto da lei pode ser consultado no portal oficial do governo brasileiro. De acordo com informações divulgadas pelo próprio Ministério da Agricultura, a Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) passou a adotar procedimentos mais rigorosos na inspeção de cargas destinadas à China, incluindo a intensificação da amostragem fitossanitária antes do embarque, a verificação mais detalhada da presença de impurezas e sementes de plantas daninhas e uma supervisão mais rigorosa das cargas destinadas à exportação. Essas inspeções são conduzidas por fiscais federais agropecuários e fazem parte do processo de emissão do Certificado Fitossanitário Internacional, documento obrigatório para exportações agrícolas e que atesta que o produto atende às exigências sanitárias do país importador. Sem a emissão desse certificado pelo MAPA, o embarque da carga não pode ser autorizado. As mudanças operacionais foram motivadas pela identificação de não conformidades em algumas cargas exportadas. Autoridades brasileiras identificaram problemas em lotes destinados ao mercado chinês, incluindo a presença de sementes de plantas daninhas e outras impurezas que não atendiam plenamente aos requisitos estabelecidos nos protocolos fitossanitários bilaterais. A mudança provocou repercussões imediatas no mercado de exportação de soja. Algumas tradings internacionais suspenderam temporariamente embarques enquanto buscavam compreender os novos procedimentos adotados pelo Ministério da Agricultura. Entre as empresas citadas está a Cargill, que teria interrompido temporariamente embarques de soja destinados à China após a adoção dos novos critérios de inspeção. O episódio também contribuiu para uma paralisação momentânea de negociações no mercado físico de soja enquanto exportadores e autoridades alinhavam os novos procedimentos operacionais. A inspeção de produtos agrícolas exportados pelo Brasil é conduzida pela Secretaria de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura por meio do sistema de Vigilância Agropecuária Internacional (VIGIAGRO), responsável pelo controle sanitário em portos, aeroportos e postos de fronteira. O sistema verifica a documentação fitossanitária das cargas, as condições sanitárias dos produtos exportados e o cumprimento dos protocolos bilaterais de comércio agrícola estabelecidos com os países importadores. Esse processo é fundamental para assegurar que os produtos agrícolas brasileiros atendam às exigências sanitárias internacionais e possam ingressar sem restrições nos mercados externos. O reforço das inspeções também ocorre em um momento em que o Brasil busca modernizar seu sistema de fiscalização agropecuária. A Lei nº 14.515/2022 introduziu o conceito de programas de autocontrole, exigindo que empresas da cadeia agroindustrial implementem sistemas próprios de controle de qualidade, rastreabilidade e monitoramento sanitário. Esse modelo aproxima o país de práticas adotadas por grandes exportadores agrícolas e permite que a fiscalização pública concentre esforços em auditorias e análises de risco, fortalecendo a credibilidade do sistema sanitário brasileiro no comércio internacional. Questões relacionadas à inspeção fitossanitária de produtos agrícolas são tratadas regularmente no âmbito da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), principal mecanismo institucional de diálogo entre os dois países. Dentro desse fórum, a Subcomissão de Temas Sanitários e Fitossanitários atua na harmonização de procedimentos técnicos e na solução de eventuais divergências regulatórias que possam afetar o comércio agrícola bilateral. O comércio de soja entre Brasil e China é regido por protocolos sanitários e fitossanitários estabelecidos entre o Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil (MAPA) e a Administração Geral das Alfândegas da China (GACC), autoridade responsável pelo controle sanitário das importações agroalimentares no país asiático. Esses protocolos definem os requisitos técnicos que devem ser cumpridos para que cargas brasileiras possam ingressar no mercado chinês, incluindo critérios relacionados à presença de pragas quarentenárias, limites de impurezas, rastreabilidade da produção e certificação fitossanitária oficial. No caso da soja, o cumprimento dessas exigências é verificado por meio do Certificado Fitossanitário Internacional emitido pelo MAPA, documento que acompanha cada embarque e atesta que a carga foi inspecionada e está em conformidade com os requisitos estabelecidos pelas autoridades chinesas. A China responde por cerca de 70% das exportações brasileiras de soja, consolidando-se como o principal destino da commodity no comércio internacional. Nesse contexto, a manutenção de elevados padrões sanitários e de qualidade tornou-se um elemento estratégico da política agrícola brasileira. A intensificação dos procedimentos de inspeção no Brasil também reflete uma tendência mais ampla da política chinesa de segurança alimentar. Nos últimos anos, a China tem elevado gradualmente os padrões regulatórios aplicados às importações agrícolas, ampliando mecanismos de controle sanitário, rastreabilidade e conformidade fitossanitária. Essa estratégia faz parte do esforço do país para garantir a segurança do abastecimento alimentar de uma população superior a 1,4 bilhão de pessoas e reduzir riscos sanitários associados ao comércio internacional de alimentos. Nesse contexto, ajustes operacionais como os anunciados recentemente pelo governo brasileiro devem ser interpretados não apenas como medidas pontuais de fiscalização, mas como parte de um processo contínuo de adaptação às exigências de um dos mercados agrícolas mais importantes e regulatoriamente exigentes do mundo.

17 de março de 2026
João Luiz Filho
A agricultura brasileira alcançou, nos últimos anos, um nível de expansão sem precedentes. O país consolidou-se como uma das principais potências agrícolas do planeta, liderando exportações globais de soja, milho, café, açúcar e carne bovina. Entretanto, por trás desse crescimento expressivo, emerge um problema estrutural que ameaça a eficiência do sistema logístico do agronegócio: a insuficiência da capacidade de armazenagem de grãos. De acordo com dados recentes divulgados pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), o país possui atualmente capacidade para armazenar apenas cerca de 61,7% da produção agrícola, o menor patamar já registrado. Esse índice representa um desequilíbrio relevante entre o ritmo acelerado de expansão da produção e o crescimento muito mais lento da infraestrutura de armazenagem. Esse gargalo é evidente em estados do chamado arco produtivo do Centro-Oeste, como Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul — regiões responsáveis por grande parte da produção nacional de soja e milho. O Brasil deve produzir mais de 320 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/2026, enquanto a capacidade estática de armazenamento nacional permanece significativamente inferior a esse volume. O resultado prático é um cenário recorrente durante o período de colheita: filas de caminhões nos silos, pressão sobre os portos e necessidade de escoamento imediato da produção, muitas vezes em condições logísticas desfavoráveis. O Brasil deve continuar ampliando sua produção agrícola ao longo das próximas décadas. Entretanto, sem um avanço proporcional da infraestrutura de armazenagem e logística, parte da competitividade conquistada no campo poderá ser perdida no processo de escoamento da produção. Para parceiros internacionais e investidores estratégicos, o gargalo da armazenagem brasileira representa uma das fronteiras mais relevantes de investimento na cadeia global de alimentos. Resolver esse desafio significa não apenas aumentar a eficiência do agronegócio brasileiro, mas também fortalecer a segurança alimentar de países importadores.