
12 de maio de 2026
Daiane Mendes
A China iniciou uma estratégia nacional para ampliar o uso de inteligência artificial em diferentes setores da economia, da manufatura aos serviços públicos. A abordagem conhecida como “AI+” (AI Plus) orienta governos locais e empresas a incorporar a tecnologia em larga escala, com foco em ganhos de produtividade, autonomia tecnológica e crescimento econômico até 2035. As diretrizes, divulgadas pelo Conselho de Estado em 2025, estabelecem como prioridade o uso da IA em ciência e tecnologia, indústria, consumo, bem-estar da população, gestão pública e cooperação internacional. O país busca usar essa tecnologia como o motor das chamadas “novas forças produtivas”, enxergando na IA uma forma de compensar o envelhecimento populacional e garantir a sustentabilidade do PIB. Metas por etapas De acordo com o documento oficial, o plano "AI+" está dividido em três prazos com objetivos progressivos. Até 2027, a expectativa é ampliar de forma consistente a aplicação de IA em setores-chave da economia e acelerar o desenvolvimento da chamada economia inteligente, com maior presença da tecnologia na gestão pública e nas atividades industriais. Até 2030, a IA deverá estar presente em praticamente todos os setores, com a taxa de adoção de terminais inteligentes e agentes de IA superando 90%, fazendo da economia inteligente um dos principais motores do crescimento do país. Até 2035, a China quer estar plenamente inserida em uma nova era de economia e sociedade inteligentes, de acordo com as diretrizes. Fábricas e indústria no centro do plano O setor manufatureiro aparece como prioridade operacional da estratégia “AI+”. O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China (MIIT) trabalha em diretrizes para ampliar o uso de inteligência artificial em processos industriais, incluindo a integração de grandes modelos de linguagem a máquinas, veículos e equipamentos. A proposta inclui o desenvolvimento de novos modelos de negócio baseados no ambiente digital, a aplicação de sistemas inteligentes em diferentes etapas da produção e a modernização de indústrias tradicionais. A meta é ampliar o uso de dados e automação nas fábricas, com sistemas conectados e maior eficiência operacional. A indústria automotiva é um dos setores onde essa transição avança mais rapidamente. Montadoras chinesas aceleram a adoção de sistemas de IA, como assistentes de voz e funções de condução autônoma, em linha com as diretrizes do governo. Empresas como Huawei e Xiaomi, junto a fabricantes de veículos elétricos, também investem no desenvolvimento de chips e sistemas próprios. O movimento busca reduzir a dependência de tecnologia estrangeira e fortalecer a cadeia produtiva nacional. Um plano que vai além das fronteiras O Plano de Ação Global para Governança da IA, divulgado em julho de 2025 durante a Conferência Mundial de IA, convoca os países a explorar novas formas de aplicar o conceito "AI Plus" e a levar a inovação global em IA a um novo nível. O documento reforça a ideia de cooperação entre nações, onde os países são incentivados a usar a IA em áreas como produção industrial, saúde, educação, agricultura e combate à pobreza, além de avançar em soluções como carros autônomos e cidades inteligentes. Para o governo chinês, a inteligência artificial é a chave para uma nova fase de crescimento econômico. O plano prevê investimentos para melhorar os modelos de IA, ampliar o acesso a dados de qualidade, aumentar a capacidade de processamento, apoiar o desenvolvimento de tecnologias de código aberto e formar mais profissionais qualificados.

5 de maio de 2026
Daiane Mendes
Enquanto o resto do mundo ainda discute a troca dos cartões pelas carteiras digitais, a China já vive essa realidade consolidada no dia a dia. Com quase 70% das conexões usando o 5G, o país criou um sistema onde o dinheiro físico quase não existe mais. O usuário chinês médio consome agora 23,4 GB por mês, tendo uma rotina em que tudo — desde a compra do café da manhã até o pagamento de impostos — acontece em segundos dentro de superaplicativos como WeChat Pay e Alipay. Em 2026, o celular na China deixou de ser apenas um acessório para se tornar a peça central da economia. Segundo dados do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, o país passou de 1,6 bilhão de usuários de internet móvel. Só no primeiro trimestre deste ano, o uso de dados passou dos 100 bilhões de gigabytes. Esses números mostram uma sociedade que funciona em um ritmo diferente do resto do mundo, onde o dinheiro em papel ficou cada vez mais raro. Aplicação do QR Code e a força do consumo digital O principal acelerador dessa mudança foi a popularização dos QR Codes. Diferente de mercados que priorizaram maquininhas de cartão, o modelo chinês se baseou em uma tecnologia de baixo custo e fácil implementação. Isso permitiu a inclusão de pequenos comerciantes, ambulantes e prestadores de serviço no sistema de pagamentos digitais. Com isso, o celular passou a concentrar diferentes funções. Além de pagar compras, o usuário pode acessar transporte público, desbloquear bicicletas compartilhadas, agendar serviços e realizar operações administrativas sem sair dos aplicativos. A ausência de tarifas para o consumidor e a liquidação imediata das transações aceleraram a substituição do dinheiro físico em várias situações. O avanço dos agentes de IA no cotidiano A partir dessa base digital já consolidada, a tecnologia chinesa agora avança para uma nova etapa: o uso de agentes de IA . Grandes empresas, como o Alibaba e outras gigantes do setor, estão lançando ferramentas que buscam entender e antecipar as necessidades do usuário. A grande mudança é que essas IAs não apenas dão respostas, mas executam ações sozinhas dentro dos aplicativos. Com um único comando, o assistente pode comparar preços, escolher o melhor itinerário, reservar um hotel e finalizar o pagamento de forma autônoma, transformando a transação financeira em um processo de assistência contínua, onde a tecnologia cuida de toda a parte burocrática e logística para o consumidor. Esse modelo indica uma mudança no funcionamento dos serviços digitais. Com grande volume de dados e integração entre plataformas, a tendência é que parte das decisões operacionais seja transferida para sistemas automatizados, alterando a dinâmica do consumo e da prestação de serviços no ambiente urbano.

