A China definiu a tecnologia, com foco em inteligência artificial, como principal prioridade do seu 15º plano quinquenal, aprovado em março. Durante webinar do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), o economista David Daokui Li afirmou que o país vê a disputa em IA como decisiva e não admite perder espaço na corrida tecnológica.
Segundo Li, que participou diretamente da elaboração do plano, a decisão marca uma mudança relevante na hierarquia de prioridades do país. “Para surpresa de muitos, a tecnologia, e não a demanda interna, passou a ser a principal prioridade”, afirmou. Ele acrescentou que o presidente Xi Jinping vê a disputa em inteligência artificial como uma questão de “vida ou morte” para o país.
A partir dessa mudança, o plano quinquenal reorganiza outras frentes da política econômica chinesa, com a tecnologia funcionando como eixo de reorganização industrial, fiscal e social.
Autossuficiência como eixo da política tecnológica
A busca por autonomia tecnológica aparece como desdobramento direto da prioridade dada à inteligência artificial. A China busca reduzir a dependência externa em áreas consideradas críticas, especialmente após restrições recentes no acesso a tecnologias estrangeiras. “A China deve e irá se manter autossuficiente em ciência e tecnologia em alto nível”, afirma.
Segundo Li, esse movimento já alterou a forma como o país estrutura sua inovação. Ele destacou a flexibilização do ambiente universitário e a aproximação entre pesquisa e mercado. “Hoje há mais incentivo para que universidades transformem pesquisa em aplicação comercial”, afirmou.
Nesse processo, governos locais ampliaram o uso de fundos públicos para investir em startups, enquanto o mercado de capitais se mostra mais aberto a empresas de alta tecnologia.
Li destacou que esse avanço ocorre mesmo diante de possíveis impactos no mercado de trabalho. A substituição de funções tradicionais por automação é reconhecida internamente, mas não altera a direção da política. “Não temos escolha a não ser investir em melhor tecnologia”, disse.
Reorganização industrial e disputa por competitividade
Além da tecnologia, o plano mantém foco na modernização industrial como forma de sustentar o crescimento no longo prazo. Setores tradicionais, como siderurgia, química, têxtil e construção naval, devem incorporar novas tecnologias, aumentar eficiência e avançar na cadeia de valor.
Ao mesmo tempo, o governo direciona esforços para o desenvolvimento de indústrias emergentes, como inteligência artificial, novos materiais, energia, robótica e biotecnologia. Há ainda uma frente voltada a tecnologias futuras, incluindo computação quântica, hidrogênio e comunicação de próxima geração.
A estratégia busca preservar a competitividade chinesa diante de mudanças na economia global e da ascensão de novos polos industriais. Segundo Li, a continuidade desse processo é vista como condição para manter o ritmo de crescimento e a posição do país no cenário internacional.
Consumo interno e reconfiguração do gasto público
Embora a tecnologia lidere a agenda, o plano também aborda a expansão da demanda interna. A proposta é fortalecer o mercado doméstico, com estímulo ao consumo e ao investimento dentro do país.
Parte dessa agenda passa por mudanças no perfil do gasto público. O governo sinaliza maior foco em áreas sociais, como saúde, educação e proteção social, em substituição gradual a grandes investimentos em infraestrutura. A medida busca sustentar o consumo no médio prazo e responder a desafios estruturais, como o envelhecimento da população.
Apesar dessas diretrizes, o plano não estabelece metas explícitas para ampliação do bem-estar social. A ausência de objetivos quantitativos reflete uma postura mais cautelosa da liderança chinesa, que busca manter flexibilidade na condução da política econômica.
Crescimento mais moderado e ajuste estrutural
O Plano também indica uma mudança no ritmo de expansão econômica. A meta entre 4,5% e 5% sinaliza uma mudança de abordagem, com maior foco em ajustes estruturais do que na expansão acelerada da economia.
Li afirmou que essa desaceleração é intencional e busca abrir espaço para reformas. A avaliação é que o ambiente internacional mais instável exige cautela e maior capacidade de adaptação por parte da economia chinesa.
Entre os principais riscos, ele apontou a dependência de petróleo importado. A China ainda depende do exterior para cerca de 73% do consumo, o que a torna vulnerável a crises internacionais. Como resposta, o país estuda alternativas como o metanol para reduzir essa exposição.
No plano doméstico, o principal desafio está no endividamento dos governos locais. Responsáveis por grande parte dos investimentos em infraestrutura nas últimas décadas, as administrações locais enfrentam limitações fiscais que podem afetar a execução das políticas previstas.

