Colunistas

Capital estrangeiro avança no etanol de milho brasileiro, enquanto empresas chinesas ainda observam o mercado

etanol de milho brasileiro

A expansão do etanol de milho está modificando a estrutura da indústria brasileira de biocombustíveis e atraindo grupos estrangeiros interessados em combinar produção agrícola, transformação industrial, energia renovável e proteína animal. Empresas originárias do Paraguai e dos Estados Unidos já construíram operações de grande escala no país, enquanto capitais dos Emirados Árabes Unidos passaram a financiar a diversificação de grupos sucroenergéticos brasileiros. Paralelamente, companhias internacionais como a britânica BP avaliam novos projetos integrados às suas usinas de cana-de-açúcar.

O crescimento do setor ajuda a explicar esse movimento. A produção brasileira de etanol de milho aproximou-se de 10 bilhões de litros na safra 2025/2026, ante 2,65 bilhões de litros no início da década. A Empresa de Pesquisa Energética já estimava que o milho representaria aproximadamente 23% da produção nacional de etanol em 2025, participação que tende a continuar crescendo com a entrada de novas fábricas. Desde 1º de agosto de 2025, o percentual obrigatório de etanol anidro misturado à gasolina brasileira também passou de 27% para 30%, criando demanda adicional para o combustível renovável.

O interesse estrangeiro está relacionado às características específicas do modelo brasileiro. O país combina ampla oferta de milho de segunda safra, possibilidade de operação industrial durante praticamente todo o ano, mercado doméstico relevante de combustíveis e uma extensa cadeia de produção de carnes que demanda ingredientes para nutrição animal. A fábrica não depende somente da comercialização do etanol. O processamento do milho também gera DDG ou DDGS, óleo de milho, energia elétrica e, em determinados projetos, biometano e dióxido de carbono de origem biogênica.

Esse modelo transforma as fábricas em biorrefinarias integradas. O milho deixa de ser comercializado apenas como commodity e passa a ser convertido simultaneamente em combustível, proteína para alimentação animal, óleo vegetal e energia. É justamente essa integração que tem atraído investidores internacionais com experiência em agronegócio, energia, infraestrutura e gestão de ativos.

Além das condições agrícolas e industriais, o ambiente de incentivos públicos também funciona como importante fator de atração para o capital estrangeiro. Conforme a localização e o enquadramento de cada projeto, as empresas podem acessar créditos presumidos ou outorgados de ICMS, diferimento de impostos sobre máquinas e equipamentos, redução do IRPJ em áreas atendidas pela Sudam ou pela Sudene, financiamentos do BNDES, do Fundo Clima e dos fundos regionais, além de apoio municipal na disponibilização de terrenos e infraestrutura. Estados produtores adotaram mecanismos específicos para os biocombustíveis: Mato Grosso possui um módulo do PRODEIC voltado ao setor, enquanto a Bahia estabeleceu crédito presumido de 75% do ICMS em operações com etanol, DDG e óleo produzido nas biorrefinarias. O RenovaBio complementa essa estrutura ao permitir que produtores certificados emitam Créditos de Descarbonização (CBIOs), criando uma receita adicional associada à eficiência ambiental da fábrica. Embora esses instrumentos não eliminem os riscos do investimento e dependam de aprovação, contrapartidas e condições específicas, sua combinação pode reduzir o custo de implantação, melhorar o fluxo de caixa e aumentar a rentabilidade de longo prazo, tornando o Brasil mais competitivo na disputa por projetos internacionais de bioenergia.

Entre as empresas estrangeiras, a Inpasa representa o caso mais expressivo. Fundada no Paraguai em 2006 e presente no Brasil desde 2018, a companhia desenvolveu uma plataforma industrial baseada no processamento de milho e sorgo para produção de etanol, DDGS, óleos vegetais e energia renovável. A empresa opera unidades em estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Maranhão e está expandindo sua presença para Goiás e Bahia.

