Destaques da Semana

Atrasos nos portos afetam exportações de café em 2025

Café do Brasil

Ao longo de 2025, o tema da infraestrutura portuária brasileira voltou a ganhar destaque nas análises sobre o agronegócio, especialmente no setor cafeeiro. Dados apontaram perdas relevantes associadas a atrasos nos portos, indisponibilidade de contêineres e mudanças frequentes nas escalas marítimas, trazendo à tona uma discussão importante: o quanto os gargalos logísticos impactam, de fato, a competitividade do café brasileiro.

O Brasil manteve, em 2025, a posição de principal exportador global de café, beneficiado por preços internacionais elevados e demanda consistente. Ao mesmo tempo, os portos brasileiros operaram em níveis historicamente elevados de movimentação. Dados oficiais da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) e do Ministério de Portos e Aeroportos indicam que 2025 foi um ano de recorde para o setor, com volumes superiores a 1,2 bilhão de toneladas e crescimento em relação a 2024.

Nesse contexto de forte demanda logística, o setor cafeeiro enfrentou dificuldades operacionais pontuais, amplamente registradas ao longo do ano. Informações divulgadas pelo Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) mostraram, mês a mês, volumes relevantes de café que deixaram de ser embarcados. Em julho, cerca de 508,7 mil sacas não seguiram viagem; em agosto, 624,7 mil sacas; e, em outubro, o volume chegou a 681,6 mil sacas, o equivalente a mais de dois mil contêineres, afetados por atrasos de navios, restrições operacionais e ajustes de programação portuária. Esse volume não embarcado foi suficiente para chamar a atenção do mercado e reforçar a percepção de que a logística passou a ser um fator crítico para o desempenho do setor.

Esses atrasos tiveram dois efeitos distintos. O primeiro, direto e mensurável, foi o aumento de custos logísticos para os exportadores: armazenagem adicional, taxas de detenção de contêineres (demurrage e detention), pré-stacking e reprogramação de cargas.

O segundo efeito é mais complexo e exige cuidado analítico. Em outubro de 2025, por exemplo, estimativas indicaram que o não embarque de café teria postergado uma receita potencial próxima de US$278 milhões naquele mês, valor que, convertido para reais, ultrapassa R$1,5 bilhão. Esse número, no entanto, não representa uma perda definitiva, mas receita cambial não realizada naquele período específico, que pode ou não ter sido recuperada em meses posteriores, a depender da execução dos contratos.

Ainda assim, é importante reforçar que postergação não equivale automaticamente a perda definitiva. Parte relevante dessas cargas foi reprogramada e embarcada posteriormente, acompanhando a normalização das escalas e a reorganização dos fluxos logísticos. Ainda assim, o impacto operacional existe e deve ser interpretado como um custo sistêmico crescente, associado à limitação de capacidade e à concentração das exportações em poucos corredores portuários.

O episódio de 2025 não indica fragilidade estrutural da cadeia produtiva do café brasileiro, tampouco risco de abastecimento. O que revela é um desafio logístico clássico de economias exportadoras de grande escala: quando produção, preços e volumes crescem simultaneamente, a infraestrutura precisa acompanhar esse ritmo com investimentos contínuos, expansão de capacidade e maior eficiência operacional. Por outro lado, atribuir um valor fechado e definitivo de perda anual exige cautela, sob pena de confundir custo efetivo com receita potencial não realizada.

Do ponto de vista estratégico, o Brasil segue como fornecedor confiável, com produção diversificada, players consolidados e forte presença no comércio global. Ao mesmo tempo, os gargalos observados reforçam a importância de projetos de modernização portuária, diversificação de terminais, melhorias na gestão logística e maior previsibilidade operacional, temas que abrem espaço para investimentos estrangeiros em infraestrutura, logística e serviços portuários. Em um mercado global sensível a prazos e confiabilidade, gargalos logísticos deixam de ser apenas um problema operacional e passam a representar um risco estratégico para a posição do Brasil no comércio internacional de café.