28 de abril de 2026
Daiane Mendes
A Crocs , marca americana conhecida por seus designs pouco convencionais, transformou críticas em capital cultural ao apostar em customização, colaborações com influenciadores locais e campanhas digitais integradas, tornando seus produtos símbolos de pertencimento para a Geração Z na China. Em 2025, a receita da Crocs no país cresceu cerca de 25% em relação a 2024, consolidando a China como um dos principais mercados globais da marca. Marketing digital e engajamento cultural O reposicionamento passa pelo conceito de “feio chique” (ugly chic), tendência que já circulava no mercado global e foi incorporada pela marca ao contexto chinês. Os calçados, marcados pelo design não convencional e pelos furos na parte superior, permitem a aplicação de acessórios conhecidos como jibbitz, usados para personalização. Essa característica deslocou o produto de um item funcional para um elemento de identidade visual. No mercado chinês, a expressão 丑但潮 (“feio, mas estiloso”) passou a sintetizar essa mudança de percepção. A estratégia comercial incluiu parcerias com empresas locais e ações conectadas ao calendário cultural. Entre elas, colaborações com a Pop Mart resultaram em edições limitadas voltadas ao público jovem, enquanto campanhas associadas a datas como o Ano Novo Chinês ampliaram o alcance da marca. A operação combina mais de 400 lojas físicas com presença em plataformas digitais como Taobao, JD.com e Douyin, integrando canais de venda e distribuição. Consumo emocional ganha força entre jovens chineses O desempenho da Crocs acompanha uma mudança mais ampla no comportamento de consumo na China. Dados da Daxue Consulting indicam que decisões de compra têm incorporado critérios ligados à satisfação emocional, especialmente entre consumidores nascidos entre 1990 e 2005. Esse grupo concentra a maior parte do consumo, com participação de 29% entre os nascidos de 1990 a 1995, 28,5% entre 1995 e 2000, e 26,4% entre 2000 e 2005. Já os nascidos após 2005 representam 10,5%, enquanto consumidores anteriores a 1990 somam 5,5%. O mesmo levantamento aponta que cerca de 60% dos consumidores mais jovens aceitam pagar mais por produtos que entreguem valor emocional, alta de 16,2% em relação a 2024. Nesse contexto, o critério de compra deixa de se limitar ao custo-benefício e passa a incorporar elementos como identificação e experiência. Esse movimento ajuda a explicar a expansão de produtos baseados em customização e colecionáveis. Plataformas como Xiaohongshu e Douyin concentram conteúdos sobre estilo e personalização, ampliando a visibilidade desses itens e fortalecendo comunidades de consumo. No caso da Crocs, modelos clássicos e versões com plataforma passaram a circular como itens de estilo urbano, com usuários compartilhando combinações e adaptações nas redes. O resultado foi a inserção do produto em um circuito cultural mais amplo, no qual design, identidade e interação digital influenciam diretamente a decisão de compra.

