A imposição de tarifas pelos Estados Unidos atingiu fortemente parte da indústria brasileira de madeira em 2025, especialmente segmentos dependentes do mercado norte-americano. Entretanto, os dados oficiais mostram que não houve uma retração generalizada da atividade florestal brasileira.
Enquanto madeira serrada, molduras, compensados, portas e pisos sofreram com a redução das exportações, outros segmentos seguiram trajetórias diferentes. A produção destinada à celulose avançou, a oferta energética de lenha e carvão vegetal permaneceu relativamente estável e o mercado de pellets continuou encontrando demanda tanto internamente quanto na Europa.
A Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura, PEVS 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que o valor da produção florestal brasileira atingiu R$ 47,9 bilhões em 2025, crescimento de 6,7% sobre o ano anterior e novo recorde da série.
A silvicultura, que representa a produção proveniente de florestas plantadas, alcançou aproximadamente R$ 41 bilhões, crescimento de 8,6%, respondendo por 85,6% do valor da produção florestal brasileira. A área de florestas plantadas chegou a aproximadamente 10,4 milhões de hectares.
Esse resultado, isoladamente, já demonstra que o tarifaço não provocou uma crise generalizada da produção florestal brasileira. O que ocorreu foi uma mudança importante dentro da cadeia.
Os efeitos das tarifas aparecem com muito mais clareza entre os produtos processados que historicamente dependem dos compradores norte-americanos.
Segundo levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), baseado em dados da Secretaria de Comércio Exterior, as exportações brasileiras de produtos madeireiros para os Estados Unidos apresentaram queda média de 55% entre agosto e outubro de 2025, os três primeiros meses de aplicação da tarifa de 50%.
Entre os segmentos atingidos estavam molduras, compensados, madeira serrada, portas e pisos.
A elevada exposição ao mercado norte-americano ajuda a explicar a intensidade do impacto. Em 2025, por exemplo, o Brasil exportou 138,6 mil toneladas de molduras de madeira, das quais aproximadamente 97% tiveram os Estados Unidos como destino, segundo a Abimci.
Dados do Banco Central reforçam esse cenário. Entre agosto e novembro de 2025, quando as tarifas adicionais estavam em seus níveis mais elevados, o valor total das exportações brasileiras aos Estados Unidos caiu 25,1%, enquanto o volume recuou 22%.
A Região Sul, onde está instalada parte relevante da indústria brasileira de madeira processada, apresentou queda de 43,9% no valor e 42,5% no volume exportado. No Paraná, a redução do volume das exportações para os Estados Unidos chegou a 55,7% naquele período.
Portanto, há evidências consistentes de que as tarifas tiveram impacto relevante sobre os segmentos madeireiros mais dependentes dos Estados Unidos.
A cadeia voltada para papel e celulose apresentou uma situação bastante diferente.
Segundo dados divulgados pelo IBGE, o Brasil produziu aproximadamente 22,2 milhões de toneladas de celulose em 2025, crescimento de 12,7% sobre o ano anterior.
Esse crescimento ajuda a explicar por que a produção florestal brasileira continuou avançando mesmo diante das dificuldades enfrentadas pela indústria de madeira processada.
O mercado internacional de celulose, entretanto, também enfrentou pressão sobre os preços. O IBGE aponta fatores como excesso de oferta global, desaceleração da demanda chinesa, aumento dos estoques internacionais e questões cambiais.
Assim, quantidade produzida e rentabilidade não necessariamente seguiram a mesma trajetória.
O comportamento da madeira destinada à energia também merece ser analisado separadamente.
Não existe uma única estatística oficial denominada simplesmente “madeira para biomassa”. O mercado envolve diferentes produtos e rotas de utilização, incluindo lenha, carvão vegetal, cavacos, pellets, briquetes e resíduos da indústria florestal.
A partir dos dados referentes a 2025, o próprio IBGE passou a fornecer maior detalhamento sobre o destino das florestas plantadas, separando madeira para papel e celulose, madeira para outras finalidades e produção destinada a lenha ou carvão vegetal.
Essa mudança estatística será particularmente importante para acompanhar a expansão do mercado brasileiro de biomassa nos próximos anos.
O Balanço Energético Nacional 2026, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) com dados referentes a 2025, mostra que a oferta interna de energia proveniente de lenha e carvão vegetal passou de 26,837 milhões de toneladas equivalentes de petróleo em 2024 para 27,147 milhões em 2025. O crescimento foi de aproximadamente 1,2%.
O dado é particularmente relevante porque mostra que, enquanto parte da indústria exportadora de madeira enfrentava uma forte contração, a demanda energética doméstica por biomassa florestal não apresentava movimento semelhante. Há uma explicação estrutural para isso.
