
22 de outubro de 2026
João Luiz Filho
O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) confirmou, em 20 de outubro, que o governo chinês decidiu restringir as importações de carne de aves provenientes de Santa Catarina, após a identificação de um foco da doença de Newcastle no município de Nova Itaberaba. A medida atinge 14 frigoríficos catarinenses habilitados a exportar para a China, de um total de 61 estabelecimentos brasileiros habilitados, conforme informações do secretário de Comércio e Relações Internacionais do MAPA, Augusto Billi. Segundo o governo brasileiro, as negociações com as autoridades chinesas permitiram limitar a suspensão ao território catarinense, preservando as exportações dos demais estados. A decisão representa uma diferença importante em relação ao episódio ocorrido no Rio Grande do Sul, em julho de 2024. Naquela ocasião, a China inicialmente suspendeu as importações de todo o Brasil e levou aproximadamente 26 dias para restringir a medida apenas ao estado gaúcho. A reabertura do mercado ao Rio Grande do Sul ocorreu somente em janeiro de 2026, após cerca de 18 meses. Além da China, o México anunciou a suspensão preventiva das importações de determinados produtos avícolas de todo o Brasil, enquanto o Chile adotou restrições limitadas a Santa Catarina.

20 de outubro de 2026
João Luiz Filho
O Brasil voltou a enfrentar preocupações sanitárias e comerciais no setor avícola após a confirmação de um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial de perus no município de Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina. A ocorrência foi confirmada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) em 18 de outubro e divulgada oficialmente no dia seguinte. A doença de Newcastle é uma infecção viral altamente contagiosa que afeta aves domésticas e silvestres, podendo causar problemas respiratórios, alterações neurológicas e elevada mortalidade. Sua transmissão ocorre principalmente pelo contato com aves infectadas, secreções e materiais contaminados. Embora não represente risco para o consumo de carne e ovos devidamente preparados, a doença pode provocar prejuízos à produção avícola e restrições ao comércio internacional. O episódio acontece apenas nove meses após a China autorizar a retomada das exportações de carne de frango do Rio Grande do Sul, que permaneceram suspensas por aproximadamente um ano e seis meses em consequência de um foco da mesma doença registrado em julho de 2024. Embora as ocorrências sejam distintas, o histórico recente demonstra que uma emergência sanitária localizada pode produzir consequências comerciais prolongadas para a indústria brasileira de proteínas animais. Após a confirmação laboratorial da doença, o governo federal declarou estado de emergência zoossanitária por 60 dias nos municípios de Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim no estado de Santa Catarina. De acordo com o MAPA, o foco foi identificado em um estabelecimento comercial com aproximadamente 6 mil perus de corte. As amostras foram analisadas pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP), reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como laboratório de referência internacional. A propriedade foi interditada, com suspensão da movimentação de aves, e submetida aos protocolos sanitários de controle e erradicação. As medidas previstas incluem a eliminação sanitária do plantel, seguida de limpeza e desinfecção. O governo também anunciou o monitoramento de aproximadamente 133 propriedades localizadas na região afetada, com inspeções clínicas e coleta de amostras para verificar eventual circulação do vírus. As autoridades brasileiras ressaltaram que as aves da propriedade atingida permaneceram no estabelecimento e não foram destinadas à produção de carne para consumo. O MAPA também esclareceu que o consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção oficial permanece seguro. A confirmação da doença provocou reações imediatas no comércio internacional. Em 19 de outubro, o governo mexicano anunciou a suspensão preventiva das importações de produtos avícolas provenientes do Brasil, incluindo carne e miúdos de aves, ovos férteis, pintinhos de até três dias de idade e determinadas categorias de aves vivas. A medida foi adotada pelo Serviço Nacional de Sanidade, Inocuidade e Qualidade Agroalimentar (SENASICA), enquanto as autoridades mexicanas aguardam informações adicionais sobre o controle da ocorrência. Entretanto, a principal preocupação comercial envolve a China, um dos maiores destinos da carne de frango brasileira. Segundo informações apresentadas pelo presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, o protocolo sanitário firmado entre Brasil e China prevê a autossuspensão das exportações brasileiras de carne de aves quando ocorre um foco da doença de Newcastle. Nesse procedimento, o Brasil suspende preventivamente os embarques abrangidos pelo protocolo, enquanto as autoridades chinesas avaliam a ocorrência e definem o alcance das restrições, incluindo a possibilidade de regionalização. De janeiro a setembro de 2026, a China importou aproximadamente 420 mil toneladas de carne de frango brasileira, representando cerca de 10% das exportações nacionais do produto no período, conforme dados do governo brasileiro apresentados pela ABPA. Até o momento, não foi identificado novo comunicado oficial da Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC) estabelecendo a abrangência territorial ou a duração de uma eventual restrição relacionada ao foco catarinense. O precedente mais relevante ocorreu em julho de 2024, quando o Brasil confirmou um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial localizada no município de Anta Gorda, no Rio Grande do Sul. Na ocasião, as autoridades chinesas estabeleceram restrições às importações de produtos avícolas originários do estado gaúcho. O governo brasileiro adotou as medidas sanitárias previstas e declarou o encerramento da emergência em agosto de 2024. Posteriormente, em 23 de outubro daquele ano, o Brasil recuperou, por autodeclaração, a condição de país livre da doença de Newcastle em aves comerciais, conforme os procedimentos internacionais. Entretanto, a normalização sanitária não significou a retomada imediata das exportações para a China. A restrição chinesa permaneceu em vigor até janeiro de 2026, quando a GACC e o MARA publicaram o Comunicado Conjunto nº 11/2026, revogando expressamente a proibição relacionada à ocorrência registrada no Rio Grande do Sul. Com a reabertura, oito frigoríficos gaúchos foram autorizados a retomar as exportações de carne de frango e derivados ao mercado chinês, incluindo unidades da BRF, JBS Aves, Aurora Alimentos, Companhia Minuano, Agrosul e Cooperativa Languiru. A confirmação do foco em Santa Catarina também provocou reação no mercado financeiro. Na sessão de 19 de outubro, as ações de empresas com operações relevantes no setor de proteínas animais, como MBRF e JBS, registraram desvalorização em meio às preocupações com possíveis restrições comerciais. Santa Catarina representa pouco mais de 20% das exportações brasileiras de carne de frango, segundo informações apresentadas pela ABPA, o que reforça sua importância estratégica para o abastecimento dos mercados internacionais. Caso as restrições comerciais tenham abrangência territorial ampliada ou sejam mantidas por um período prolongado, as empresas poderão enfrentar necessidade de redirecionamento de produtos para outros destinos, ajustes logísticos e pressão sobre margens comerciais. Entretanto, ainda não é possível quantificar os prejuízos econômicos decorrentes da nova ocorrência, uma vez que dependem da evolução sanitária e das decisões adotadas individualmente pelos países importadores. O histórico das relações comerciais entre Brasil e China demonstra que o reconhecimento internacional das medidas sanitárias é tão importante quanto a própria erradicação de um foco. No caso do Rio Grande do Sul, a recuperação da condição sanitária ocorreu em outubro de 2024, enquanto a reabertura chinesa somente foi formalizada em janeiro de 2026. Essa diferença de aproximadamente 15 meses entre o reconhecimento sanitário e a decisão comercial chinesa evidencia a importância dos procedimentos de avaliação de risco e das negociações bilaterais. Para o episódio atual, a possibilidade de regionalização das restrições será um elemento central. Caso as autoridades chinesas reconheçam uma delimitação territorial mais restrita, os efeitos sobre o comércio brasileiro poderão ser reduzidos. Por outro lado, uma suspensão abrangente e prolongada poderia afetar o planejamento comercial das indústrias exportadoras e ampliar a pressão sobre a cadeia produtiva avícola. O novo foco de Newcastle em Santa Catarina surge em um momento particularmente sensível para o setor brasileiro: apenas nove meses após a reabertura chinesa aos frigoríficos gaúchos, o país volta a enfrentar uma ocorrência sanitária capaz de interferir nos fluxos internacionais de carne de aves. O desafio imediato do governo brasileiro será demonstrar a efetividade das medidas de contenção e erradicação, preservar a transparência sanitária e negociar com os parceiros comerciais o reconhecimento das áreas não afetadas.

