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A nova fase do Made in China: de fábrica do mundo a potência de tecnologia e marcas

Nova Made in China

A etiqueta “Made in China” já foi associada à produção em massa e baixo custo. Hoje, essa definição não explica mais o papel do país na economia global. Nas últimas duas décadas, a China reposicionou sua indústria, investiu em tecnologia de ponta e passou a disputar um elemento menos tangível: a reputação de suas marcas.

A China responde por cerca de 30% da produção manufatureira global, segundo dados das Nações Unidas, mantendo vantagem sobre os Estados Unidos e outras economias industriais. Setores como veículos elétricos, energia limpa e tecnologia digital deixaram de apenas “ganhar espaço” para assumir liderança global, indicando uma transformação que vai muito além da escala produtiva.

Do domínio fabril à liderança tecnológica

A estratégia chinesa mudou o foco para setores de alto valor agregado. O país deixou de apenas montar componentes para controlar as cadeias produtivas globais.

Em 2025, a China consolidou a liderança global do setor automotivo, com cerca de 27 milhões de veículos vendidos no mercado doméstico e internacional. Além disso, o país fabrica cerca de 70% das baterias globais, com a CATL à frente do mercado. A velocidade de inovação também se destaca: marcas chinesas registram o maior volume de patentes de alta tecnologia (OMPI) e lançam novos modelos em cerca de 24 meses, prazo inferior ao observado em fabricantes europeias e americanas. O salto de qualidade também é visível na integração de Inteligência Artificial: de sistemas de condução autônoma a cabines inteligentes com comandos de voz e conectividade total, o padrão chinês passou a ser a referência de luxo tecnológico para o consumidor global.

O mercado interno teve papel decisivo nesse processo. Com mais de 1,4 bilhão de habitantes e alto nível de digitalização, a China funciona como um ambiente de teste em larga escala. As empresas lançam produtos, ajustam modelos com base em dados reais e ganham maturidade antes de expandir para regiões como América Latina, Sudeste Asiático e Oriente Médio.

Soft power e influência digital

A transformação industrial vem acompanhada por mudanças na projeção cultural do país. O soft power chinês hoje é digital e está presente no cotidiano. Relatórios do World Economic Forum indicam que a exportação de cultura asiática deve ganhar ainda mais escala, impulsionada por plataformas que moldam o comportamento de consumo dos jovens ao redor do mundo.

No caso da China, esse movimento combina diplomacia e mercado. Iniciativas como o “Ano da Cultura Brasil-China” reforçam o intercâmbio institucional por meio de eventos e exposições. A influência real também ocorre de forma descentralizada, por aplicativos, redes sociais e jogos eletrônicos, criando novos pontos de contato com o público e reduzindo a distância entre a origem do produto e o consumidor final.

Mudança na percepção e novos critérios de escolha

A preferência por marcas chinesas passa por uma mudança de mentalidade. Durante muito tempo, a origem servia como atalho para avaliar qualidade. Esse critério perdeu força, especialmente entre as novas gerações. Um relatório global da McKinsey aponta que, em 2025, os consumidores priorizam valor percebido, conveniência e experiência digital, avaliando a relação entre preço e tecnologia de forma mais flexível.

Para sustentar essa nova fase, a estrutura chinesa combina três pilares: direcionamento estatal em áreas prioritárias, integração entre fábrica e tecnologia e uso intensivo de canais diretos de distribuição. Marketplaces e aplicativos próprios permitem que as empresas alcancem o consumidor sem intermediários, gerando dados que orientam melhorias imediatas nos produtos. A aplicação de inteligência artificial em produção e logística garante consistência e qualidade, aproximando os produtos chineses do padrão global mais exigente.

Diante dessa concorrência, fabricantes tradicionais de setores automotivo e eletrônico revisam suas estratégias. Alguns ampliam investimento em inovação; outros reorganizam suas cadeias para manter a competitividade. A expansão chinesa agora avança também para o setor de serviços e soluções integradas, buscando capturar valor onde a margem é maior e o impacto econômico é mais amplo.