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O que a China está construindo enquanto o Ocidente ainda debate o futuro da IA

China futuro da IA
Imagem: Vinicius Cordoni

Depois de percorrer três cidades chinesas, visitar empresas de tecnologia, parques científicos, aceleradoras, centros de pesquisa em inteligência artificial, hubs de live commerce e fabricantes de veículos elétricos, voltei com a sensação de que a pergunta mais importante sobre a China hoje não é se ela será uma potência tecnológica. Essa etapa já ficou para trás. A questão agora é entender a velocidade com que o país está transformando tecnologia em infraestrutura econômica.

O que mais me chamou atenção não foi uma inovação específica, mas a integração entre todas elas. No Ocidente, ainda costumamos pensar em inteligência artificial, mobilidade, comércio eletrônico, robótica, redes sociais e serviços financeiros como setores diferentes. Na China, eles parecem fazer parte de um único sistema.

Essa percepção começou na visita à NIO. À primeira vista, trata-se de uma fabricante de carros elétricos. Na prática, porém, a empresa está construindo um ecossistema. Seu sistema de troca automática de baterias permite substituir uma bateria descarregada em menos de cinco minutos.

China futuro da IA
Imagem: Vinicius Cordoni

Mais do que isso, a companhia criou o conceito de “Battery as a Service”, no qual 85% dos clientes preferem alugar a bateria em vez de comprá-la. O veículo deixa de ser um produto para se tornar uma plataforma de serviços.

A lógica se repete em outras áreas. A NIO possui milhares de estações de troca de baterias, centenas de milhares de pontos de carregamento, investe em chips próprios, desenvolve sistemas de inteligência artificial embarcada e mantém uma comunidade digital com milhões de usuários. Não vende apenas mobilidade. Vende conveniência, relacionamento, serviços e dados.

Dias depois, em Hangzhou, encontrei o mesmo padrão em um setor completamente diferente: o live commerce. Em um gigantesco complexo dedicado às transmissões ao vivo, vi algo que parecia misturar shopping center, emissora de televisão, agência de marketing, marketplace e rede social. Influenciadores transmitiam por horas seguidas em estúdios profissionais. Equipes inteiras monitoram métricas, promoções, cupons, produtos e comportamento dos consumidores em tempo real.

O mais impressionante não era o tamanho da operação, mas o fato de que o processo de descoberta, influência, recomendação e compra acontecia sem que o consumidor saísse da mesma tela.

Enquanto ainda discutimos o futuro do varejo digital, a China já transformou o entretenimento em infraestrutura de vendas. Lá, um influenciador não é apenas um criador de conteúdo. Ele se torna um canal completo de aquisição de clientes. As plataformas não funcionam apenas como redes sociais, mas como sistemas operacionais para o comércio.

China futuro da IA
Imagem: Vinicius Cordoni

A mesma lógica apareceu na discussão sobre superapps. O sucesso de plataformas como WeChat, Alipay, Douyin e Kuaishou não veio apenas da tecnologia. Veio a eliminação do atrito. Conversar, pagar, pedir comida, chamar transporte, comprar produtos, contratar serviços ou investir dinheiro acontece dentro do mesmo ecossistema.

O smartphone não é mais uma coleção de aplicativos. É uma porta de acesso a uma infraestrutura digital integrada. Foi em Zhongguancun, considerado o berço da inovação tecnológica chinesa, que essa visão ficou ainda mais clara.

Muitos observadores gostam de chamar a região de “Vale do Silício chinês”. A comparação ajuda, mas talvez seja insuficiente. O que existe ali é um modelo de inovação que conecta universidades, governo, fundos de investimento, incubadoras e empresas privadas em uma mesma estrutura.

A TusPark e a TusStar são exemplos dessa filosofia. O objetivo não é apenas financiar startups. É reduzir a distância entre pesquisa acadêmica e transformação econômica. Estudantes podem testar negócios antes mesmo de deixar a universidade. Incubadoras fornecem apoio jurídico, financeiro, operacional e tecnológico. Fundos acompanham a trajetória desde a fase inicial até a abertura de capital.

A impressão é que a inovação chinesa não acontece apesar do sistema. Ela acontece porque existe um sistema desenhado para acelerar esse processo.Mas nada representou melhor o momento atual da China do que as visitas ligadas à inteligência artificial e robótica.

Se o Ocidente está fascinado pelos modelos de linguagem, os chineses parecem já estar olhando para a próxima etapa. A discussão recorrente não era sobre chatbots. Era sobre robôs.

China futuro da IA
Imagem: Vinicius Cordoni

Em diferentes apresentações, ouvi a mesma tese: a IA digital precisa migrar para o mundo físico. O desafio não é apenas fazer uma máquina conversar, mas fazê-la trabalhar.

Empresas estão pagando pela captura de movimentos humanos em restaurantes, supermercados, hospitais, fábricas e fazendas para treinar robôs. A matéria-prima da próxima revolução tecnológica não será apenas texto e imagem. Será comportamento humano.

A comparação mais interessante feita durante a viagem foi entre robôs e smartphones.Há quinze anos, o smartphone se tornou a principal plataforma para serviços digitais. Agora, muitos acreditam que os robôs poderão desempenhar papel semelhante no mundo físico. Assim como instalamos aplicativos em um telefone, no futuro poderemos instalar habilidades em máquinas capazes de cozinhar, limpar, transportar mercadorias, prestar assistência ou realizar tarefas industriais.

Na SenseTime, uma das principais empresas de inteligência artificial do país, as demonstrações reforçaram essa visão. Sistemas de visão computacional fazem inspeções ferroviárias em dias em vez de anos. Soluções de IA ajudam hospitais, bancos, cidades e indústrias. Assistentes digitais ganham autonomia. Humanos digitais realizam atendimentos. Modelos analisam dados, identificam falhas e auxiliam decisões.

Enquanto parte do mundo ainda debate os impactos futuros da inteligência artificial, a China está construindo os ecossistemas que poderão definir esse futuro.Talvez essa seja a maior diferença entre quem discute a próxima revolução tecnológica e quem já começou a implementá-la.

*Por Vinicius Cordoni