5 de outubro de 2026
João Luiz Filho
Programa do governo turco prevê a importação de 500 mil bovinos para engorda em 2026, país foi o maior comprador do gado brasileiro em agosto e já planeja novas importações em 2027. O Brasil registrou em agosto de 2026 um dos resultados mais expressivos de sua história na exportação de bovinos vivos. Foram embarcadas aproximadamente 171 mil cabeças, alta de 109,4% em relação ao mesmo mês de 2025, com receita de cerca de US$ 243,9 milhões. De janeiro a agosto, as exportações brasileiras chegaram a 917,6 mil bovinos, segundo levantamento dos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Por trás do avanço, entretanto, existe um movimento que vai além do crescimento pontual das exportações brasileiras. A Turquia foi o principal destino do gado vivo brasileiro em agosto, recebendo aproximadamente 62,2 mil animais, equivalentes a 36,4% de todos os embarques do mês. Marrocos respondeu por 21,9% e o Iraque por 20,6%. Somados, os três países concentraram 79% das exportações brasileiras. No caso turco, parte importante dessa demanda está associada a uma política oficial de abastecimento e organização da produção pecuária. O Ministério da Agricultura e Florestas da Turquia estabeleceu para 2026 um programa oficial prevendo a importação de 500 mil bovinos machos destinados à engorda. De acordo com as regras publicadas pelo governo turco, 392 mil animais foram destinados a estabelecimentos com capacidade igual ou superior a 200 cabeças e outros 108 mil a propriedades com capacidade inferior a esse patamar. As importações são realizadas por intermédio da estatal Et ve Süt Kurumu (ESK), instituição responsável pela operação e pela definição dos preços de venda dos animais importados aos produtores turcos. O calendário estabelecido pelo governo também ajuda a entender o forte resultado brasileiro de agosto. A distribuição dos bovinos importados foi organizada em três períodos: Abril, maio e junho; Julho, agosto e setembro; Outubro, novembro e dezembro. Portanto, o recorde brasileiro de agosto ocorreu justamente durante o segundo período programado de distribuição de animais importados pela Turquia. Não é possível atribuir todo o crescimento brasileiro exclusivamente ao programa turco, outros destinos, especialmente Marrocos e Iraque, também tiveram participação relevante, mas os números mostram que a Turquia exerceu papel central no resultado. Os documentos oficiais da Turquia também ajudam a explicar por que o país vem recorrendo às importações. Ao divulgar as condições para a comercialização dos bovinos importados em 2026, a ESK informou que a operação pretende contribuir para o equilíbrio dos preços da carne vermelha, segurança da oferta no mercado e apoio aos produtores dedicados à engorda de bovinos. Isso diferencia o movimento atual de uma simples oportunidade comercial circunstancial. Existe uma estrutura governamental organizada para importar animais, distribuí-los entre produtores e utilizá-los como um dos instrumentos para abastecimento da cadeia pecuária turca. Ao mesmo tempo, a Turquia continua possuindo um rebanho doméstico expressivo. Segundo dados oficiais publicados pelo Instituto Estatístico Turco (TÜİK), o país possuía aproximadamente 17,64 milhões de bovinos em junho de 2026, número 0,5% superior ao registrado em dezembro de 2025. Assim, o aumento das importações não significa necessariamente uma retração generalizada da produção pecuária local. As compras externas estão inseridas em uma estratégia mais ampla de abastecimento e oferta de animais para engorda. A relação comercial entre Brasil e Turquia também vem se ampliando. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) destaca que a Turquia passou a integrar, em 2024, o grupo dos dez maiores destinos dos produtos do agronegócio brasileiro e registra uma tendência de expansão das exportações brasileiras para aquele mercado ao longo da última década. Além do complexo soja, café e algodão, o próprio Mapa coloca o gado vivo entre os produtos brasileiros relevantes nas vendas para a Turquia. A relação sanitária para bovinos também avançou. Documentos da Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa mostram que o Brasil possui protocolos para exportação de bovinos vivos à Turquia tanto para engorda quanto para reprodução. Em 2025, por exemplo, o governo brasileiro publicou orientações específicas para a certificação de bovinos destinados à reprodução naquele mercado. Esse avanço amplia as possibilidades comerciais além do fornecimento tradicional de animais destinados exclusivamente à engorda. Do lado brasileiro, o crescimento também apresenta forte concentração regional. Em agosto, o Pará respondeu por 65,9% dos bovinos vivos exportados pelo país, com aproximadamente 112,6 mil cabeças. Rio Grande do Sul respondeu por 23,6% e Paraná por 6,7%. Somente o Pará foi responsável por grande parte do crescimento observado na comparação com agosto de 2025. O movimento reforça a importância da infraestrutura portuária, dos estabelecimentos de pré-embarque e da logística especializada necessária para operações envolvendo animais vivos. Talvez o sinal mais relevante para o mercado brasileiro tenha surgido no final de setembro. Em 26 de setembro de 2026, o Ministério da Agricultura e Florestas da Turquia divulgou seu planejamento para o próximo ano. O governo pretende autorizar, em 2027, a importação de 480 mil bovinos machos destinados à engorda. Desse total, 380 mil animais deverão ser direcionados a estabelecimentos com capacidade igual ou superior a 200 cabeças e outros 100 mil a propriedades menores. As operações continuarão sendo realizadas por intermédio da ESK. O anúncio não significa que esses 480 mil animais serão necessariamente comprados do Brasil. A Turquia pode utilizar diferentes países fornecedores e as compras dependerão de preços, disponibilidade, condições sanitárias e negociações comerciais. Entretanto, o planejamento demonstra que a necessidade turca de importação de bovinos não termina com o programa de 2026. Para o Brasil, que já ocupa posição relevante nesse mercado e foi o principal fornecedor observado nos dados de agosto, a continuidade do programa representa uma oportunidade a ser acompanhada em 2027. Os números de agosto mostram uma combinação pouco comum: forte crescimento dos embarques brasileiros, participação elevada da Turquia e expansão simultânea de outros mercados, principalmente do Marrocos e Iraque. Ao mesmo tempo, a concentração merece atenção. Somente três países responderam por 79% dos bovinos vivos exportados pelo Brasil em agosto. Uma mudança de política de importação, exigência sanitária ou condição econômica em algum desses mercados pode alterar rapidamente o fluxo comercial. Por isso, o recorde de agosto não deve ser interpretado isoladamente como garantia de uma trajetória contínua de crescimento. O que os dados permitem afirmar é que o Brasil consolidou capacidade para atender grandes operações internacionais de bovinos vivos e encontrou, sobretudo na Turquia, um mercado apoiado por uma política oficial de importação. Com 500 mil bovinos previstos pelo programa turco de 2026 e outros 480 mil planejados para 2027, a relação entre a pecuária brasileira e o mercado turco tende a permanecer como um dos movimentos mais relevantes a serem acompanhados no comércio internacional de gado vivo.