Somente os principais investimentos recentes anunciados pela Inpasa no Brasil somam aproximadamente R$9,7 bilhões. A unidade de Balsas, no Maranhão, inaugurada em 2025, recebeu R$2,5 bilhões. A fábrica de Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, foi projetada para processar 1 milhão de toneladas de grãos e produzir 460 milhões de litros de etanol por ano. Em Rio Verde, Goiás, a companhia iniciou a construção de uma biorrefinaria de R$ 2,4 bilhões, com inauguração prevista para o primeiro trimestre de 2027. Em Mato Grosso, o pacote envolvendo uma nova planta em Rondonópolis e a ampliação da unidade de Nova Mutum alcança R$3,48 bilhões.

A trajetória da Inpasa demonstra que o Brasil não é apenas um mercado de consumo para o investidor estrangeiro. O país passou a funcionar como uma plataforma de produção agroindustrial em grande escala, apoiada pela disponibilidade regional de grãos, pela proximidade com produtores rurais e pela crescente demanda por biocombustíveis e coprodutos.

Outro investidor estrangeiro pioneiro foi o Summit Agricultural Group, dos Estados Unidos. O grupo norte-americano participou da criação da FS Fueling Sustainability em parceria com a brasileira Tapajós Participações. A companhia foi a primeira indústria brasileira de grande escala dedicada à produção de etanol, nutrição animal e bioenergia integralmente a partir do milho.

A FS iniciou suas operações em 2017 e atualmente possui três unidades industriais em Mato Grosso, localizadas em Lucas do Rio Verde, Sorriso e Primavera do Leste. A capacidade produtiva informada pela companhia alcança aproximadamente 2,6 bilhões de litros de etanol por ano. Além do combustível, as unidades produzem ingredientes para nutrição animal e energia elétrica, demonstrando a aplicação no Brasil de conhecimentos acumulados pela indústria norte-americana de etanol de milho, adaptados às condições agrícolas e energéticas brasileiras.

A experiência da FS também evidencia a importância das parcerias entre investidores estrangeiros e grupos brasileiros. O investidor internacional pode aportar tecnologia industrial, conhecimento de processamento e acesso a capital, enquanto o parceiro local contribui com originação de milho, relacionamento com produtores, conhecimento tributário, licenciamento, logística e implantação regional.

A Cargill constitui outro caso relevante de capital norte-americano. A multinacional participava da SJC Bioenergia desde 2011 e, em 2025, concluiu a aquisição integral da empresa, que passou a operar como Cargill Bioenergia. A plataforma possui unidades em Quirinópolis e Cachoeira Dourada, em Goiás, e processa cana-de-açúcar e milho para produzir etanol anidro e hidratado, açúcar, óleo vegetal de milho, ingredientes para nutrição animal e bioeletricidade.

Em agosto de 2025, a Cargill confirmou a decisão de construir uma nova unidade de etanol de milho em Goiás, integrada a uma planta de cana-de-açúcar já existente. Embora a companhia não tenha divulgado inicialmente o valor do investimento, a capacidade ou o cronograma completo, o anúncio reforçou a estratégia de integrar as duas matérias-primas. O modelo permite utilizar infraestrutura, armazenagem, energia, logística e equipes administrativas de forma compartilhada, reduzindo o custo marginal da expansão.

O capital dos Emirados Árabes Unidos também está presente nesse processo por meio da Mubadala Capital, acionista de referência da Atvos. Em 2023, a gestora realizou um aporte de R$500 milhões na companhia brasileira, contribuindo para a reestruturação financeira e para o início de um novo ciclo de investimentos. Nesse caso, a participação estrangeira ocorre por meio do controle e do financiamento de uma empresa brasileira já estabelecida no setor de bioenergia.

Em maio de 2026, a Atvos anunciou sua primeira unidade voltada ao etanol de milho, integrada à Unidade Santa Luzia, em Nova Alvorada do Sul, Mato Grosso do Sul. O projeto terá capacidade para processar 642 mil toneladas de milho por ano e produzir 273 milhões de litros de etanol, 183 mil toneladas de DDG e 13 mil toneladas de óleo de milho. A integração com a usina de cana permitirá utilizar o bagaço para fornecer energia ao processamento do milho, ampliando o aproveitamento dos ativos industriais e mantendo a produção durante todo o ano.

