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El Niño 2026/27: risco climático chega ao coração das commodities brasileiras

El Niño

O El Niño voltou ao centro das preocupações do agronegócio. Mas o maior risco para a safra 2026/27 não está apenas na intensidade do fenômeno. Está no fato de que seus efeitos poderão atingir alguns dos municípios que mais produzem soja, milho e algodão no Brasil.

A Organização Meteorológica Mundial informou que o El Niño está firmemente estabelecido, com probabilidade próxima de 100% de permanecer ativo durante a primavera de 2026 e o verão de 2026/27. O evento poderá atingir intensidade muito forte até o final do ano. A própria OMM, entretanto, adverte que a intensidade do aquecimento do Pacífico não determina automaticamente a dimensão dos impactos em cada região.

No Brasil, o painel formado por INPE, INMET, ANA, Cemaden, Serviço Geológico e outros órgãos públicos prevê chuva abaixo da média em Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais, Espírito Santo e em grande parte das regiões Norte e Nordeste. No Sul, principalmente no Rio Grande do Sul, o risco é o oposto: precipitações acima da média, excesso de umidade e maior possibilidade de eventos extremos.

Segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE, os dez municípios com maior valor da produção agrícola em 2024 foram:

1. Sorriso, em Mato Grosso;
2. São Desidério, na Bahia;
3. Sapezal, em Mato Grosso;
4. Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso;
5. Cristalina, em Goiás;
6. Formosa do Rio Preto, na Bahia;
7. Rio Verde, em Goiás;
8. Nova Ubiratã, em Mato Grosso;
9. Diamantino, em Mato Grosso;
10. Nova Mutum, em Mato Grosso.

Juntos, esses municípios geraram R$ 52,4 bilhões em produção agrícola, equivalentes a 6,7% do valor nacional. Oito deles estão em Mato Grosso ou na Bahia, estados situados dentro das áreas para as quais os órgãos meteorológicos indicam maior risco de chuva abaixo da média ou irregular durante a implantação da safra 2026/27.

A soja é a principal cultura em oito dos dez municípios. As exceções são Sapezal e Campo Novo do Parecis, onde o algodão ocupa a liderança. São Desidério, por sua vez, foi o maior produtor brasileiro de soja em 2024, com aproximadamente 2,1 milhões de toneladas.

El Niño
Imagem: China2Brazil

Essa relação não constitui uma previsão de quebra por município. É um mapa de exposição construído pelo cruzamento entre a importância econômica da produção municipal e os prognósticos climáticos oficiais.

No Centro-Oeste e no Matopiba, o dano mais relevante pode não ser uma perda imediata da soja. O maior risco está no deslocamento de todo o calendário agrícola.

Se a chuva atrasar, o produtor terá duas alternativas: plantar com umidade insuficiente ou esperar melhores condições. Plantar no seco aumenta o risco de germinação desuniforme, morte de plântulas e replantio. Esperar pela chuva reduz esse problema, mas posterga a colheita da soja.

A colheita tardia diminui a janela disponível para o milho segunda safra e para o algodão cultivado depois da soja. Essas culturas podem chegar às fases de floração e enchimento de grãos justamente quando as chuvas começam a diminuir.

Portanto, mesmo que a soja tenha um desempenho razoável, o resultado econômico anual da propriedade pode ser prejudicado pela redução da produtividade da segunda safra.

A Embrapa considera esse encadeamento um dos principais riscos da temporada. A recomendação inclui respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático, cobertura do solo, diversificação das épocas de plantio, utilização de cultivares com ciclos diferentes e monitoramento das condições de umidade antes da semeadura.

Mato Grosso reúne seis dos dez municípios com maior valor da produção agrícola brasileira. Por isso, qualquer atraso relevante das chuvas em Sorriso, Sapezal, Campo Novo do Parecis, Nova Ubiratã, Diamantino e Nova Mutum terá repercussões que ultrapassam os limites municipais.

Além da produtividade, um plantio mais lento modifica o cronograma de compra e aplicação de insumos, contratação de máquinas, utilização de armazéns e movimentação de caminhões. Também pode concentrar a colheita em um período menor, pressionando a logística regional.

Em municípios como Sapezal e Campo Novo do Parecis, o risco alcança diretamente o algodão. O atraso da soja pode empurrar a semeadura do algodão da segunda safra para fora da janela considerada ideal. Isso aumenta a exposição da cultura a veranicos e pode elevar os custos com irrigação, controle fitossanitário e replantio.

Ainda não existe, entretanto, uma estimativa oficial de perda de produção para esses municípios. A consequência dependerá da data efetiva de retorno das chuvas e, sobretudo, de sua distribuição ao longo do ciclo das culturas.

São Desidério e Formosa do Rio Preto estão entre os dez maiores municípios agrícolas do país. Barreiras, Luís Eduardo Magalhães e Correntina completam um dos principais corredores brasileiros de soja, milho e algodão.

Nessa região, chuvas abaixo da média combinadas com temperaturas elevadas podem reduzir rapidamente a umidade do solo, aumentar a demanda por irrigação e dificultar o estabelecimento das lavouras. O risco também alcança pastagens e a disponibilidade de água para a pecuária.