22 de abril de 2026
Daiane Mendes
A presença da China nas universidades brasileiras vai além do ensino de idioma e se insere em uma estratégia de aproximação cultural que acompanha o avanço das relações econômicas entre os dois países. Em pesquisa de Iniciação Científica, a internacionalista Helen Junhui Zhang analisa como os Institutos Confúcio atuam nesse processo e como a China projeta seu poder de atração por meio da diplomacia cultural para moldar uma imagem do seu soft power com características chinesas. Segundo Zhang, essa atuação não se limita à difusão cultural. Ela também contribui para ampliar o entendimento sobre como a China se posiciona no cenário internacional, em um contexto de intensificação das relações bilaterais. A pesquisa identifica que os Institutos Confúcio operam em uma "via de mão dupla" dentro das universidades brasileiras. Enquanto a China fornece material didático e professores, as instituições brasileiras oferecem estrutura e acesso ao público acadêmico. Do “hard power” à influência cultural O conceito de “soft power”, formulado pelo cientista político Joseph Nye, ajuda a explicar essa abordagem. Em vez de recorrer à força militar ou pressão econômica, países ampliam sua influência por meio da cultura, da educação e de valores. Zhang afirma que a China adapta esse conceito ao seu próprio contexto. “É um soft power que tenta se aproximar dos outros países por meio da diplomacia cultural”, diz. A base do trabalho de Helen Zhang reside na compreensão de que o soft power chinês opera sob umasoft power lógica distinta do modelo ocidental tradicional. Enquanto o conceito de Joseph Nye foca em uma influência branda e muitas vezes invisível, Zhang argumenta que a China desenvolve uma diplomacia cultural com características próprias, voltada para se aproximar de parceiros, especialmente no Sul Global , apresentando-se como um ator amigável e receptivo. "A China utiliza muito dessa influência cultural dela para se aproximar dos países. O soft power seria esse poder brando para influenciar, mas a diplomacia cultural é algo mais palpável", explica Zhang. Diferente da projeção dos Estados Unidos, que muitas vezes enfatiza a força coercitiva ou uma dominância cultural unilateral, a China tenta construir uma imagem de mútua descoberta. A análise da pesquisadora aponta que essa atuação busca estabelecer uma relação de troca cultural. “A mensagem é de que existe interesse em conhecer o outro lado, não apenas em exportar a própria cultura”, afirma. Ela também destaca a importância de ampliar o olhar teórico nas relações internacionais. “A gente não precisa tomar o pensamento europeu como algo universal, mas olhar outras narrativas, como latino-americanas e asiáticas”, diz. Desmistificação e a "Era da Tecnologia" A pesquisadora também conecta o sucesso desse soft power à mudança de percepção social no Brasil, onde o estigma de produtos de baixa qualidade foi substituído pelo reconhecimento da inovação tecnológica. Zhang relaciona o avanço dessa presença cultural a uma mudança na percepção da China no Brasil. Segundo ela, estereótipos antigos têm perdido força com o crescimento tecnológico do país. “Hoje, as pessoas têm mais noção do que é a China e veem como esse país em ascensão, cada vez mais forte e tecnológico”, afirma. Ela cita mudanças no consumo e na percepção popular. “O ‘Xing Ling’ está indo para o esquecimento, indo para ‘eu tenho tecnologia chinesa, eu tenho um celular chinês’”, diz, ao mencionar a associação crescente entre produtos chineses e inovação. Intercâmbio ainda é desigual O ano de 2026 foi designado por Brasil e China como o Ano da Cultura e do Turismo, iniciativa voltada a ampliar o fluxo de visitantes e fortalecer a cooperação bilateral. Apesar desse movimento, o intercâmbio entre os dois países ainda apresenta diferenças. Estimativas do consulado chinês indicam que a comunidade chinesa no Brasil ultrapassa 280 mil pessoas, concentradas principalmente em São Paulo. No sentido inverso, dados do Ministério das Relações Exteriores apontam que cerca de 5,9 mil brasileiros vivem ou estudam na China. Para Zhang, essa diferença revela um dos desafios da relação bilateral. O intercâmbio cultural ainda depende, em grande parte, de iniciativas financiadas pelo governo chinês. “Eu acho que falta incentivo do próprio governo brasileiro”, afirma. Segundo ela, políticas públicas poderiam ampliar o acesso a programas de intercâmbio e ao ensino de mandarim no país.