O projeto da Atvos mostra que a entrada estrangeira não precisa ocorrer somente por meio da construção de uma fábrica totalmente nova. Aquisições, aportes de capital, joint ventures e investimentos em empresas brasileiras com ativos já implantados também oferecem caminhos de entrada no mercado. Essa estratégia pode reduzir riscos relacionados a licenciamento, aquisição de terrenos, contratação de mão de obra, originação de grãos e conhecimento regulatório.

A britânica BP representa uma etapa diferente desse movimento. A empresa ainda não anunciou uma fábrica brasileira de etanol de milho, mas confirmou que avalia investimentos no segmento. A análise considera a integração com as 11 unidades de açúcar e etanol de cana controladas pela companhia no Brasil. Entre as possíveis sinergias estão o compartilhamento de tanques, instalações logísticas e sistemas industriais, além da utilização do bagaço de cana para fornecer energia às futuras plantas de milho. Até julho de 2026, entretanto, não havia sido divulgada uma decisão final de investimento, localização, capacidade ou cronograma para o projeto.

Para as empresas chinesas, o cenário apresenta uma particularidade. A China já possui forte presença no agronegócio e na indústria brasileira de biocombustíveis, especialmente por meio da COFCO International. A companhia opera no país com originação e exportação de grãos, processamento de soja, biodiesel e produção de etanol de cana-de-açúcar. Em 2019, informações de mercado indicaram que a COFCO avaliava uma fábrica de etanol de milho próxima ao seu complexo de Rondonópolis, em Mato Grosso, mas a empresa não confirmou o projeto naquele momento.

Desde então, os anúncios oficiais da COFCO para Rondonópolis permaneceram concentrados no processamento de soja e na produção de biodiesel. Não foi identificado, até julho de 2026, anúncio corporativo de decisão final de investimento ou início de construção de uma fábrica de etanol de milho pela companhia chinesa. A possibilidade, entretanto, continua industrialmente coerente, considerando que o complexo está localizado em uma das maiores regiões produtoras de milho do país e possui acesso ferroviário e infraestrutura de processamento de commodities.

A ausência de um grande projeto chinês confirmado contrasta com a velocidade de entrada de capitais paraguaios, norte-americanos e árabes. Ao mesmo tempo, cria uma oportunidade para grupos chineses interessados em equipamentos industriais, fermentação, enzimas, armazenagem de grãos, secagem de DDGS, cogeração, biometano, captura de carbono e produção de combustíveis sustentáveis.

A oportunidade não está limitada à venda de equipamentos. Empresas chinesas podem entrar por meio de joint ventures com produtores brasileiros, aquisição de participação em usinas existentes, financiamento de projetos, fornecimento de tecnologia ou construção de biorrefinarias próprias. Também existe potencial para integração com cadeias de proteína animal, já que o DDGS produzido pelas fábricas pode ser direcionado à alimentação de bovinos, suínos, aves e peixes.

Outro caminho estratégico está na internacionalização dos produtos. O etanol brasileiro pode ampliar sua utilização em combustíveis marítimos, combustível sustentável de aviação e outras rotas de descarbonização. Em junho de 2026, produtores brasileiros consideraram um avanço relevante o reconhecimento de parâmetros relacionados à pegada de carbono do etanol de milho no âmbito da Organização Marítima Internacional, movimento que pode abrir oportunidades futuras para combustíveis renováveis no transporte marítimo.

O avanço dos investimentos estrangeiros indica que o etanol de milho deixou de ser uma atividade regional ou complementar. Ele passou a integrar decisões globais de alocação de capital em agronegócio, energia e descarbonização. Inpasa, Summit Agricultural Group, Cargill e Mubadala já possuem exposição concreta ao setor brasileiro, enquanto a BP analisa novas possibilidades de entrada.

Para o capital chinês, a questão central não é mais determinar se existe mercado para o etanol de milho no Brasil. O mercado já está em operação, cresce rapidamente e recebe investimentos bilionários. A decisão estratégica passa a ser identificar o melhor modelo de entrada antes que os principais polos de produção, parceiros industriais e ativos logísticos sejam ocupados por outros investidores internacionais.