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Alta no número de pessoas que vivem sozinhas marca transformação social na China

Pessoas que vivem sozinhas

Até 2030, a China terá entre 150 e 200 milhões de domicílios ocupados por apenas uma pessoa, segundo relatório do Instituto de Pesquisa Beike, uma plataforma de informações e análises imobiliárias. Dentro desse grupo, o número de jovens adultos de 20 a 39 anos que vivem sozinhos deverá chegar a 40–70 milhões, indicando que uma parcela significativa desse fenômeno está concentrada na faixa etária economicamente ativa. Em comparação, em 2002 apenas 2,5% das residências eram de ocupação individual. O aumento acompanha mudanças estruturais na sociedade chinesa, como expansão urbana, envelhecimento populacional e novas escolhas de estilo de vida entre jovens adultos, que têm levado a uma maior preferência por morar sozinho, principalmente nas grandes cidades.

O crescimento de residências com uma única pessoa ocorre em um momento crítico para a demografia chinesa. Em 2025, a população total da China caiu pelo quarto ano consecutivo, com uma redução de 3,39 milhões de habitantes, segundo dados oficiais do National Bureau of Statistics. Isso reduziu o total para cerca de 1,4049 bilhão de pessoas, enquanto o número de nascimentos atingiu o menor nível desde o início dos registros modernos, cerca de 7,92 milhões, diante de 11,31 milhões de mortes, levando a um crescimento natural negativo.

Do crescimento urbano à vida solo

O aumento de domicílios unipessoais ocorre junto à urbanização acelerada. Milhões de jovens migraram de cidades menores para centros urbanos em busca de trabalho, vivendo sozinhos por períodos prolongados. Ao mesmo tempo, os hábitos culturais vêm mudando: jovens chineses estão adiando casamento e maternidade/paternidade e priorizam autonomia e desenvolvimento pessoal.

De acordo com reportagem da TIME, jovens adultos na China estão focados na carreira e na própria qualidade de vida, frequentemente submetidos a jornadas longas de trabalho, como o modelo “996” (9h às 21h, seis dias por semana). Essa combinação de fatores aumenta a procura por residências compactas, próximas a centros de emprego e adaptadas para a vida de uma única pessoa.

Ferramentas digitais para uma vida solo

O fenômeno também gerou novas soluções tecnológicas. Um exemplo é o aplicativo “Are You Dead Yet?” (死了吗, “Você já morreu?”), lançado em 2025 e se tornou o app pago mais baixado na China recentemente. A plataforma exige que usuários que vivem sozinhos façam check-in a cada dois dias. Se não confirmarem presença, contatos de emergência são notificados.

O sucesso do app evidencia uma preocupação crescente com segurança e acompanhamento social entre moradores solos, especialmente quando familiares moram em cidades distantes. Empresas de tecnologia responderam a essa demanda oferecendo serviços de monitoramento, assistência a idosos e soluções para quem vive sozinho.

Legislação e mercado interno

Apesar do crescimento dos domicílios unipessoais, o governo chinês ainda mantém políticas voltadas para a promoção da família tradicional, incentivando o casamento e o aumento da natalidade. A legislação habitacional, no entanto, acompanha a realidade do mercado. Em grandes centros urbanos, construtoras passaram a oferecer apartamentos menores, pensados para uma pessoa, com preços compatíveis com salários de jovens profissionais.

O setor imobiliário e serviços correlatos têm adaptado produtos para esse público, incluindo móveis compactos, kits de alimentação individual e serviços de entrega adaptados. Plataformas de e-commerce como Ele.me e Meituan ajustam ofertas considerando consumidores que moram sozinhos, promovendo conveniência e praticidade.

Fatores demográficos e sociais

Além da migração e da escolha de vida independente, o envelhecimento populacional contribui para o aumento de domicílios de uma pessoa. Idosos que vivem sozinhos, após a morte do cônjuge ou com filhos distantes, representam um segmento crescente. Especialistas apontam que o envelhecimento combinado com o menor tamanho médio das famílias altera padrões de consumo e demanda por serviços de saúde e segurança.

A mudança cultural entre jovens também é relevante. O individualismo e a priorização de interesses próprios, vistos como um movimento global, se refletem na China em hábitos de consumo e estilo de vida, fortalecendo a demanda por produtos e serviços voltados a moradores solos.