17 de abril de 2026
Daiane Mendes
A China definiu a tecnologia, com foco em inteligência artificial, como principal prioridade do seu 15º plano quinquenal, aprovado em março. Durante webinar do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) , o economista David Daokui Li afirmou que o país vê a disputa em IA como decisiva e não admite perder espaço na corrida tecnológica. Segundo Li, que participou diretamente da elaboração do plano, a decisão marca uma mudança relevante na hierarquia de prioridades do país. “Para surpresa de muitos, a tecnologia, e não a demanda interna, passou a ser a principal prioridade”, afirmou. Ele acrescentou que o presidente Xi Jinping vê a disputa em inteligência artificial como uma questão de “vida ou morte” para o país. A partir dessa mudança, o plano quinquenal reorganiza outras frentes da política econômica chinesa, com a tecnologia funcionando como eixo de reorganização industrial , fiscal e social. Autossuficiência como eixo da política tecnológica A busca por autonomia tecnológica aparece como desdobramento direto da prioridade dada à inteligência artificial. A China busca reduzir a dependência externa em áreas consideradas críticas, especialmente após restrições recentes no acesso a tecnologias estrangeiras. “A China deve e irá se manter autossuficiente em ciência e tecnologia em alto nível”, afirma. Segundo Li, esse movimento já alterou a forma como o país estrutura sua inovação. Ele destacou a flexibilização do ambiente universitário e a aproximação entre pesquisa e mercado. “Hoje há mais incentivo para que universidades transformem pesquisa em aplicação comercial”, afirmou. Nesse processo, governos locais ampliaram o uso de fundos públicos para investir em startups, enquanto o mercado de capitais se mostra mais aberto a empresas de alta tecnologia. Li destacou que esse avanço ocorre mesmo diante de possíveis impactos no mercado de trabalho. A substituição de funções tradicionais por automação é reconhecida internamente, mas não altera a direção da política. “Não temos escolha a não ser investir em melhor tecnologia”, disse. Reorganização industrial e disputa por competitividade Além da tecnologia, o plano mantém foco na modernização industrial como forma de sustentar o crescimento no longo prazo. Setores tradicionais, como siderurgia, química, têxtil e construção naval, devem incorporar novas tecnologias, aumentar eficiência e avançar na cadeia de valor. Ao mesmo tempo, o governo direciona esforços para o desenvolvimento de indústrias emergentes, como inteligência artificial, novos materiais, energia, robótica e biotecnologia. Há ainda uma frente voltada a tecnologias futuras, incluindo computação quântica, hidrogênio e comunicação de próxima geração. A estratégia busca preservar a competitividade chinesa diante de mudanças na economia global e da ascensão de novos polos industriais. Segundo Li, a continuidade desse processo é vista como condição para manter o ritmo de crescimento e a posição do país no cenário internacional. Consumo interno e reconfiguração do gasto público Embora a tecnologia lidere a agenda, o plano também aborda a expansão da demanda interna. A proposta é fortalecer o mercado doméstico, com estímulo ao consumo e ao investimento dentro do país. Parte dessa agenda passa por mudanças no perfil do gasto público. O governo sinaliza maior foco em áreas sociais, como saúde, educação e proteção social, em substituição gradual a grandes investimentos em infraestrutura. A medida busca sustentar o consumo no médio prazo e responder a desafios estruturais, como o envelhecimento da população. Apesar dessas diretrizes, o plano não estabelece metas explícitas para ampliação do bem-estar social. A ausência de objetivos quantitativos reflete uma postura mais cautelosa da liderança chinesa, que busca manter flexibilidade na condução da política econômica. Crescimento mais moderado e ajuste estrutural O Plano também indica uma mudança no ritmo de expansão econômica. A meta entre 4,5% e 5% sinaliza uma mudança de abordagem, com maior foco em ajustes estruturais do que na expansão acelerada da economia. Li afirmou que essa desaceleração é intencional e busca abrir espaço para reformas. A avaliação é que o ambiente internacional mais instável exige cautela e maior capacidade de adaptação por parte da economia chinesa. Entre os principais riscos, ele apontou a dependência de petróleo importado. A China ainda depende do exterior para cerca de 73% do consumo, o que a torna vulnerável a crises internacionais. Como resposta, o país estuda alternativas como o metanol para reduzir essa exposição. No plano doméstico, o principal desafio está no endividamento dos governos locais. Responsáveis por grande parte dos investimentos em infraestrutura nas últimas décadas, as administrações locais enfrentam limitações fiscais que podem afetar a execução das políticas previstas.