2 de outubro de 2026
João Luiz Filho
A China autorizou quatro novos estabelecimentos brasileiros a exportar produtos de origem animal para o mercado chinês. As novas habilitações contemplam duas plantas de carne bovina e duas de carne de aves, ampliando o número de frigoríficos brasileiros aptos a acessar um dos maiores mercados consumidores de proteína animal do mundo. A atualização ocorreu em 29 de setembro de 2026, poucos dias após o encerramento de uma missão de autoridades sanitárias chinesas ao Brasil para avaliação do sistema brasileiro de controle de produtos de origem animal. As autorizações foram concedidas pela Administração-Geral das Alfândegas da China (GACC), órgão responsável, entre outras atribuições, pelo registro dos estabelecimentos estrangeiros autorizados a fornecer alimentos ao país. Na carne bovina, foram habilitadas: Supremo Carnes Ltda. — SIF 4293 — Carlos Chagas, Minas Gerais Masterboi Ltda. — SIF 5317 — Canhotinho, Pernambuco No segmento de aves, receberam autorização: Avivar Alimentos S/A — SIF 960 — São Sebastião do Oeste, Minas Gerais Cooperativa Dália Alimentos Ltda. — SIF 317 — Arroio do Meio, Rio Grande do Sul Os números de registro permitem identificar precisamente os estabelecimentos perante o Serviço de Inspeção Federal. O SIF 5317 da Masterboi em Canhotinho consta inclusive no relatório institucional da companhia; o SIF 960 da Avivar aparece em documentação do próprio MAPA; e o SIF 317 da Dália está registrado em documentação oficial vinculada ao Ministério da Agricultura. O estabelecimento da Supremo em Carlos Chagas é identificado como SIF 4293 pela própria empresa e em registros de certificação da unidade. Para um frigorífico brasileiro exportar carne para a China não basta possuir autorização para operar no Brasil. O estabelecimento precisa atender aos requisitos sanitários e regulatórios acordados entre os dois países, possuir registro junto ao Serviço de Inspeção Federal (SIF) e ser reconhecido pelas autoridades chinesas competentes. O número do SIF identifica individualmente cada estabelecimento submetido à fiscalização federal brasileira. Assim, a autorização chinesa não é concedida genericamente ao grupo empresarial, mas à planta industrial específica registrada e avaliada. Nesse sentido, uma nova habilitação representa o reconhecimento de que aquela unidade está apta, sob o ponto de vista sanitário e regulatório, a produzir mercadorias destinadas ao mercado chinês. Isso não significa, entretanto, garantia de vendas ou de volumes exportados. Depois da habilitação sanitária começa outra etapa: a negociação comercial entre frigorífico brasileiro, importadores e distribuidores chineses. No segmento bovino, a Supremo Carnes — SIF 4293, localizada em Carlos Chagas, no nordeste de Minas Gerais, passa a integrar o grupo de estabelecimentos brasileiros autorizados a fornecer carne bovina diretamente ao mercado chinês. A unidade já possui histórico de produção voltada também ao mercado internacional e aparece identificada como SIF 4293 nos registros relacionados às suas certificações de exportação. Em Pernambuco, a habilitação da Masterboi — SIF 5317, em Canhotinho, possui importância adicional para a inserção da indústria frigorífica nordestina no comércio internacional de carne bovina. A própria Masterboi já identificava a planta de Canhotinho como SIF 5317 em seus documentos de sustentabilidade e em suas habilitações para outros mercados internacionais. No segmento avícola, a Avivar Alimentos — SIF 960, de São Sebastião do Oeste, Minas Gerais, também foi incluída entre as novas unidades habilitadas. Documentação do MAPA identifica oficialmente a empresa como estabelecimento SIF 960 e abatedouro frigorífico de produtos de aves. No Rio Grande do Sul, a nova autorização contempla o Complexo Avícola da Cooperativa Dália Alimentos — SIF 317, em Arroio do Meio. O estabelecimento possui registro federal nº 317, conforme documentação vinculada ao sistema do Ministério da Agricultura. As novas habilitações ocorrem dentro de um movimento mais amplo de expansão das relações sanitárias entre Brasil e China. O processo mostra que, apesar das mudanças recentes nas condições comerciais para determinados produtos, especialmente a carne bovina, os canais técnicos e sanitários entre os dois países continuam ativos. Para o Brasil, cada nova habilitação amplia a capacidade industrial disponível para atender compradores chineses e permite que novas regiões produtoras participem diretamente do comércio bilateral. Para a China, a ampliação da lista de estabelecimentos não significa necessariamente aumento do volume total importado. Significa, sobretudo, que mais unidades industriais passaram a cumprir as condições sanitárias exigidas para fornecer ao mercado. No caso específico da carne bovina, as habilitações acontecem em um momento bastante particular. No mesmo dia 29 de setembro, as importações chinesas de carne bovina originária do Brasil atingiram oficialmente 100% da quantidade estabelecida para o país em 2026, segundo o Ministério do Comércio da China (MOFCOM). A autoridade chinesa determinou que, a partir de 0h de 1º de outubro, as importações brasileiras que ultrapassarem a quantidade prevista na salvaguarda ficarão sujeitas a uma tarifa adicional de 55% sobre a alíquota vigente. À primeira vista, as duas decisões podem parecer contraditórias: ao mesmo tempo em que a China habilita novos frigoríficos brasileiros, o país passa a aplicar uma forte sobretaxa sobre volumes de carne bovina acima da cota. Na prática, tratam-se de dois instrumentos diferentes. A habilitação concedida pela GACC determina quais estabelecimentos estão sanitariamente autorizados a exportar. A salvaguarda administrada pelo MOFCOM determina quanto de carne bovina originária do Brasil pode entrar dentro da quantidade estabelecida antes da incidência da tarifa adicional. Isso significa que a Supremo Carnes — SIF 4293 e a Masterboi — SIF 5317 não receberam cotas individuais adicionais ao serem habilitadas. As duas empresas entram no conjunto de frigoríficos brasileiros autorizados sanitariamente a fornecer para a China, mas suas exportações continuam sujeitas às mesmas regras comerciais aplicáveis à carne bovina de origem brasileira. Em outras palavras: habilitação sanitária determina quem pode exportar; a salvaguarda determina as condições tarifárias para o volume importado. Por isso, o impacto das novas autorizações não deve ser analisado apenas pelas últimas semanas de 2026. As habilitações possuem caráter plurianual, enquanto a salvaguarda chinesa estabelece quantidades anuais que serão renovadas nos próximos anos. A entrada de novas plantas na lista chinesa amplia a base brasileira de fornecedores aptos a disputar contratos futuros e fortalece a capacidade de diferentes regiões produtoras de participar do comércio bilateral. No segmento bovino, isso coloca Minas Gerais e Pernambuco com novas unidades aptas a disputar o mercado chinês. No setor avícola, Minas Gerais e Rio Grande do Sul ampliam sua presença por meio das plantas SIF 960 e SIF 317. Para frigoríficos, a China continua sendo um mercado estratégico . A habilitação permite acesso a compradores chineses, maior diversificação de destinos e novas possibilidades de aproveitamento comercial da produção. Para produtores rurais localizados nas regiões próximas às novas unidades autorizadas, também pode representar, no médio e longo prazo, a entrada de mais um canal potencial de comercialização de animais destinados ao mercado externo. Os acontecimentos de setembro mostram que a relação entre Brasil e China no setor de proteínas está entrando em uma fase mais complexa. De um lado, a China continua reconhecendo novas plantas, ampliando protocolos e autorizando novos produtos brasileiros. Do outro, o governo chinês passou a utilizar mecanismos de defesa comercial para controlar o crescimento das importações de carne bovina. Isso não significa necessariamente o fechamento do mercado chinês ao Brasil. Significa que acesso sanitário e condições comerciais passam a caminhar em trilhas diferentes. Para as empresas brasileiras, estar habilitado continua sendo essencial. Mas, cada vez mais, também será necessário acompanhar cotas, tarifas, logística, datas de entrada das cargas e condições comerciais negociadas com os importadores chineses. As habilitações da Supremo Carnes (SIF 4293), Masterboi (SIF 5317), Avivar Alimentos (SIF 960) e Cooperativa Dália Alimentos (SIF 317) demonstram que o processo de abertura sanitária continua avançando. O próximo desafio será transformar essas autorizações em operações comercialmente viáveis em um mercado que permanece estratégico para o Brasil, mas que em 2026 passou a operar sob novas regras.