No Maranhão e no Piauí, o painel federal menciona expressamente a possibilidade de dificuldades na implantação da safra 2026/27. Isso coloca sob atenção municípios como Balsas, Uruçuí, Bom Jesus e Baixa Grande do Ribeiro.

A irregularidade das chuvas pode ser tão prejudicial quanto a redução do volume total. Uma precipitação forte seguida por várias semanas de tempo seco pode permitir o plantio, mas não garantir umidade suficiente para o desenvolvimento inicial da cultura.
Enquanto Mato Grosso e Matopiba observam o risco de atraso das chuvas, Paraná e Rio Grande do Sul enfrentam a possibilidade de excesso de precipitação.

No Paraná, o Simepar registrou chuva acima da média em praticamente todo o estado durante julho de 2026. Palmas acumulou 311 milímetros, o maior volume para julho em 28 anos. Também foram observados acumulados excepcionalmente elevados em municípios como Ubiratã, Foz do Iguaçu, Pato Branco, Ponta Grossa, Capanema e São Miguel do Iguaçu.

Para a safra 2026/27, os principais polos sob atenção incluem Cascavel, Toledo, Palotina, Ubiratã, Pato Branco, Francisco Beltrão, Palmas, Guarapuava e Ponta Grossa.

O excesso de umidade pode provocar doenças fúngicas, erosão, perdas de solo, deterioração da qualidade do trigo e dificuldades para a entrada de máquinas. Também pode atrasar a colheita das culturas de inverno e, consequentemente, postergar o plantio da soja e do milho de verão.

No Rio Grande do Sul, o Noroeste é historicamente uma das áreas mais sensíveis à chuva excessiva durante episódios fortes de El Niño. Isso exige atenção em municípios como Cruz Alta, Ijuí, Tupanciretã, Passo Fundo, Carazinho, Santa Rosa e Santo Ângelo.

Nas regiões produtoras de arroz irrigado, o monitoramento deve alcançar Uruguaiana, Itaqui, Alegrete, São Borja, Dom Pedrito e Santa Vitória do Palmar. Como a disponibilidade de água já é controlada por irrigação, chuva adicional não significa necessariamente maior produtividade. Nebulosidade persistente, alagamentos e dificuldades operacionais podem prejudicar o plantio e o desenvolvimento da cultura.

Ao mesmo tempo, a chuva bem distribuída pode favorecer a soja, o milho e as pastagens gaúchas. O impacto dependerá menos do volume acumulado ao longo de três meses e mais da concentração das precipitações em períodos curtos.

Dourados, Maracaju, Ponta Porã, Amambai, Naviraí e Sidrolândia estão em uma zona intermediária do fenômeno.

O painel oficial prevê maior possibilidade de excesso de chuva no sul de Mato Grosso do Sul. Isso pode beneficiar a reposição da umidade do solo, mas também atrasar operações agrícolas, dificultar aplicações, aumentar doenças e comprometer a qualidade dos grãos.

Na soja, chuva adequada durante o desenvolvimento pode elevar a produtividade. O risco aparece quando a precipitação impede o plantio, provoca encharcamento ou reduz a luminosidade por períodos prolongados.

Os efeitos do El Niño sobre esses municípios podem se espalhar por toda a cadeia do agronegócio.

Um atraso da soja em Mato Grosso pode modificar o calendário de exportações e a disponibilidade de milho no segundo semestre de 2027. Excesso de chuva no Sul pode prejudicar a qualidade do trigo, elevar a necessidade de importação e atrasar a movimentação das cooperativas. Perdas de pastagens no Matopiba e no norte de Minas Gerais podem aumentar a demanda por milho e outros insumos destinados à alimentação animal.

Também podem ocorrer:

  • Aumento dos pedidos de replantio e indenização do seguro rural;
  • Maior volatilidade nos preços regionais;
  • Pressão sobre armazenagem e transporte;
  • Mudanças no fluxo de caminhões e portos;
  • Elevação dos custos de irrigação, secagem e controle de doenças;
  • Dificuldade no cumprimento de contratos de entrega.

Para a China, principal destino da soja brasileira, o ponto central será o calendário. Mesmo sem uma grande redução da produção nacional, atrasos na colheita podem modificar temporariamente o ritmo dos embarques e a formação dos prêmios nos portos brasileiros.

A Conab estimou a produção brasileira de grãos de 2025/26 em 360,8 milhões de toneladas. Esse é o ponto de partida para a nova temporada, mas ainda não existe uma projeção oficial consolidada de quanto o El Niño poderá reduzir ou aumentar a safra 2026/27.

A situação exige atenção, mas não autoriza previsões alarmistas. Um El Niño muito forte descreve a intensidade do aquecimento do Oceano Pacífico. Não significa que todos os municípios terão perdas severas.

O que já pode ser afirmado é que o fenômeno atinge o Brasil em um ponto sensível: Mato Grosso, Bahia e o Matopiba entram na safra sob risco de atraso e irregularidade das chuvas, enquanto os principais polos agrícolas do Sul enfrentam a possibilidade de excesso de umidade.

A safra 2026/27 será decidida município por município, semana por semana e cultura por cultura. Mais do que o volume total de chuva, serão determinantes a data de início da estação chuvosa, a distribuição das precipitações e a fase do desenvolvimento das lavouras atingida por cada extremo climático.