14 de abril de 2026
Daiane Mendes
A China tem adotado uma estratégia de usar centros urbanos como ambientes de teste para novas tecnologias aplicadas a obras, serviços públicos e planejamento urbano. Desde a década de 2010, o governo lançou programas nacionais de cidades inteligentes, incentivando a integração de informação e comunicação digital, Internet das Coisas (IoT) , inteligência artificial (IA) e 5G para gestão urbana, mobilidade, energia, segurança e serviços públicos, um modelo que combina governo com grandes empresas de tecnologia e que já foi aplicado em dezenas de cidades chinesas. Em julho de 2025, a cidade de Jinan (província de Shandong) ganhou destaque internacional ao instalar uma cúpula inflável de cerca de 50 m de altura que envolve totalmente um canteiro de obras de aproximadamente 20 000 m² no projeto de renovação urbana “Honglou 1905”. A estrutura, feita de fluoreto de polivinilideno (PVDF), reduz a dispersão de poeira e o impacto sonoro nas áreas vizinhas e permite a continuação dos trabalhos em diferentes condições climáticas, além de bloquear cerca de 90 % da poeira e reduzir ruído em torno de 80 %. Esse tipo de solução – ainda raro no mundo – exemplifica como autoridades e empresas chinesas buscam reduzir impactos ambientais e sociais de obras em áreas densamente urbanizadas, integrando equipamentos físicos com sistemas de controle e monitoramento em tempo real. Em outras cidades, como Shenzhen, a combinação de redes digitais, sensores e dados tem sido aplicada em projetos de gestão urbana e mobilidade. Shenzhen faz parte de um grupo de municípios que usam digitalização para monitorar dispositivos, mobilidade, serviços públicos e consumo de energia, com redes de alta velocidade, plataformas digitais e iniciativas de transporte sustentável, incluindo a adoção generalizada de ônibus elétricos. O conceito de cidade inteligente, baseado na digitalização de serviços, evoluiu na China para um modelo com características próprias: implantar tecnologias, coletar dados, ajustar sistemas e replicar soluções, baseada em parcerias entre governos municipais e grandes empresas de tecnologia, como Alibaba, Huawei e Tencent, que desenvolvem plataformas que agregam e analisam dados para otimizar serviços urbanos. Xiong’an New Area: a “cidade do futuro” em construção A Nova Área de Xiong’an é um dos projetos urbanos mais ambiciosos lançados pela China nos últimos anos. Estabelecida oficialmente em abril de 2017 como área estadual de desenvolvimento, sua criação faz parte de uma estratégia para aliviar a pressão demográfica e institucional sobre Pequim e promover o desenvolvimento coordenado da região econômica de Beijing‑Tianjin‑Hebei. O plano oficial prevê que a cidade seja construída progressivamente até 2035, com a meta de atingir uma população planejada de cerca de 5 milhões de habitantes até meados do século XXI, um número baseado em projeções oficiais e planos de desenvolvimento. O projeto foi concebido não apenas como uma expansão urbana, mas como um modelo para o futuro das cidades chinesas: incorpora princípios de sustentabilidade urbana, infraestrutura verde e digitalização, com metas de eficiência energética, mobilidade inteligente e gestão orientada por dados. Um dos conceitos urbanos adotados é a chamada “vida de quinze minutos”, em que residentes devem ter acesso a serviços essenciais, como comércio, saúde e transporte, a pé em curtas distâncias, reduzindo deslocamentos e melhorando a qualidade de vida. Ao longo dos últimos anos, Xiong’an passou de um projeto conceitual para uma área em desenvolvimento ativo, com infraestrutura emergente e iniciativas que testam tecnologias urbanas. Relatórios oficiais mostram a presença de sistemas de transporte com veículos autônomos e plataformas urbanas que integram dados de transporte, energia e serviços públicos como exemplos práticos de digitalização e inovação em gestão urbana.

8 de abril de 2026
Daiane Mendes
O lançamento do V70 5G , novo smartphone voltado ao segmento intermediário premium, marca um ponto de virada para a Jovi no Brasil. A empresa afirma que 2026 será um ano de expansão no país, com novos pontos de venda, fortalecimento da produção local e continuidade no lançamento de produtos adaptados ao consumidor brasileiro. Em dez meses, a fabricante atingiu mil funcionários, dois meses antes do planejado, e elevou sua capacidade de produção em Manaus para 500 mil aparelhos por ano. Esse avanço permitiu à marca ocupar as prateleiras das três maiores operadoras do país e de grandes varejistas, como o Magazine Luiza. A empresa projeta alcançar 1.800 pontos de venda físicos em todo o território nacional até o fim de abril. Estratégia baseada em dados do consumidor brasileiro A Jovi estruturou seu portfólio com base em pesquisas diretas com consumidores no Brasil. Foram mais de 4 mil entrevistas individuais, além de estudos com institutos externos e análise de dados de uso real dos aparelhos. “Com base nessas entrevistas, estruturamos nosso portfólio para o Brasil e alcançamos 10 produtos lançados em 10 meses, incluindo o V70, que já registra crescimento de 40% nas vendas iniciais em relação ao modelo anterior”, afirmou André Varga, diretor de Produtos da Jovi. [caption id="attachment_28288" align="alignnone" width="1575"] Imagem: China2Brazil[/caption] [caption id="attachment_28289" align="alignnone" width="1575"] Imagem: China2Brazil[/caption] Segundo a companhia, os dados indicam um comportamento específico do usuário brasileiro: uso mais intenso de câmera, especialmente para selfies, retratos e vídeos, em comparação com a média global. Esse padrão orientou o posicionamento do V70. “Identificamos que 89% do tempo de uso está concentrado em redes sociais, vídeo e mensagens. A partir disso, ampliamos as pesquisas em diferentes regiões do país e em universidades para entender quais recursos realmente fazem sentido para o consumidor brasileiro”, disse Douglas Issii, gerente de produtos sênior da Jovi. V70 aposta em câmera potente e bateria de 7.000 mAh O V70 foi lançado em duas versões (8 GB + 256 GB e 8 GB + 512 GB), com preços sugeridos de R$3.499 e R$3.999. O modelo chega ao mercado com câmera principal de 200 megapixels, zoom de até 30x com inteligência artificial e gravação em 4K nas câmeras frontal e traseira. O aparelho inclui estabilização óptica, recursos voltados para retrato e um sistema de iluminação embutido chamado “Aura Light”. Outro destaque é a bateria de 7.000 mAh, com promessa de até 2 dias de uso intenso e carregamento completo em cerca de 78 minutos com carregador de 90W. O modelo também incorpora tecnologias para reduzir o desgaste da bateria ao longo do tempo. Na parte de hardware, o smartphone utiliza processador MediaTek Dimensity 7360, tela AMOLED de 6,83 polegadas com taxa de atualização de 120 Hz e certificações IP68 e IP69 contra água e poeira. O sistema operacional é o Origin OS, instalado de fábrica.