1 de outubro de 2026
João Luiz Filho
Revisão do protocolo sanitário entre Brasil e China amplia a relação de produtos autorizados e pode criar novas oportunidades comerciais para frigoríficos brasileiros Brasil e China deram mais um passo na ampliação do comércio bilateral de proteína animal. Em 26 de setembro de 2026, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e representantes do governo chinês assinaram a revisão do protocolo sanitário para a exportação de miúdos suínos brasileiros ao mercado chinês. O acordo foi assinado pelo ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, e pelo embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao. Segundo o MAPA, a mudança amplia o conjunto de produtos brasileiros autorizados a ingressar no mercado chinês e cria novas possibilidades comerciais para os estabelecimentos habilitados. Mais do que simplesmente ampliar o volume exportado, o novo protocolo poderá ajudar a indústria brasileira a aumentar o valor obtido com cada animal processado. O mercado chinês já estava aberto a determinados produtos suínos brasileiros. Portanto, a assinatura não representa a primeira autorização para exportação de miúdos do Brasil para a China. Até então, produtos como pés, orelhas, cauda, língua, focinho e máscara suína já estavam entre os itens autorizados, observadas as condições sanitárias aplicáveis. De acordo com o MAPA, passam a integrar o conjunto de produtos abrangidos pelo protocolo itens como pele, cartilagem, estômago, fígado, coração, rins, diafragma e ossos suínos, além de gordura e outras categorias previstas no acordo. Esse detalhe é importante porque parte desses produtos possui demanda específica no mercado asiático e pode alcançar uma destinação comercial diferente daquela encontrada em outros mercados. Segundo o Ministério da Agricultura, a China movimenta aproximadamente US$ 2,5 bilhões em importações de miúdos suínos. O número representa a dimensão do mercado importador chinês e não deve ser interpretado como receita potencial automática para o Brasil. Ainda assim, demonstra a relevância comercial do segmento que passa a ficar mais acessível aos frigoríficos brasileiros habilitados. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) estima que, com o novo acesso, mais de 100 mil toneladas anuais de miúdos suínos brasileiros possam encontrar destinação ao mercado chinês. Segundo a entidade, esse movimento poderá representar mais de US$ 100 milhões adicionais em receitas para o setor, especialmente pela possibilidade de direcionar produtos para um mercado onde existe demanda mais elevada e melhor valorização. A diferença entre os dois números é importante: os US$ 2,5 bilhões citados pelo MAPA correspondem aproximadamente ao mercado chinês de importação de miúdos, enquanto os US$ 100 milhões representam uma estimativa da ABPA sobre o potencial adicional para a cadeia brasileira. Os primeiros cálculos da ABPA mostram a dimensão potencial da mudança. Somente para Santa Catarina, a entidade estima a possibilidade de direcionamento de aproximadamente 65,9 mil toneladas anuais de miúdos internos à China. Para o Rio Grande do Sul, o potencial estimado supera 40 mil toneladas por ano, além das oportunidades relacionadas à carne suína com osso. Somados, os potenciais inicialmente identificados pela associação para os dois estados ultrapassam 100 mil toneladas anuais. A importância desses produtos está também no melhor aproveitamento econômico da carcaça. Produtos que já possuem valor e destinação comercial podem encontrar na China um mercado de maior demanda. Há uma complementaridade entre os hábitos de consumo brasileiros e chineses que pode permitir à indústria obter maior receita sobre partes do animal que possuem valorização distinta em cada mercado. A formalização de setembro é resultado de um processo de negociação sanitária que vinha sendo conduzido entre as autoridades dos dois países. Em maio de 2026, durante missão oficial brasileira a Pequim, o MAPA informou que o ministro André de Paula havia se reunido com a ministra da Administração-Geral das Alfândegas da China (GACC), Sun Meijun. Na ocasião, Brasil e China confirmaram entendimentos técnicos relacionados aos requisitos sanitários do protocolo revisado para carne suína e seus subprodutos, preparando o caminho para a posterior formalização. A evolução das negociações também ocorre após uma mudança importante no status sanitário brasileiro. Em maio de 2025, o Brasil recebeu da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) o reconhecimento de todo o território nacional como livre de febre aftosa sem vacinação, condição que fortalece as negociações brasileiras para abertura e ampliação de mercados internacionais de produtos de origem animal. O protocolo também foi formalizado em um momento relevante para as relações sanitárias entre os dois países. Segundo o MAPA, uma missão técnica chinesa iniciou, em 20 de setembro, auditorias em estabelecimentos brasileiros ligados às cadeias de carnes bovina, suína e de aves. Durante a missão, técnicos chineses visitaram unidades produtivas, propriedades rurais, frigoríficos e laboratórios oficiais em seis estados brasileiros. A assinatura da revisão do protocolo ocorreu no encerramento dessa agenda. A presença das autoridades sanitárias chinesas reforça a importância que os requisitos de inspeção, rastreabilidade, certificação e controle sanitário continuam tendo na relação comercial entre os dois países. Apesar da relevância do anúncio, é necessário diferenciar abertura de mercado de exportação efetivamente realizada. O próprio MAPA informa que os estabelecimentos habilitados deverão cumprir os requisitos sanitários e de certificação definidos pelas autoridades dos dois países. Portanto, a assinatura do protocolo cria a possibilidade comercial, mas o crescimento efetivo dos embarques dependerá da habilitação dos estabelecimentos, do cumprimento dos requisitos sanitários, da demanda dos importadores chineses, dos preços e da competitividade da indústria brasileira. Os volumes superiores a 100 mil toneladas e a expectativa de mais de US$ 100 milhões adicionais devem ser entendidos, neste momento, como estimativas de potencial apresentadas pela ABPA, e não como exportações já contratadas. Para o agronegócio brasileiro, a mudança possui uma característica particularmente relevante: não depende apenas do crescimento da produção de carne suína, mas da possibilidade de extrair maior valor econômico de uma produção que já existe. A China possui hábitos de consumo diferentes daqueles observados no Brasil e apresenta demanda significativa por determinados miúdos e coprodutos. Essa diferença cria complementaridade entre as duas cadeias. Para frigoríficos brasileiros, significa a possibilidade de ampliar mercados e melhorar a valorização de diferentes partes da carcaça. Para importadores e distribuidores chineses, amplia a oferta proveniente de um dos maiores produtores e exportadores mundiais de proteína animal. A revisão do protocolo sanitário, portanto, representa mais do que a inclusão de novos produtos em uma lista de exportação. Ela amplia as possibilidades de integração entre duas cadeias produtivas que já mantêm uma relação comercial significativa. O próximo indicador a ser acompanhado será a transformação do acesso sanitário em comércio efetivo: novas habilitações, contratos, volumes embarcados e participação dos miúdos na pauta brasileira de carne suína destinada à China

30 de setembro de 2026
João Luiz Filho
O Brasil atingiu oficialmente 100% da cota de carne bovina estabelecida pela China para 2026. A confirmação foi publicada em 30 de setembro pelo Ministério do Comércio da República Popular da China (MOFCOM), encerrando um processo que vinha sendo acompanhado ao longo do ano pelo mercado brasileiro. Segundo o comunicado oficial do Bureau de Investigação de Defesa Comercial do MOFCOM, as importações chinesas de carne bovina originária do Brasil alcançaram 100% da quantidade estabelecida em 29 de setembro de 2026. A partir de 0h de 1º de outubro, as importações que ultrapassarem esse limite estarão sujeitas a uma tarifa adicional de 55% sobre a alíquota de importação atualmente aplicável. A informação confirma oficialmente um cenário que vinha sendo monitorado há meses tanto pelas autoridades chinesas quanto pelo setor brasileiro. A salvaguarda foi estabelecida pelo Anúncio nº 87/2025 do MOFCOM , publicado em 31 de dezembro de 2025. O governo chinês concluiu, após investigação iniciada em dezembro de 2024, que o aumento das importações de carne bovina havia causado dano grave à indústria doméstica. Como resposta, a China criou um sistema baseado em cotas por país e cobrança adicional de tarifa para os volumes que ultrapassarem esses limites. A medida vigora de 1º de janeiro de 2026 a 31 de dezembro de 2028. Para o Brasil, a quantidade estabelecida para 2026 foi de 1,106 milhão de toneladas, a maior cota concedida entre os principais fornecedores de carne bovina ao mercado chinês. O Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil (MAPA) já havia esclarecido, em julho, que a carne brasileira dentro dessa quantidade estava sujeita à tarifa regular de importação de 12% e que a sobretaxa de 55% seria aplicada somente aos volumes que ultrapassassem a cota. Esse ponto é importante: não se trata simplesmente de uma tarifa que passa a ser de 55%. O regulamento chinês determina a aplicação de 55 pontos percentuais adicionais sobre a tarifa vigente. Considerando a alíquota de 12% informada oficialmente pelo MAPA, a carga tarifária nominal sobre os volumes extras cota pode alcançar 67%. O consumo da cota brasileira ocorreu rapidamente em 2026. Em 9 de maio, o MOFCOM comunicou que o Brasil havia atingido 50% do volume permitido. Em 21 de julho, o percentual chegou a 80%. Poucas semanas depois, em 10 de agosto, já haviam sido utilizados 90% da cota brasileira. Finalmente, em 29 de setembro, a autoridade chinesa registrou oficialmente o atingimento de 100%. A evolução mostra a velocidade com que a demanda chinesa absorveu o volume destinado ao Brasil ao longo de 2026. O atingimento de 100% da cota em 29 de setembro não significa que a cobrança adicional começou imediatamente. O regulamento estabelece que a tarifa adicional passa a ser cobrada no terceiro dia contado do atingimento integral da quantidade estipulada. Por isso, o comunicado divulgado pelo MOFCOM em 30 de setembro determina expressamente que a sobretaxa começa à 0h de 1º de outubro de 2026. A partir desse momento, novas importações brasileiras abrangidas pela medida ficam sujeitas ao acréscimo tarifário. Para exportadores, frigoríficos e importadores chineses, isso torna especialmente relevante a análise da data considerada pela alfândega chinesa para o enquadramento das cargas, principalmente no caso de mercadorias já embarcadas e ainda em trânsito marítimo. Outro ponto que precisa ser destacado é que a salvaguarda chinesa não é uma sanção comercial dirigida exclusivamente ao produto brasileiro. O sistema foi criado pela China para controlar as importações de carne bovina provenientes dos principais países fornecedores, mediante limites específicos por origem. A decisão chinesa decorreu de uma investigação de salvaguarda sobre o aumento geral das importações e seus impactos sobre a indústria pecuária doméstica. O próprio MAPA havia alertado para essa diferença em julho, ao desmentir informações que circulavam no Brasil segundo as quais a China teria criado naquele momento uma nova taxação especificamente contra a carne brasileira. O que ocorre agora é diferente: o Brasil atingiu o limite que já havia sido definido anteriormente pela política de salvaguarda chinesa. A medida chinesa abrange carne bovina fresca, refrigerada ou congelada, incluindo carcaças, meias-carcaças, cortes com osso e carne desossada. O Anúncio nº 87/2025 relaciona especificamente os códigos tarifários chineses: 02011000, 02012000, 02013000, 02021000, 02022000 e 02023000. Esse recorte também é importante para a leitura dos dados brasileiros de exportação. Produtos enquadrados em outras classificações tarifárias não devem ser automaticamente somados ao volume sujeito à salvaguarda. Há ainda uma diferença metodológica importante para quem acompanha os números do comércio bilateral. Os dados brasileiros do Comex Stat registram as exportações declaradas no Brasil. Já o acompanhamento divulgado pelo MOFCOM está relacionado às importações contabilizadas pela China para fins de execução da salvaguarda. Entre um registro e outro existe o período de transporte marítimo, chegada da carga e procedimentos aduaneiros. Por isso, os volumes acumulados nos dados brasileiros podem não coincidir exatamente, em uma determinada data, com o percentual de utilização divulgado oficialmente pelas autoridades chinesas. Para determinar juridicamente quando a cota atingiu 100%, portanto, a referência deve ser o MOFCOM, que administra a medida. O atingimento integral da cota brasileira cria uma nova fase para o comércio de carne bovina entre Brasil e China em 2026. Até agora, a discussão estava concentrada principalmente na velocidade de utilização da cota. A partir de 1º de outubro, o foco tende a migrar para os impactos comerciais da sobretaxa: formação dos preços, novos contratos, comportamento dos importadores chineses, ritmo dos embarques brasileiros e eventual redirecionamento de produto para outros mercados. A China continua sendo um mercado estratégico para a carne bovina brasileira. Entretanto, uma sobretaxa adicional de 55% altera substancialmente a estrutura econômica das operações realizadas fora da cota. O cenário também reforça uma discussão que já vinha ganhando espaço dentro do setor pecuário brasileiro: a necessidade de ampliar e diversificar mercados de exportação, reduzindo a exposição do setor às alterações regulatórias ou comerciais de um único destino. O dado mais importante neste momento é objetivo: em 29 de setembro, o Brasil atingiu oficialmente 100% de sua cota para 2026 e, a partir de 1º de outubro, os volumes adicionais enquadrados na salvaguarda passam a enfrentar a sobretaxa prevista pelas autoridades chinesas. A partir de agora, o comportamento dos importadores chineses e dos embarques brasileiros permitirá medir o impacto efetivo da medida sobre o comércio bilateral de carne bovina.

