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Doença de Newcastle volta a ameaçar exportações brasileiras de aves à China, nove meses após reabertura do Rio Grande do Sul

Exportações brasileiras de aves

O Brasil voltou a enfrentar preocupações sanitárias e comerciais no setor avícola após a confirmação de um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial de perus no município de Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina. A ocorrência foi confirmada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) em 18 de outubro e divulgada oficialmente no dia seguinte.

A doença de Newcastle é uma infecção viral altamente contagiosa que afeta aves domésticas e silvestres, podendo causar problemas respiratórios, alterações neurológicas e elevada mortalidade. Sua transmissão ocorre principalmente pelo contato com aves infectadas, secreções e materiais contaminados. Embora não represente risco para o consumo de carne e ovos devidamente preparados, a doença pode provocar prejuízos à produção avícola e restrições ao comércio internacional.

O episódio acontece apenas nove meses após a China autorizar a retomada das exportações de carne de frango do Rio Grande do Sul, que permaneceram suspensas por aproximadamente um ano e seis meses em consequência de um foco da mesma doença registrado em julho de 2024.

Embora as ocorrências sejam distintas, o histórico recente demonstra que uma emergência sanitária localizada pode produzir consequências comerciais prolongadas para a indústria brasileira de proteínas animais.

Após a confirmação laboratorial da doença, o governo federal declarou estado de emergência zoossanitária por 60 dias nos municípios de Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim no estado de Santa Catarina.

De acordo com o MAPA, o foco foi identificado em um estabelecimento comercial com aproximadamente 6 mil perus de corte. As amostras foram analisadas pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo (LFDA-SP), reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como laboratório de referência internacional.

A propriedade foi interditada, com suspensão da movimentação de aves, e submetida aos protocolos sanitários de controle e erradicação. As medidas previstas incluem a eliminação sanitária do plantel, seguida de limpeza e desinfecção.

O governo também anunciou o monitoramento de aproximadamente 133 propriedades localizadas na região afetada, com inspeções clínicas e coleta de amostras para verificar eventual circulação do vírus.

As autoridades brasileiras ressaltaram que as aves da propriedade atingida permaneceram no estabelecimento e não foram destinadas à produção de carne para consumo. O MAPA também esclareceu que o consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção oficial permanece seguro.

A confirmação da doença provocou reações imediatas no comércio internacional. Em 19 de outubro, o governo mexicano anunciou a suspensão preventiva das importações de produtos avícolas provenientes do Brasil, incluindo carne e miúdos de aves, ovos férteis, pintinhos de até três dias de idade e determinadas categorias de aves vivas.

A medida foi adotada pelo Serviço Nacional de Sanidade, Inocuidade e Qualidade Agroalimentar (SENASICA), enquanto as autoridades mexicanas aguardam informações adicionais sobre o controle da ocorrência.

Entretanto, a principal preocupação comercial envolve a China, um dos maiores destinos da carne de frango brasileira.

Segundo informações apresentadas pelo presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, o protocolo sanitário firmado entre Brasil e China prevê a autossuspensão das exportações brasileiras de carne de aves quando ocorre um foco da doença de Newcastle.

Nesse procedimento, o Brasil suspende preventivamente os embarques abrangidos pelo protocolo, enquanto as autoridades chinesas avaliam a ocorrência e definem o alcance das restrições, incluindo a possibilidade de regionalização.

De janeiro a setembro de 2026, a China importou aproximadamente 420 mil toneladas de carne de frango brasileira, representando cerca de 10% das exportações nacionais do produto no período, conforme dados do governo brasileiro apresentados pela ABPA.

Até o momento, não foi identificado novo comunicado oficial da Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC) estabelecendo a abrangência territorial ou a duração de uma eventual restrição relacionada ao foco catarinense.

O precedente mais relevante ocorreu em julho de 2024, quando o Brasil confirmou um foco da doença de Newcastle em uma granja comercial localizada no município de Anta Gorda, no Rio Grande do Sul.

Na ocasião, as autoridades chinesas estabeleceram restrições às importações de produtos avícolas originários do estado gaúcho. O governo brasileiro adotou as medidas sanitárias previstas e declarou o encerramento da emergência em agosto de 2024. Posteriormente, em 23 de outubro daquele ano, o Brasil recuperou, por autodeclaração, a condição de país livre da doença de Newcastle em aves comerciais, conforme os procedimentos internacionais.

Entretanto, a normalização sanitária não significou a retomada imediata das exportações para a China. A restrição chinesa permaneceu em vigor até janeiro de 2026, quando a GACC e o MARA publicaram o Comunicado Conjunto nº 11/2026, revogando expressamente a proibição relacionada à ocorrência registrada no Rio Grande do Sul.

Com a reabertura, oito frigoríficos gaúchos foram autorizados a retomar as exportações de carne de frango e derivados ao mercado chinês, incluindo unidades da BRF, JBS Aves, Aurora Alimentos, Companhia Minuano, Agrosul e Cooperativa Languiru.

A confirmação do foco em Santa Catarina também provocou reação no mercado financeiro. Na sessão de 19 de outubro, as ações de empresas com operações relevantes no setor de proteínas animais, como MBRF e JBS, registraram desvalorização em meio às preocupações com possíveis restrições comerciais.

Santa Catarina representa pouco mais de 20% das exportações brasileiras de carne de frango, segundo informações apresentadas pela ABPA, o que reforça sua importância estratégica para o abastecimento dos mercados internacionais.

Caso as restrições comerciais tenham abrangência territorial ampliada ou sejam mantidas por um período prolongado, as empresas poderão enfrentar necessidade de redirecionamento de produtos para outros destinos, ajustes logísticos e pressão sobre margens comerciais.

Entretanto, ainda não é possível quantificar os prejuízos econômicos decorrentes da nova ocorrência, uma vez que dependem da evolução sanitária e das decisões adotadas individualmente pelos países importadores.

O histórico das relações comerciais entre Brasil e China demonstra que o reconhecimento internacional das medidas sanitárias é tão importante quanto a própria erradicação de um foco. No caso do Rio Grande do Sul, a recuperação da condição sanitária ocorreu em outubro de 2024, enquanto a reabertura chinesa somente foi formalizada em janeiro de 2026.

Essa diferença de aproximadamente 15 meses entre o reconhecimento sanitário e a decisão comercial chinesa evidencia a importância dos procedimentos de avaliação de risco e das negociações bilaterais.

Para o episódio atual, a possibilidade de regionalização das restrições será um elemento central. Caso as autoridades chinesas reconheçam uma delimitação territorial mais restrita, os efeitos sobre o comércio brasileiro poderão ser reduzidos. Por outro lado, uma suspensão abrangente e prolongada poderia afetar o planejamento comercial das indústrias exportadoras e ampliar a pressão sobre a cadeia produtiva avícola.

O novo foco de Newcastle em Santa Catarina surge em um momento particularmente sensível para o setor brasileiro: apenas nove meses após a reabertura chinesa aos frigoríficos gaúchos, o país volta a enfrentar uma ocorrência sanitária capaz de interferir nos fluxos internacionais de carne de aves.

O desafio imediato do governo brasileiro será demonstrar a efetividade das medidas de contenção e erradicação, preservar a transparência sanitária e negociar com os parceiros comerciais o reconhecimento das áreas não afetadas.