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Diplomacia cultural com características chinesas: como a China projeta seu soft power por meio da cultura

China soft power
Imagem: Jin Haoyuan/ Xinhua

A presença da China nas universidades brasileiras vai além do ensino de idioma e se insere em uma estratégia de aproximação cultural que acompanha o avanço das relações econômicas entre os dois países. Em pesquisa de Iniciação Científica, a internacionalista Helen Junhui Zhang analisa como os Institutos Confúcio atuam nesse processo e como a China projeta seu poder de atração por meio da diplomacia cultural para moldar uma imagem do seu soft power com características chinesas.

Segundo Zhang, essa atuação não se limita à difusão cultural. Ela também contribui para ampliar o entendimento sobre como a China se posiciona no cenário internacional, em um contexto de intensificação das relações bilaterais. A pesquisa identifica que os Institutos Confúcio operam em uma “via de mão dupla” dentro das universidades brasileiras. Enquanto a China fornece material didático e professores, as instituições brasileiras oferecem estrutura e acesso ao público acadêmico.

Do “hard power” à influência cultural

O conceito de “soft power”, formulado pelo cientista político Joseph Nye, ajuda a explicar essa abordagem. Em vez de recorrer à força militar ou pressão econômica, países ampliam sua influência por meio da cultura, da educação e de valores. Zhang afirma que a China adapta esse conceito ao seu próprio contexto. “É um soft power que tenta se aproximar dos outros países por meio da diplomacia cultural”, diz.

A base do trabalho de Helen Zhang reside na compreensão de que o soft power chinês opera sob umasoft power lógica distinta do modelo ocidental tradicional. Enquanto o conceito de Joseph Nye foca em uma influência branda e muitas vezes invisível, Zhang argumenta que a China desenvolve uma diplomacia cultural com características próprias, voltada para se aproximar de parceiros, especialmente no Sul Global, apresentando-se como um ator amigável e receptivo.

“A China utiliza muito dessa influência cultural dela para se aproximar dos países. O soft power seria esse poder brando para influenciar, mas a diplomacia cultural é algo mais palpável”, explica Zhang.

Diferente da projeção dos Estados Unidos, que muitas vezes enfatiza a força coercitiva ou uma dominância cultural unilateral, a China tenta construir uma imagem de mútua descoberta. A análise da pesquisadora aponta que essa atuação busca estabelecer uma relação de troca cultural. “A mensagem é de que existe interesse em conhecer o outro lado, não apenas em exportar a própria cultura”, afirma.

Ela também destaca a importância de ampliar o olhar teórico nas relações internacionais. “A gente não precisa tomar o pensamento europeu como algo universal, mas olhar outras narrativas, como latino-americanas e asiáticas”, diz.

Desmistificação e a “Era da Tecnologia”

A pesquisadora também conecta o sucesso desse soft power à mudança de percepção social no Brasil, onde o estigma de produtos de baixa qualidade foi substituído pelo reconhecimento da inovação tecnológica.

Zhang relaciona o avanço dessa presença cultural a uma mudança na percepção da China no Brasil. Segundo ela, estereótipos antigos têm perdido força com o crescimento tecnológico do país. “Hoje, as pessoas têm mais noção do que é a China e veem como esse país em ascensão, cada vez mais forte e tecnológico”, afirma.

Ela cita mudanças no consumo e na percepção popular. “O ‘Xing Ling’ está indo para o esquecimento, indo para ‘eu tenho tecnologia chinesa, eu tenho um celular chinês’”, diz, ao mencionar a associação crescente entre produtos chineses e inovação.

Intercâmbio ainda é desigual

O ano de 2026 foi designado por Brasil e China como o Ano da Cultura e do Turismo, iniciativa voltada a ampliar o fluxo de visitantes e fortalecer a cooperação bilateral. Apesar desse movimento, o intercâmbio entre os dois países ainda apresenta diferenças.

Estimativas do consulado chinês indicam que a comunidade chinesa no Brasil ultrapassa 280 mil pessoas, concentradas principalmente em São Paulo. No sentido inverso, dados do Ministério das Relações Exteriores apontam que cerca de 5,9 mil brasileiros vivem ou estudam na China.

Para Zhang, essa diferença revela um dos desafios da relação bilateral. O intercâmbio cultural ainda depende, em grande parte, de iniciativas financiadas pelo governo chinês. “Eu acho que falta incentivo do próprio governo brasileiro”, afirma. Segundo ela, políticas públicas poderiam ampliar o acesso a programas de intercâmbio e ao ensino de mandarim no país.