29 de setembro de 2026
João Luiz Filho
O interesse de empresas e investidores chineses pelo agronegócio brasileiro tem aumentado. Em 24 de setembro, Tian Bin, fundador e CEO do IEST Group, participou de uma transmissão online voltada ao público chinês para apresentar um panorama do mercado agrícola brasileiro e discutir oportunidades de investimento no país. A transmissão teve mais de 4.600 pessoas assistindo simultaneamente e mais de 20 mil visualizações. A live teve como tema “Panorama do mercado agrícola brasileiro e oportunidades de investimento” e integrou uma programação promovida em conjunto com o Ningbo Bank, que também apresentou soluções de serviços financeiros e internacionais para empresas com operações no exterior. "Queremos aproximar o público empresarial chinês da realidade do agronegócio brasileiro , em um momento no qual a relação entre Brasil e China avança para além da tradicional compra e venda de commodities agrícolas", afirma Tian Bin. A audiência oferece um indicador relevante sobre a procura por informações a respeito do mercado brasileiro, principalmente entre empresas que avaliam processos de internacionalização. Brasil e China: uma relação comercial sólida O interesse apresentado durante a transmissão ocorre dentro de uma relação econômica já consolidada. No primeiro semestre de 2026, a China permaneceu como principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, com compras de aproximadamente US$ 30,54 bilhões, equivalentes a 35,1% das exportações do setor. O valor representou crescimento de 10,5% em comparação com o mesmo período de 2025. A composição dessas vendas mostra também onde estão atualmente os principais vínculos entre os dois países. Do valor adquirido pela China no período, 66,3% esteve relacionado ao complexo soja, 18,8% às carnes e 8,3% aos produtos florestais. Quando considerado todo o comércio exterior brasileiro, a dimensão da relação é ainda mais evidente. Entre janeiro e agosto de 2026, o Brasil exportou US$ 77,07 bilhões para a China, crescimento de aproximadamente 15% sobre igual período de 2025. O mercado chinês respondeu por 30,72% de todas as exportações brasileiras no período. Durante muitos anos, a relação entre China e agronegócio brasileiro foi observada principalmente pelo volume de soja, carnes, celulose e outros produtos embarcados pelos portos brasileiros. Esse fluxo continua sendo fundamental. Entretanto, para empresas chinesas que estudam o Brasil, as perguntas estão gradualmente se tornando mais amplas. Além de “o que comprar do Brasil?”, entram na análise questões como onde investir, como estabelecer uma empresa no país, quais regiões apresentam maior competitividade, como funciona a cadeia logística, quais são as exigências regulatórias e tributárias e de que forma fornecedores chineses podem participar das cadeias produtivas brasileiras. Nesse contexto, oportunidades podem envolver diferentes segmentos relacionados ao agronegócio, desde máquinas e equipamentos agrícolas até sementes, defensivos, fertilizantes e insumos industriais, além de logística, armazenagem, processamento de alimentos, proteínas animais, florestas plantadas, bioenergia e outras atividades ligadas à transformação da produção agropecuária. O próprio Ministério da Agricultura e Pecuária classifica atualmente a China como principal compradora dos produtos do agronegócio brasileiro e destaca que a relação bilateral também envolve investimentos e mecanismos institucionais de cooperação agrícola e sanitária entre os dois países. Para uma empresa estrangeira, porém, o tamanho do mercado brasileiro não elimina sua complexidade. Questões tributárias, ambientais, regulatórias, trabalhistas, sanitárias, logísticas e de comércio exterior podem variar significativamente conforme o setor e o Estado escolhido para implantação de um projeto. Por isso, a internacionalização exige uma análise que vá além do tamanho da produção agrícola brasileira. Localização, disponibilidade de matéria-prima, infraestrutura, proximidade dos clientes, incentivos estaduais, acesso aos portos, estrutura tributária e requisitos regulatórios podem alterar substancialmente a viabilidade de um investimento.