1 de abril de 2026
Daiane Mendes
A etiqueta “Made in China” já foi associada à produção em massa e baixo custo. Hoje, essa definição não explica mais o papel do país na economia global. Nas últimas duas décadas, a China reposicionou sua indústria, investiu em tecnologia de ponta e passou a disputar um elemento menos tangível: a reputação de suas marcas. A China responde por cerca de 30% da produção manufatureira global, segundo dados das Nações Unidas, mantendo vantagem sobre os Estados Unidos e outras economias industriais. Setores como veículos elétricos, energia limpa e tecnologia digital deixaram de apenas “ganhar espaço” para assumir liderança global, indicando uma transformação que vai muito além da escala produtiva. Do domínio fabril à liderança tecnológica A estratégia chinesa mudou o foco para setores de alto valor agregado. O país deixou de apenas montar componentes para controlar as cadeias produtivas globais. Em 2025, a China consolidou a liderança global do setor automotivo, com cerca de 27 milhões de veículos vendidos no mercado doméstico e internacional. Além disso, o país fabrica cerca de 70% das baterias globais, com a CATL à frente do mercado. A velocidade de inovação também se destaca: marcas chinesas registram o maior volume de patentes de alta tecnologia (OMPI) e lançam novos modelos em cerca de 24 meses, prazo inferior ao observado em fabricantes europeias e americanas. O salto de qualidade também é visível na integração de Inteligência Artificial: de sistemas de condução autônoma a cabines inteligentes com comandos de voz e conectividade total, o padrão chinês passou a ser a referência de luxo tecnológico para o consumidor global. O mercado interno teve papel decisivo nesse processo. Com mais de 1,4 bilhão de habitantes e alto nível de digitalização, a China funciona como um ambiente de teste em larga escala. As empresas lançam produtos, ajustam modelos com base em dados reais e ganham maturidade antes de expandir para regiões como América Latina, Sudeste Asiático e Oriente Médio. Soft power e influência digital A transformação industrial vem acompanhada por mudanças na projeção cultural do país. O soft power chinês hoje é digital e está presente no cotidiano. Relatórios do World Economic Forum indicam que a exportação de cultura asiática deve ganhar ainda mais escala, impulsionada por plataformas que moldam o comportamento de consumo dos jovens ao redor do mundo. No caso da China, esse movimento combina diplomacia e mercado. Iniciativas como o “Ano da Cultura Brasil-China” reforçam o intercâmbio institucional por meio de eventos e exposições. A influência real também ocorre de forma descentralizada, por aplicativos, redes sociais e jogos eletrônicos, criando novos pontos de contato com o público e reduzindo a distância entre a origem do produto e o consumidor final. Mudança na percepção e novos critérios de escolha A preferência por marcas chinesas passa por uma mudança de mentalidade. Durante muito tempo, a origem servia como atalho para avaliar qualidade. Esse critério perdeu força, especialmente entre as novas gerações. Um relatório global da McKinsey aponta que, em 2025, os consumidores priorizam valor percebido, conveniência e experiência digital, avaliando a relação entre preço e tecnologia de forma mais flexível. Para sustentar essa nova fase, a estrutura chinesa combina três pilares: direcionamento estatal em áreas prioritárias, integração entre fábrica e tecnologia e uso intensivo de canais diretos de distribuição. Marketplaces e aplicativos próprios permitem que as empresas alcancem o consumidor sem intermediários, gerando dados que orientam melhorias imediatas nos produtos. A aplicação de inteligência artificial em produção e logística garante consistência e qualidade, aproximando os produtos chineses do padrão global mais exigente. Diante dessa concorrência, fabricantes tradicionais de setores automotivo e eletrônico revisam suas estratégias. Alguns ampliam investimento em inovação; outros reorganizam suas cadeias para manter a competitividade. A expansão chinesa agora avança também para o setor de serviços e soluções integradas, buscando capturar valor onde a margem é maior e o impacto econômico é mais amplo.

