Tecnologia

China tem primeiro centro de dados submarino do mundo

 Para encontrar um caminho mais eficiente e sustentável para o desenvolvimento da capacidade computacional devido às demandas da Inteligência Artificial, empresas chinesas de infraestrutura digital decidiram seguir uma rota inovadora: construir centros de dados no fundo do mar.


Na região do Mar da China Oriental, a leste de Xiaoyangshan, em Lingang, Xangai, uma plataforma marítima que se eleva mais de 20 metros acima do nível do mar chama atenção. Trata-se do primeiro centro de dados submarino do mundo conectado diretamente à energia eólica offshore em operação comercial.

O projeto recebeu investimentos totais de RMB 1,6 bilhão, com planejamento geral de 24 megawatts. A primeira fase demonstrativa possui capacidade instalada de 2,3 megawatts e peso total de 1.950 toneladas — equivalente ao peso de cerca de 1.300 automóveis de passeio.

Vantagens e desafios de instalar centros de dados no oceano


O centro de dados submarino está instalado em uma área com profundidade de cerca de 10 metros, contendo quatro níveis de racks de servidores, cada um com aproximadamente 160 metros quadrados.

A sala de servidores possui 192 racks, cada um com potência aproximada de 12 quilowatts. Milhares de servidores operam continuamente nas profundezas do mar, sustentando demandas de computação para internet e aplicações de inteligência artificial.

Afundar o centro de dados no oceano é uma tentativa inovadora de resolver os problemas tradicionais dos centros terrestres: alto consumo de energia, alto consumo de água e grande ocupação de espaço.

Nos centros de dados convencionais, cerca de 40% da eletricidade é usada apenas para resfriamento. Já nessa região marítima, a temperatura média anual da água é de apenas 15 °C, funcionando naturalmente como um enorme sistema de refrigeração.

Segundo a responsável pelo projeto, Chen Xiyi, um centro de dados submarino de 2,3 megawatts consumiria cerca de 40 mil toneladas de água doce por ano se utilizasse métodos tradicionais de refrigeração — o equivalente ao consumo de aproximadamente 100 anos de uma família comum.

O projeto utiliza tecnologia de circulação passiva de fluido refrigerante, empregando a água do mar como fonte de resfriamento para dissipar o calor dos servidores, alcançando consumo zero de água doce.

O principal indicador para medir o consumo energético de um centro de dados é o PUE (Power Usage Effectiveness). Quanto mais próximo de 1, maior é a eficiência energética. Um centro de dados terrestre geralmente apresenta PUE entre 1,4 e 1,6. Já este centro submarino consegue operar abaixo de 1,15.

A cerca de 500 metros do centro de dados submarino, mais de 50 turbinas eólicas offshore se erguem sobre o mar. Esse parque eólico marítimo de 200 megawatts gera mais de 500 milhões de kWh por ano.

A energia renovável produzida ali tornou-se a principal fonte energética do centro submarino.

Segundo relatório da International Energy Agency, até 2030 a demanda elétrica global dos centros de dados deverá mais que dobrar, sendo a inteligência artificial o principal motor desse crescimento explosivo no consumo de energia.

Por meio de cabos compostos fotoelétricos, o centro submarino é conectado diretamente ao parque eólico, permitindo que mais de 95% da energia utilizada venha diretamente de fontes renováveis.

Após entrar em plena operação, o projeto poderá economizar anualmente 61 milhões de kWh de eletricidade. A redução das emissões de dióxido de carbono equivalerá à capacidade anual de absorção de cerca de 1,6 milhão de árvores.

Além disso, mais de 90% dos recursos terrestres podem ser economizados. Uma instalação de 2,3 megawatts ocupa apenas 200 metros quadrados equivalentes em área terrestre, muito abaixo dos 2.000 metros quadrados normalmente exigidos por centros de dados tradicionais instalados em terra.

O que vemos acima da água é apenas a única parte visível do centro submarino. Abaixo dela existe um complexo sistema estrutural de aço.

As águas de Lingang possuem ventos fortes, alto teor de sedimentos e condições marítimas complexas. A equipe de construção criou uma “nova estrutura para centros de dados submarinos”, integrando coordenadamente quatro componentes centrais e superando dificuldades como içamento integrado e posicionamento subaquático de alta precisão. Toda a construção foi concluída em apenas seis meses.

Durante a visita, a sensação mais marcante foi o contraste: no fundo do mar, em vez de vida marinha, o que se encontra são 2.000 servidores operando simultaneamente. Talvez algum vídeo que você esteja assistindo agora ou alguma imagem gerada por IA tenha sido processada justamente ali.

O primeiro sistema conectado ao centro submarino foi o centro de computação de inteligência artificial de uma empresa de telecomunicações localizada a 10 quilômetros da plataforma marítima.

A companhia utiliza o centro submarino como complemento estratégico às instalações terrestres, formando uma rede integrada de computação entre mar e terra.

Segundo Jiang Liu, responsável pelo projeto, o centro de dados submarino de Lingang possui ainda outra vantagem estratégica: sua forte compatibilidade com demandas de processamento de dados transfronteiriços.

Em uma empresa de serviços internacionais de dados em Xangai, engenheiros de IA analisam vídeos quadro a quadro em frente aos computadores. Trata-se de um projeto de “modelo mundial”, envolvendo áreas como cinema, televisão e videogames. Em Lingang, esse tipo de atividade recebe um nome especial: “processamento de dados importados”.

Projetos desse tipo exigem enorme capacidade computacional. Em apenas dois anos desde sua fundação, a empresa aumentou seu quadro de funcionários para 300 pessoas.

Para empresas de processamento internacional de dados, os centros submarinos oferecem menor consumo energético, menor latência e custos mais baixos, tornando-se um importante suporte para a expansão global dos negócios.

O sucesso comercial do modelo “energia eólica offshore + computação submarina” em Lingang levou as equipes de design e operação a planejarem mais centros submarinos.

Segundo informações divulgadas, está em andamento a implantação em larga escala de módulos submarinos individuais de 5 a 7 megawatts, com planos de conectar múltiplos módulos nas regiões do Delta do Rio Yangtzé, Delta do Rio das Pérolas e Mar de Bohai.

Comparado ao futuro planejamento nacional, o projeto atual de 2,3 megawatts em Lingang representa apenas “a ponta do iceberg”.

Com o avanço contínuo da construção de instalações de computação inteligente em larga escala e alta densidade, a energia deverá se tornar um dos principais gargalos para o desenvolvimento da IA. A coordenação entre computação e energia surge justamente como uma solução essencial para superar esse desafio.

No futuro, o surgimento constante de novas tecnologias e novos modelos deverá acelerar a implementação de mais projetos estáveis, verdes e de baixo custo de integração entre energia e computação, consolidando uma base sólida para o desenvolvimento da economia inteligente.

Fonte: chinanews.com