28 de setembro de 2026
João Luiz Filho
A imposição de tarifas pelos Estados Unidos atingiu fortemente parte da indústria brasileira de madeira em 2025, especialmente segmentos dependentes do mercado norte-americano. Entretanto, os dados oficiais mostram que não houve uma retração generalizada da atividade florestal brasileira. Enquanto madeira serrada, molduras, compensados, portas e pisos sofreram com a redução das exportações, outros segmentos seguiram trajetórias diferentes. A produção destinada à celulose avançou, a oferta energética de lenha e carvão vegetal permaneceu relativamente estável e o mercado de pellets continuou encontrando demanda tanto internamente quanto na Europa. A Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura, PEVS 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que o valor da produção florestal brasileira atingiu R$ 47,9 bilhões em 2025, crescimento de 6,7% sobre o ano anterior e novo recorde da série. A silvicultura, que representa a produção proveniente de florestas plantadas, alcançou aproximadamente R$ 41 bilhões, crescimento de 8,6%, respondendo por 85,6% do valor da produção florestal brasileira. A área de florestas plantadas chegou a aproximadamente 10,4 milhões de hectares. Esse resultado, isoladamente, já demonstra que o tarifaço não provocou uma crise generalizada da produção florestal brasileira. O que ocorreu foi uma mudança importante dentro da cadeia. Os efeitos das tarifas aparecem com muito mais clareza entre os produtos processados que historicamente dependem dos compradores norte-americanos. Segundo levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), baseado em dados da Secretaria de Comércio Exterior, as exportações brasileiras de produtos madeireiros para os Estados Unidos apresentaram queda média de 55% entre agosto e outubro de 2025, os três primeiros meses de aplicação da tarifa de 50%. Entre os segmentos atingidos estavam molduras, compensados, madeira serrada, portas e pisos. A elevada exposição ao mercado norte-americano ajuda a explicar a intensidade do impacto. Em 2025, por exemplo, o Brasil exportou 138,6 mil toneladas de molduras de madeira, das quais aproximadamente 97% tiveram os Estados Unidos como destino, segundo a Abimci. Dados do Banco Central reforçam esse cenário. Entre agosto e novembro de 2025, quando as tarifas adicionais estavam em seus níveis mais elevados, o valor total das exportações brasileiras aos Estados Unidos caiu 25,1%, enquanto o volume recuou 22%. A Região Sul, onde está instalada parte relevante da indústria brasileira de madeira processada, apresentou queda de 43,9% no valor e 42,5% no volume exportado. No Paraná, a redução do volume das exportações para os Estados Unidos chegou a 55,7% naquele período. Portanto, há evidências consistentes de que as tarifas tiveram impacto relevante sobre os segmentos madeireiros mais dependentes dos Estados Unidos. A cadeia voltada para papel e celulose apresentou uma situação bastante diferente. Segundo dados divulgados pelo IBGE, o Brasil produziu aproximadamente 22,2 milhões de toneladas de celulose em 2025, crescimento de 12,7% sobre o ano anterior. Esse crescimento ajuda a explicar por que a produção florestal brasileira continuou avançando mesmo diante das dificuldades enfrentadas pela indústria de madeira processada. O mercado internacional de celulose, entretanto, também enfrentou pressão sobre os preços. O IBGE aponta fatores como excesso de oferta global, desaceleração da demanda chinesa, aumento dos estoques internacionais e questões cambiais. Assim, quantidade produzida e rentabilidade não necessariamente seguiram a mesma trajetória. O comportamento da madeira destinada à energia também merece ser analisado separadamente. Não existe uma única estatística oficial denominada simplesmente “madeira para biomassa”. O mercado envolve diferentes produtos e rotas de utilização, incluindo lenha, carvão vegetal, cavacos, pellets, briquetes e resíduos da indústria florestal. A partir dos dados referentes a 2025, o próprio IBGE passou a fornecer maior detalhamento sobre o destino das florestas plantadas, separando madeira para papel e celulose, madeira para outras finalidades e produção destinada a lenha ou carvão vegetal. Essa mudança estatística será particularmente importante para acompanhar a expansão do mercado brasileiro de biomassa nos próximos anos. O Balanço Energético Nacional 2026, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) com dados referentes a 2025, mostra que a oferta interna de energia proveniente de lenha e carvão vegetal passou de 26,837 milhões de toneladas equivalentes de petróleo em 2024 para 27,147 milhões em 2025. O crescimento foi de aproximadamente 1,2%. O dado é particularmente relevante porque mostra que, enquanto parte da indústria exportadora de madeira enfrentava uma forte contração, a demanda energética doméstica por biomassa florestal não apresentava movimento semelhante. Há uma explicação estrutural para isso. Grande parte dessa biomassa é consumida dentro do próprio Brasil em processos industriais, produção de calor, siderurgia, agroindústria e diferentes atividades que necessitam de energia térmica. Dessa forma, esse mercado possui exposição muito menor às oscilações comerciais dos Estados Unidos. O mercado de pellets oferece outro exemplo dessa diferença. Segundo a Abimci, o Brasil exportou aproximadamente 449 mil toneladas de pellets de madeira em 2025. Quase 70% desse volume teve a Itália como destino. Ao contrário de molduras, pisos e outras categorias de madeira processada, portanto, os pellets brasileiros apresentam uma relação comercial muito mais forte com o mercado europeu do que com os Estados Unidos. A produção brasileira também possui mercado doméstico. Dados apresentados pela Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) indicam produção estimada em aproximadamente 700 mil toneladas de pellets em 2024, com cerca de 500 mil toneladas absorvidas pelo mercado interno e 200 mil toneladas destinadas às exportações. A Abimci identifica oportunidades para ampliar o uso do produto em atividades como secagem de grãos, aquecimento de aviários, indústria de alimentos e hotelaria. Essa demanda aproxima cada vez mais a cadeia florestal do agronegócio brasileiro. Outra fonte relevante de bioenergia florestal aparece dentro da própria cadeia de celulose. O chamado licor preto, subproduto do processo industrial de fabricação da celulose, tornou-se uma fonte importante de energia para as fábricas do setor. Segundo a EPE, sua participação na oferta energética brasileira aumentou 9,3% em 2025. Esse movimento acompanha a expansão da produção de celulose e demonstra como a utilização energética da madeira vai muito além da comercialização tradicional de lenha. Na geração elétrica, a biomassa como um todo também avançou. A geração das térmicas a biomassa aumentou 7,6% em 2025, enquanto a bioeletricidade alcançou o recorde de 66,1 TWh, correspondendo a 8,5% da geração brasileira. Bagaço de cana respondeu pela maior parcela, mas o licor preto representou aproximadamente 28,1% da bioeletricidade, evidenciando a participação crescente da cadeia florestal na matriz elétrica. A pressão comercial sobre a madeira processada também não terminou em 2025. Em julho de 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) informou que diversos tipos de madeira brasileira passaram a integrar produtos sujeitos simultaneamente a duas novas medidas norte-americanas da Seção 301, resultando em sobretaxa adicional acumulada de 37,5% para os produtos enquadrados nas duas medidas. O governo brasileiro também registrou que as exportações totais aos Estados Unidos recuaram de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7 bilhões em 2025 e continuaram em queda durante o primeiro semestre de 2026. O cenário mantém elevada a necessidade de diversificação de mercados para empresas brasileiras dependentes dos Estados Unidos. Os dados mostram que falar simplesmente em “queda da madeira brasileira” pode produzir uma interpretação incompleta. Em 2025, três movimentos ocorreram simultaneamente. A madeira processada altamente dependente dos Estados Unidos enfrentou uma forte redução das exportações após a elevação das tarifas. A cadeia de papel e celulose continuou expandindo a produção, apoiada por grandes investimentos industriais e pela competitividade brasileira na produção de eucalipto. E a biomassa florestal permaneceu relativamente resiliente, sustentada principalmente pelo consumo energético doméstico e, no caso dos pellets, por um mercado internacional muito mais concentrado na Europa. Essa diferenciação é particularmente relevante para investidores, produtores florestais e indústrias que analisam novos projetos no Brasil. A madeira deixou de possuir apenas um destino econômico. Dependendo da localização da floresta, da distância da indústria e das características da matéria-prima, ela pode abastecer fábricas de celulose, serrarias, produção de carvão vegetal, geração térmica, secagem de grãos, produção de cavacos, pellets e outros mercados energéticos. Para investidores internacionais — inclusive empresas chinesas interessadas em projetos industriais e em segurança energética — essa diversificação aumenta a importância de analisar não apenas o preço da terra ou a produtividade florestal, mas também a proximidade dos consumidores de biomassa, infraestrutura logística e possibilidades alternativas de utilização da madeira. O tarifaço norte-americano mostrou justamente essa diferença. Uma parcela da indústria florestal brasileira sofreu fortemente porque dependia de um único mercado externo. Em outras partes da cadeia, porém, o crescimento da celulose, a demanda doméstica por energia e o desenvolvimento do mercado internacional de biomassa ajudaram a construir uma realidade bastante diferente.