24 de março de 2026
Daiane Mendes
A China registrou 323 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2025, cerca de 23% da população, segundo o Departamento Nacional de Estatísticas. A projeção indica que esse número deve chegar a 400 milhões até 2035, próximo à população dos Estados Unidos. Com o envelhecimento acelerado, o país ampliou o uso de robôs humanoides no cuidado de idosos, incorporando a tecnologia a políticas públicas e à estratégia industrial. O avanço ocorre em um contexto de queda populacional e redução da força de trabalho. Em 2025, a China registrou mais mortes do que nascimentos , mantendo a tendência iniciada em 2022. Esse cenário pressiona o sistema de saúde, aposentadorias e assistência social, ao mesmo tempo em que aumenta a demanda por serviços de cuidado de longo prazo. Diante desse quadro, o governo e o setor privado passaram a tratar a automação como parte da resposta estrutural. Da indústria ao cuidado: a expansão dos robôs humanoides A base desse movimento está na indústria. A China lidera a instalação de robôs industriais há mais de uma década e consolidou uma cadeia produtiva que inclui fabricação de componentes, desenvolvimento de software e integração de sistemas. Essa estrutura permitiu que empresas avançassem para uma nova etapa: adaptar robôs para funções fora das fábricas. Nos últimos anos, fabricantes passaram a testar robôs humanoides em residências e centros de cuidado. A principal vantagem é a capacidade de operar em ambientes projetados para humanos, o que reduz a necessidade de mudanças na infraestrutura. Essa transição amplia o papel da automação, que deixa de se limitar à produção industrial e passa a integrar serviços pessoais. O que são robôs de cuidado e como funcionam Os robôs voltados ao cuidado de idosos combinam mobilidade, sensores e inteligência artificial para executar tarefas básicas e monitorar condições de saúde. Esses dispositivos conseguem reconhecer comandos de voz, identificar objetos e se deslocar em ambientes internos. Na prática, os sistemas captam dados por meio de sensores, como movimento e presença, e processam essas informações com algoritmos capazes de identificar padrões. A partir disso, o robô executa ações, como emitir alertas, lembrar horários de medicamentos ou auxiliar na locomoção. Em muitos casos, os dispositivos estão conectados a plataformas digitais, o que permite o acompanhamento remoto por familiares ou profissionais. Apesar do avanço, a autonomia ainda é limitada. Muitos modelos dependem de programação prévia ou supervisão humana, especialmente em tarefas mais complexas. Política industrial e programas do governo O uso de robôs no cuidado de idosos faz parte de uma estratégia mais ampla do governo chinês. A robótica avançada e a inteligência artificial foram incluídas entre os setores prioritários em planos nacionais de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, autoridades passaram a integrar essas tecnologias às políticas de assistência social. Um pacote recente de medidas voltado ao setor inclui incentivo à digitalização dos serviços de cuidado, apoio ao desenvolvimento de robôs e integração de sistemas por meio de plataformas de dados. Essas ações fazem parte da chamada “ economia prateada ”, que reúne atividades voltadas à população idosa e que deve ganhar peso crescente na economia do país. O modelo combina estímulo à produção com criação de demanda. O governo apoia empresas, financia projetos e implementa programas piloto para testar o uso das tecnologias em escala. Produção em escala e avanço do mercado Em 2025, empresas ampliaram a fabricação em escala e iniciaram a comercialização de modelos voltados ao uso doméstico e institucional. O mercado chinês desse tipo de robô atingiu cerca de 8,2 bilhões de yuans no período, segundo relatório apresentado em Pequim durante a 2ª Conferência Chinesa da Indústria de Robôs Humanoides e Inteligência Incorporada. Esse crescimento envolve fabricantes industriais, empresas de tecnologia e startups. O setor combina hardware, software e serviços digitais, criando um ecossistema integrado. Além disso, plataformas digitais passaram a oferecer soluções para monitoramento remoto e gestão de dados, conectando robôs, usuários e profissionais. Além do mercado interno, empresas chinesas também buscam exportar essas tecnologias, especialmente para países que enfrentam desafios semelhantes de envelhecimento populacional. Regulação e resposta institucional O crescimento do setor levou a discussões regulatórias. Autoridades chinesas passaram a avaliar normas para sistemas que simulam interação humana e coletam dados sensíveis, como informações de saúde e rotina. Entre os principais pontos estão a proteção de dados pessoais, a segurança no uso doméstico e a definição de responsabilidades em caso de falhas. Como os robôs operam em ambientes privados, o controle sobre as informações tornou-se um tema central. Empresas do setor passaram a ampliar testes e adotar protocolos mais rigorosos, com o objetivo de atender às exigências e reduzir riscos operacionais. Limites e desafios Apesar do avanço, a adoção em larga escala ainda enfrenta obstáculos. O custo dos equipamentos continua elevado, o que limita o acesso para parte da população. Além disso, a infraestrutura digital não é uniforme, o que dificulta a implementação em regiões menos conectadas. Outro fator envolve a adaptação social. Parte dos idosos ainda prefere atendimento humano, especialmente em atividades que exigem interação direta. Por isso, o uso desses robôs tende a ser complementar, com foco em tarefas operacionais e monitoramento.

