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Guerra no Oriente Médio e restrições da China pressionam mercado de fertilizantes no Brasil

Mercado de fertilizantes

O mercado brasileiro de fertilizantes voltou a operar em estado de atenção. Em um momento em que o agronegócio nacional depende fortemente do abastecimento externo, a combinação entre a guerra no Oriente Médio e o endurecimento da política chinesa para fertilizantes reacendeu o debate sobre segurança de suprimento, custo de produção e vulnerabilidade estratégica do Brasil.

A fragilidade é conhecida, mas ganha nova dimensão em 2026. Segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil ainda importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no campo. O dado ajuda a explicar por que o tema foi alçado à condição de prioridade nacional no Plano Nacional de Fertilizantes, que busca reduzir essa dependência para 50% até 2050. O desafio não é pequeno: o país responde por cerca de 8% do consumo global de fertilizantes, e culturas como soja, milho e cana concentram mais de 73% da demanda doméstica por esses insumos.

Em 2025, o Brasil registrou recorde de importação, com 45,5 milhões de toneladas internalizadas, segundo dados oficiais divulgados pelo governo federal, com base no Boletim Logístico da Conab. O volume confirma a robustez do agro brasileiro e a capacidade logística de internalização por portos como Paranaguá, Santos e Arco Norte. Mas também escancara o tamanho da dependência: quando o mercado internacional entra em turbulência, o impacto chega rapidamente ao custo de produção no campo.

É exatamente isso que está em curso agora. A escalada do conflito no Oriente Médio atingiu um dos pontos mais sensíveis do comércio global de fertilizantes: o Estreito de Hormuz, por onde passa aproximadamente um terço do comércio marítimo mundial desses produtos. Como os nitrogenados dependem fortemente do gás natural como matéria-prima, a instabilidade regional afeta, ao mesmo tempo, produção, frete, seguro e disponibilidade. No caso da ureia, os preços de exportação no Oriente Médio já acumulam alta de cerca de 40% desde o início da crise.

Para o Brasil, a pressão é direta. A ureia é um dos principais fertilizantes nitrogenados usados nas lavouras brasileiras, e o país é praticamente dependente de importações desse produto. Nos últimos dias, a alta de preços ganhou velocidade. A ureia no mercado brasileiro subiu cerca de 35% em duas semanas. No mesmo período, as importações brasileiras de ureia, nos dois primeiros meses de 2026, recuaram 33% na comparação anual, enquanto as compras de sulfato de amônio aumentaram 19%, movimento que sugere tentativa de substituição por alternativas de menor custo.

Como se a pressão geopolítica não bastasse, a China passou a atuar de forma ainda mais defensiva no setor. Reportagem da Reuters, publicada em 19 de março, mostrou que Pequim apertou as restrições às exportações de fertilizantes, atingindo determinadas misturas NK, fosfatados e outros produtos já submetidos a controles. A agência informou que, somadas às limitações anteriores sobre ureia, as medidas podem afetar entre metade e três quartos das exportações chinesas do ano passado. Trata-se de um fator adicional de aperto para um mercado já tensionado pela guerra.

Embora a China não tenha anunciado formalmente um bloqueio geral de exportações, em uma declaração oficial ampla, a direção da política pública chinesa aponta, com nitidez, para a proteção do mercado interno. Em 5 de fevereiro, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China publicou diretriz para assegurar a oferta e a estabilidade de preços de fertilizantes em 2026, com foco em matéria-prima, produção mínima, abastecimento prioritário ao mercado doméstico, estoques e gestão do comércio exterior. Em paralelo, o Ministério do Comércio chinês manteve, para 2026, o regime de quotas tarifárias e licenciamento de importação para produtos fertilizantes, reforçando o caráter estratégico do setor para a segurança alimentar do país.

Esse movimento tem peso real para o Brasil. Os fertilizantes chineses responderam por aproximadamente um quinto das importações de países como Brasil, Indonésia e Tailândia no ano passado. Em outras palavras, a redução da oferta chinesa não ocorre em um mercado folgado, mas justamente em um momento em que o sistema global já enfrenta perturbações logísticas, energéticas e geopolíticas.

O resultado é um novo ambiente de incerteza para o produtor brasileiro. Mesmo com o recorde de importações em 2025, o cenário atual mostra que a segurança de suprimento não depende apenas do volume comprado, mas também da diversificação de origem, da previsibilidade logística, da política externa comercial e do fortalecimento da produção nacional. O tema deixa de ser apenas conjuntural e volta a ser estrutural.

Em síntese, o mercado de fertilizantes no Brasil deixou de ser apenas um componente operacional da cadeia agrícola e passou a ocupar posição central na estratégia econômica e alimentar nacional. Em um contexto global marcado por tensões geopolíticas e reconfiguração das cadeias de suprimento, a dependência externa brasileira se transforma em um fator crítico de risco, ao mesmo tempo em que abre espaço para investimentos estruturais de longo prazo. Para a China, cuja política recente reforça a prioridade do abastecimento interno, o Brasil se apresenta como um mercado estratégico, tanto do ponto de vista comercial quanto industrial, especialmente para iniciativas que busquem maior integração entre produção, logística e segurança de suprimento no setor de fertilizantes.