28 de setembro de 2026
João Luiz Filho
A imposição de tarifas pelos Estados Unidos atingiu fortemente parte da indústria brasileira de madeira em 2025, especialmente segmentos dependentes do mercado norte-americano. Entretanto, os dados oficiais mostram que não houve uma retração generalizada da atividade florestal brasileira. Enquanto madeira serrada, molduras, compensados, portas e pisos sofreram com a redução das exportações, outros segmentos seguiram trajetórias diferentes. A produção destinada à celulose avançou, a oferta energética de lenha e carvão vegetal permaneceu relativamente estável e o mercado de pellets continuou encontrando demanda tanto internamente quanto na Europa. A Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura, PEVS 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que o valor da produção florestal brasileira atingiu R$ 47,9 bilhões em 2025, crescimento de 6,7% sobre o ano anterior e novo recorde da série. A silvicultura, que representa a produção proveniente de florestas plantadas, alcançou aproximadamente R$ 41 bilhões, crescimento de 8,6%, respondendo por 85,6% do valor da produção florestal brasileira. A área de florestas plantadas chegou a aproximadamente 10,4 milhões de hectares. Esse resultado, isoladamente, já demonstra que o tarifaço não provocou uma crise generalizada da produção florestal brasileira. O que ocorreu foi uma mudança importante dentro da cadeia. Os efeitos das tarifas aparecem com muito mais clareza entre os produtos processados que historicamente dependem dos compradores norte-americanos. Segundo levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), baseado em dados da Secretaria de Comércio Exterior, as exportações brasileiras de produtos madeireiros para os Estados Unidos apresentaram queda média de 55% entre agosto e outubro de 2025, os três primeiros meses de aplicação da tarifa de 50%. Entre os segmentos atingidos estavam molduras, compensados, madeira serrada, portas e pisos. A elevada exposição ao mercado norte-americano ajuda a explicar a intensidade do impacto. Em 2025, por exemplo, o Brasil exportou 138,6 mil toneladas de molduras de madeira, das quais aproximadamente 97% tiveram os Estados Unidos como destino, segundo a Abimci. Dados do Banco Central reforçam esse cenário. Entre agosto e novembro de 2025, quando as tarifas adicionais estavam em seus níveis mais elevados, o valor total das exportações brasileiras aos Estados Unidos caiu 25,1%, enquanto o volume recuou 22%. A Região Sul, onde está instalada parte relevante da indústria brasileira de madeira processada, apresentou queda de 43,9% no valor e 42,5% no volume exportado. No Paraná, a redução do volume das exportações para os Estados Unidos chegou a 55,7% naquele período. Portanto, há evidências consistentes de que as tarifas tiveram impacto relevante sobre os segmentos madeireiros mais dependentes dos Estados Unidos. A cadeia voltada para papel e celulose apresentou uma situação bastante diferente. Segundo dados divulgados pelo IBGE, o Brasil produziu aproximadamente 22,2 milhões de toneladas de celulose em 2025, crescimento de 12,7% sobre o ano anterior. Esse crescimento ajuda a explicar por que a produção florestal brasileira continuou avançando mesmo diante das dificuldades enfrentadas pela indústria de madeira processada. O mercado internacional de celulose, entretanto, também enfrentou pressão sobre os preços. O IBGE aponta fatores como excesso de oferta global, desaceleração da demanda chinesa, aumento dos estoques internacionais e questões cambiais. Assim, quantidade produzida e rentabilidade não necessariamente seguiram a mesma trajetória. O comportamento da madeira destinada à energia também merece ser analisado separadamente. Não existe uma única estatística oficial denominada simplesmente “madeira para biomassa”. O mercado envolve diferentes produtos e rotas de utilização, incluindo lenha, carvão vegetal, cavacos, pellets, briquetes e resíduos da indústria florestal. A partir dos dados referentes a 2025, o próprio IBGE passou a fornecer maior detalhamento sobre o destino das florestas plantadas, separando madeira para papel e celulose, madeira para outras finalidades e produção destinada a lenha ou carvão vegetal. Essa mudança estatística será particularmente importante para acompanhar a expansão do mercado brasileiro de biomassa nos próximos anos. O Balanço Energético Nacional 2026, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) com dados referentes a 2025, mostra que a oferta interna de energia proveniente de lenha e carvão vegetal passou de 26,837 milhões de toneladas equivalentes de petróleo em 2024 para 27,147 milhões em 2025. O crescimento foi de aproximadamente 1,2%. O dado é particularmente relevante porque mostra que, enquanto parte da indústria exportadora de madeira enfrentava uma forte contração, a demanda energética doméstica por biomassa florestal não apresentava movimento semelhante. Há uma explicação estrutural para isso. Grande parte dessa biomassa é consumida dentro do próprio Brasil em processos industriais, produção de calor, siderurgia, agroindústria e diferentes atividades que necessitam de energia térmica. Dessa forma, esse mercado possui exposição muito menor às oscilações comerciais dos Estados Unidos. O mercado de pellets oferece outro exemplo dessa diferença. Segundo a Abimci, o Brasil exportou aproximadamente 449 mil toneladas de pellets de madeira em 2025. Quase 70% desse volume teve a Itália como destino. Ao contrário de molduras, pisos e outras categorias de madeira processada, portanto, os pellets brasileiros apresentam uma relação comercial muito mais forte com o mercado europeu do que com os Estados Unidos. A produção brasileira também possui mercado doméstico. Dados apresentados pela Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) indicam produção estimada em aproximadamente 700 mil toneladas de pellets em 2024, com cerca de 500 mil toneladas absorvidas pelo mercado interno e 200 mil toneladas destinadas às exportações. A Abimci identifica oportunidades para ampliar o uso do produto em atividades como secagem de grãos, aquecimento de aviários, indústria de alimentos e hotelaria. Essa demanda aproxima cada vez mais a cadeia florestal do agronegócio brasileiro. Outra fonte relevante de bioenergia florestal aparece dentro da própria cadeia de celulose. O chamado licor preto, subproduto do processo industrial de fabricação da celulose, tornou-se uma fonte importante de energia para as fábricas do setor. Segundo a EPE, sua participação na oferta energética brasileira aumentou 9,3% em 2025. Esse movimento acompanha a expansão da produção de celulose e demonstra como a utilização energética da madeira vai muito além da comercialização tradicional de lenha. Na geração elétrica, a biomassa como um todo também avançou. A geração das térmicas a biomassa aumentou 7,6% em 2025, enquanto a bioeletricidade alcançou o recorde de 66,1 TWh, correspondendo a 8,5% da geração brasileira. Bagaço de cana respondeu pela maior parcela, mas o licor preto representou aproximadamente 28,1% da bioeletricidade, evidenciando a participação crescente da cadeia florestal na matriz elétrica. A pressão comercial sobre a madeira processada também não terminou em 2025. Em julho de 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) informou que diversos tipos de madeira brasileira passaram a integrar produtos sujeitos simultaneamente a duas novas medidas norte-americanas da Seção 301, resultando em sobretaxa adicional acumulada de 37,5% para os produtos enquadrados nas duas medidas. O governo brasileiro também registrou que as exportações totais aos Estados Unidos recuaram de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7 bilhões em 2025 e continuaram em queda durante o primeiro semestre de 2026. O cenário mantém elevada a necessidade de diversificação de mercados para empresas brasileiras dependentes dos Estados Unidos. Os dados mostram que falar simplesmente em “queda da madeira brasileira” pode produzir uma interpretação incompleta. Em 2025, três movimentos ocorreram simultaneamente. A madeira processada altamente dependente dos Estados Unidos enfrentou uma forte redução das exportações após a elevação das tarifas. A cadeia de papel e celulose continuou expandindo a produção, apoiada por grandes investimentos industriais e pela competitividade brasileira na produção de eucalipto. E a biomassa florestal permaneceu relativamente resiliente, sustentada principalmente pelo consumo energético doméstico e, no caso dos pellets, por um mercado internacional muito mais concentrado na Europa. Essa diferenciação é particularmente relevante para investidores, produtores florestais e indústrias que analisam novos projetos no Brasil. A madeira deixou de possuir apenas um destino econômico. Dependendo da localização da floresta, da distância da indústria e das características da matéria-prima, ela pode abastecer fábricas de celulose, serrarias, produção de carvão vegetal, geração térmica, secagem de grãos, produção de cavacos, pellets e outros mercados energéticos. Para investidores internacionais — inclusive empresas chinesas interessadas em projetos industriais e em segurança energética — essa diversificação aumenta a importância de analisar não apenas o preço da terra ou a produtividade florestal, mas também a proximidade dos consumidores de biomassa, infraestrutura logística e possibilidades alternativas de utilização da madeira. O tarifaço norte-americano mostrou justamente essa diferença. Uma parcela da indústria florestal brasileira sofreu fortemente porque dependia de um único mercado externo. Em outras partes da cadeia, porém, o crescimento da celulose, a demanda doméstica por energia e o desenvolvimento do mercado internacional de biomassa ajudaram a construir uma realidade bastante diferente.