18 de março de 2026
Daiane Mendes
Até 2030, a China terá entre 150 e 200 milhões de domicílios ocupados por apenas uma pessoa, segundo relatório do Instituto de Pesquisa Beike, uma plataforma de informações e análises imobiliárias. Dentro desse grupo, o número de jovens adultos de 20 a 39 anos que vivem sozinhos deverá chegar a 40–70 milhões, indicando que uma parcela significativa desse fenômeno está concentrada na faixa etária economicamente ativa. Em comparação, em 2002 apenas 2,5% das residências eram de ocupação individual. O aumento acompanha mudanças estruturais na sociedade chinesa, como expansão urbana, envelhecimento populacional e novas escolhas de estilo de vida entre jovens adultos, que têm levado a uma maior preferência por morar sozinho, principalmente nas grandes cidades. O crescimento de residências com uma única pessoa ocorre em um momento crítico para a demografia chinesa. Em 2025, a população total da China caiu pelo quarto ano consecutivo, com uma redução de 3,39 milhões de habitantes, segundo dados oficiais do National Bureau of Statistics. Isso reduziu o total para cerca de 1,4049 bilhão de pessoas, enquanto o número de nascimentos atingiu o menor nível desde o início dos registros modernos, cerca de 7,92 milhões, diante de 11,31 milhões de mortes, levando a um crescimento natural negativo. Do crescimento urbano à vida solo O aumento de domicílios unipessoais ocorre junto à urbanização acelerada. Milhões de jovens migraram de cidades menores para centros urbanos em busca de trabalho, vivendo sozinhos por períodos prolongados. Ao mesmo tempo, os hábitos culturais vêm mudando: jovens chineses estão adiando casamento e maternidade/paternidade e priorizam autonomia e desenvolvimento pessoal. De acordo com reportagem da TIME, jovens adultos na China estão focados na carreira e na própria qualidade de vida, frequentemente submetidos a jornadas longas de trabalho, como o modelo “996” (9h às 21h, seis dias por semana). Essa combinação de fatores aumenta a procura por residências compactas, próximas a centros de emprego e adaptadas para a vida de uma única pessoa. Ferramentas digitais para uma vida solo O fenômeno também gerou novas soluções tecnológicas. Um exemplo é o aplicativo “Si Le Me” (死了么, “Você morreu?”), lançado em 2025 e se tornou o app pago mais baixado na China recentemente. A plataforma exige que usuários que vivem sozinhos façam check-in a cada dois dias. Se não confirmarem presença, contatos de emergência são notificados. O sucesso do app evidencia uma preocupação crescente com segurança e acompanhamento social entre moradores solos, especialmente quando familiares moram em cidades distantes. Empresas de tecnologia responderam a essa demanda oferecendo serviços de monitoramento, assistência a idosos e soluções para quem vive sozinho. Legislação e mercado interno Apesar do crescimento dos domicílios unipessoais, o governo chinês ainda mantém políticas voltadas para a promoção da família tradicional, incentivando o casamento e o aumento da natalidade. A legislação habitacional, no entanto, acompanha a realidade do mercado. Em grandes centros urbanos, construtoras passaram a oferecer apartamentos menores, pensados para uma pessoa, com preços compatíveis com salários de jovens profissionais. O setor imobiliário e serviços correlatos têm adaptado produtos para esse público, incluindo móveis compactos, kits de alimentação individual e serviços de entrega adaptados. Plataformas de e-commerce como Ele.me e Meituan ajustam ofertas considerando consumidores que moram sozinhos, promovendo conveniência e praticidade. Fatores demográficos e sociais Além da migração e da escolha de vida independente, o envelhecimento populacional contribui para o aumento de domicílios de uma pessoa. Idosos que vivem sozinhos, após a morte do cônjuge ou com filhos distantes, representam um segmento crescente. Especialistas apontam que o envelhecimento combinado com o menor tamanho médio das famílias altera padrões de consumo e demanda por serviços de saúde e segurança. A mudança cultural entre jovens também é relevante. O individualismo e a priorização de interesses próprios, vistos como um movimento global, se refletem na China em hábitos de consumo e estilo de vida, fortalecendo a demanda por produtos e serviços voltados a moradores solos.