21 de setembro de 2026
João Luiz Filho
O El Niño voltou ao centro das preocupações do agronegócio. Mas o maior risco para a safra 2026/27 não está apenas na intensidade do fenômeno. Está no fato de que seus efeitos poderão atingir alguns dos municípios que mais produzem soja, milho e algodão no Brasil. A Organização Meteorológica Mundial informou que o El Niño está firmemente estabelecido, com probabilidade próxima de 100% de permanecer ativo durante a primavera de 2026 e o verão de 2026/27. O evento poderá atingir intensidade muito forte até o final do ano. A própria OMM, entretanto, adverte que a intensidade do aquecimento do Pacífico não determina automaticamente a dimensão dos impactos em cada região. No Brasil, o painel formado por INPE, INMET, ANA, Cemaden, Serviço Geológico e outros órgãos públicos prevê chuva abaixo da média em Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo e em grande parte das regiões Norte e Nordeste. No Sul, principalmente no Rio Grande do Sul, o risco é o oposto: precipitações acima da média, excesso de umidade e maior possibilidade de eventos extremos. Segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE, os dez municípios com maior valor da produção agrícola em 2024 foram: 1. Sorriso, em Mato Grosso; 2. São Desidério, na Bahia; 3. Sapezal, em Mato Grosso; 4. Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso; 5. Cristalina, em Goiás; 6. Formosa do Rio Preto, na Bahia; 7. Rio Verde, em Goiás; 8. Nova Ubiratã, em Mato Grosso; 9. Diamantino, em Mato Grosso; 10. Nova Mutum, em Mato Grosso. Juntos, esses municípios geraram R$ 52,4 bilhões em produção agrícola, equivalentes a 6,7% do valor nacional. Oito deles estão em Mato Grosso ou na Bahia, estados situados dentro das áreas para as quais os órgãos meteorológicos indicam maior risco de chuva abaixo da média ou irregular durante a implantação da safra 2026/27. A soja é a principal cultura em oito dos dez municípios. As exceções são Sapezal e Campo Novo do Parecis, onde o algodão ocupa a liderança. São Desidério, por sua vez, foi o maior produtor brasileiro de soja em 2024, com aproximadamente 2,1 milhões de toneladas. Essa relação não constitui uma previsão de quebra por município. É um mapa de exposição construído pelo cruzamento entre a importância econômica da produção municipal e os prognósticos climáticos oficiais. No Centro-Oeste e no Matopiba, o dano mais relevante pode não ser uma perda imediata da soja. O maior risco está no deslocamento de todo o calendário agrícola. Se a chuva atrasar, o produtor terá duas alternativas: plantar com umidade insuficiente ou esperar melhores condições. Plantar no seco aumenta o risco de germinação desuniforme, morte de plântulas e replantio. Esperar pela chuva reduz esse problema, mas posterga a colheita da soja. A colheita tardia diminui a janela disponível para o milho segunda safra e para o algodão cultivado depois da soja. Essas culturas podem chegar às fases de floração e enchimento de grãos justamente quando as chuvas começam a diminuir. Portanto, mesmo que a soja tenha um desempenho razoável, o resultado econômico anual da propriedade pode ser prejudicado pela redução da produtividade da segunda safra. A Embrapa considera esse encadeamento um dos principais riscos da temporada. A recomendação inclui respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático, cobertura do solo, diversificação das épocas de plantio, utilização de cultivares com ciclos diferentes e monitoramento das condições de umidade antes da semeadura. Mato Grosso reúne seis dos dez municípios com maior valor da produção agrícola brasileira. Por isso, qualquer atraso relevante das chuvas em Sorriso, Sapezal, Campo Novo do Parecis, Nova Ubiratã, Diamantino e Nova Mutum terá repercussões que ultrapassam os limites municipais. Além da produtividade, um plantio mais lento modifica o cronograma de compra e aplicação de insumos, contratação de máquinas, utilização de armazéns e movimentação de caminhões. Também pode concentrar a colheita em um período menor, pressionando a logística regional. Em municípios como Sapezal e Campo Novo do Parecis, o risco alcança diretamente o algodão. O atraso da soja pode empurrar a semeadura do algodão da segunda safra para fora da janela considerada ideal. Isso aumenta a exposição da cultura a veranicos e pode elevar os custos com irrigação, controle fitossanitário e replantio. Ainda não existe, entretanto, uma estimativa oficial de perda de produção para esses municípios. A consequência dependerá da data efetiva de retorno das chuvas e, sobretudo, de sua distribuição ao longo do ciclo das culturas. São Desidério e Formosa do Rio Preto estão entre os dez maiores municípios agrícolas do país. Barreiras, Luís Eduardo Magalhães e Correntina completam um dos principais corredores brasileiros de soja, milho e algodão. Nessa região, chuvas abaixo da média combinadas com temperaturas elevadas podem reduzir rapidamente a umidade do solo, aumentar a demanda por irrigação e dificultar o estabelecimento das lavouras. O risco também alcança pastagens e a disponibilidade de água para a pecuária. No Maranhão e no Piauí, o painel federal menciona expressamente a possibilidade de dificuldades na implantação da safra 2026/27. Isso coloca sob atenção municípios como Balsas, Uruçuí, Bom Jesus e Baixa Grande do Ribeiro. A irregularidade das chuvas pode ser tão prejudicial quanto a redução do volume total. Uma precipitação forte seguida por várias semanas de tempo seco pode permitir o plantio, mas não garantir umidade suficiente para o desenvolvimento inicial da cultura. Enquanto Mato Grosso e Matopiba observam o risco de atraso das chuvas, Paraná e Rio Grande do Sul enfrentam a possibilidade de excesso de precipitação. No Paraná, o Simepar registrou chuva acima da média em praticamente todo o estado durante julho de 2026. Palmas acumulou 311 milímetros, o maior volume para julho em 28 anos. Também foram observados acumulados excepcionalmente elevados em municípios como Ubiratã, Foz do Iguaçu, Pato Branco, Ponta Grossa, Capanema e São Miguel do Iguaçu. Para a safra 2026/27, os principais polos sob atenção incluem Cascavel, Toledo, Palotina, Ubiratã, Pato Branco, Francisco Beltrão, Palmas, Guarapuava e Ponta Grossa. O excesso de umidade pode provocar doenças fúngicas, erosão, perdas de solo, deterioração da qualidade do trigo e dificuldades para a entrada de máquinas. Também pode atrasar a colheita das culturas de inverno e, consequentemente, postergar o plantio da soja e do milho de verão. No Rio Grande do Sul, o Noroeste é historicamente uma das áreas mais sensíveis à chuva excessiva durante episódios fortes de El Niño. Isso exige atenção em municípios como Cruz Alta, Ijuí, Tupanciretã, Passo Fundo, Carazinho, Santa Rosa e Santo Ângelo. Nas regiões produtoras de arroz irrigado, o monitoramento deve alcançar Uruguaiana, Itaqui, Alegrete, São Borja, Dom Pedrito e Santa Vitória do Palmar. Como a disponibilidade de água já é controlada por irrigação, chuva adicional não significa necessariamente maior produtividade. Nebulosidade persistente, alagamentos e dificuldades operacionais podem prejudicar o plantio e o desenvolvimento da cultura. Ao mesmo tempo, a chuva bem distribuída pode favorecer a soja, o milho e as pastagens gaúchas. O impacto dependerá menos do volume acumulado ao longo de três meses e mais da concentração das precipitações em períodos curtos. Dourados, Maracaju, Ponta Porã, Amambai, Naviraí e Sidrolândia estão em uma zona intermediária do fenômeno. O painel oficial prevê maior possibilidade de excesso de chuva no sul de Mato Grosso do Sul. Isso pode beneficiar a reposição da umidade do solo, mas também atrasar operações agrícolas, dificultar aplicações, aumentar doenças e comprometer a qualidade dos grãos. Na soja, chuva adequada durante o desenvolvimento pode elevar a produtividade. O risco aparece quando a precipitação impede o plantio, provoca encharcamento ou reduz a luminosidade por períodos prolongados. Os efeitos do El Niño sobre esses municípios podem se espalhar por toda a cadeia do agronegócio. Um atraso da soja em Mato Grosso pode modificar o calendário de exportações e a disponibilidade de milho no segundo semestre de 2027. Excesso de chuva no Sul pode prejudicar a qualidade do trigo, elevar a necessidade de importação e atrasar a movimentação das cooperativas. Perdas de pastagens no Matopiba e no norte de Minas Gerais podem aumentar a demanda por milho e outros insumos destinados à alimentação animal. Também podem ocorrer: Aumento dos pedidos de replantio e indenização do seguro rural; Maior volatilidade nos preços regionais; Pressão sobre armazenagem e transporte; Mudanças no fluxo de caminhões e portos; Elevação dos custos de irrigação, secagem e controle de doenças; Dificuldade no cumprimento de contratos de entrega. Para a China, principal destino da soja brasileira, o ponto central será o calendário. Mesmo sem uma grande redução da produção nacional, atrasos na colheita podem modificar temporariamente o ritmo dos embarques e a formação dos prêmios nos portos brasileiros. A Conab estimou a produção brasileira de grãos de 2025/26 em 360,8 milhões de toneladas. Esse é o ponto de partida para a nova temporada, mas ainda não existe uma projeção oficial consolidada de quanto o El Niño poderá reduzir ou aumentar a safra 2026/27. A situação exige atenção, mas não autoriza previsões alarmistas. Um El Niño muito forte descreve a intensidade do aquecimento do Oceano Pacífico. Não significa que todos os municípios terão perdas severas. O que já pode ser afirmado é que o fenômeno atinge o Brasil em um ponto sensível: Mato Grosso, Bahia e o Matopiba entram na safra sob risco de atraso e irregularidade das chuvas, enquanto os principais polos agrícolas do Sul enfrentam a possibilidade de excesso de umidade. A safra 2026/27 será decidida município por município, semana por semana e cultura por cultura. Mais do que o volume total de chuva, serão determinantes a data de início da estação chuvosa, a distribuição das precipitações e a fase do desenvolvimento das lavouras atingida por cada extremo climático.