Grande parte dessa biomassa é consumida dentro do próprio Brasil em processos industriais, produção de calor, siderurgia, agroindústria e diferentes atividades que necessitam de energia térmica. Dessa forma, esse mercado possui exposição muito menor às oscilações comerciais dos Estados Unidos.
O mercado de pellets oferece outro exemplo dessa diferença. Segundo a Abimci, o Brasil exportou aproximadamente 449 mil toneladas de pellets de madeira em 2025. Quase 70% desse volume teve a Itália como destino.
Ao contrário de molduras, pisos e outras categorias de madeira processada, portanto, os pellets brasileiros apresentam uma relação comercial muito mais forte com o mercado europeu do que com os Estados Unidos.
A produção brasileira também possui mercado doméstico. Dados apresentados pela Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) indicam produção estimada em aproximadamente 700 mil toneladas de pellets em 2024, com cerca de 500 mil toneladas absorvidas pelo mercado interno e 200 mil toneladas destinadas às exportações.
A Abimci identifica oportunidades para ampliar o uso do produto em atividades como secagem de grãos, aquecimento de aviários, indústria de alimentos e hotelaria.
Essa demanda aproxima cada vez mais a cadeia florestal do agronegócio brasileiro.
Outra fonte relevante de bioenergia florestal aparece dentro da própria cadeia de celulose. O chamado licor preto, subproduto do processo industrial de fabricação da celulose, tornou-se uma fonte importante de energia para as fábricas do setor.
Segundo a EPE, sua participação na oferta energética brasileira aumentou 9,3% em 2025.
Esse movimento acompanha a expansão da produção de celulose e demonstra como a utilização energética da madeira vai muito além da comercialização tradicional de lenha.
Na geração elétrica, a biomassa como um todo também avançou. A geração das térmicas a biomassa aumentou 7,6% em 2025, enquanto a bioeletricidade alcançou o recorde de 66,1 TWh, correspondendo a 8,5% da geração brasileira.
Bagaço de cana respondeu pela maior parcela, mas o licor preto representou aproximadamente 28,1% da bioeletricidade, evidenciando a participação crescente da cadeia florestal na matriz elétrica.
A pressão comercial sobre a madeira processada também não terminou em 2025. Em julho de 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) informou que diversos tipos de madeira brasileira passaram a integrar produtos sujeitos simultaneamente a duas novas medidas norte-americanas da Seção 301, resultando em sobretaxa adicional acumulada de 37,5% para os produtos enquadrados nas duas medidas.
O governo brasileiro também registrou que as exportações totais aos Estados Unidos recuaram de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7 bilhões em 2025 e continuaram em queda durante o primeiro semestre de 2026.
O cenário mantém elevada a necessidade de diversificação de mercados para empresas brasileiras dependentes dos Estados Unidos.
Os dados mostram que falar simplesmente em “queda da madeira brasileira” pode produzir uma interpretação incompleta.
Em 2025, três movimentos ocorreram simultaneamente. A madeira processada altamente dependente dos Estados Unidos enfrentou uma forte redução das exportações após a elevação das tarifas.
A cadeia de papel e celulose continuou expandindo a produção, apoiada por grandes investimentos industriais e pela competitividade brasileira na produção de eucalipto.
E a biomassa florestal permaneceu relativamente resiliente, sustentada principalmente pelo consumo energético doméstico e, no caso dos pellets, por um mercado internacional muito mais concentrado na Europa.
Essa diferenciação é particularmente relevante para investidores, produtores florestais e indústrias que analisam novos projetos no Brasil.
A madeira deixou de possuir apenas um destino econômico. Dependendo da localização da floresta, da distância da indústria e das características da matéria-prima, ela pode abastecer fábricas de celulose, serrarias, produção de carvão vegetal, geração térmica, secagem de grãos, produção de cavacos, pellets e outros mercados energéticos.
Para investidores internacionais — inclusive empresas chinesas interessadas em projetos industriais e em segurança energética — essa diversificação aumenta a importância de analisar não apenas o preço da terra ou a produtividade florestal, mas também a proximidade dos consumidores de biomassa, infraestrutura logística e possibilidades alternativas de utilização da madeira.
O tarifaço norte-americano mostrou justamente essa diferença. Uma parcela da indústria florestal brasileira sofreu fortemente porque dependia de um único mercado externo. Em outras partes da cadeia, porém, o crescimento da celulose, a demanda doméstica por energia e o desenvolvimento do mercado internacional de biomassa ajudaram a construir uma realidade bastante diferente.

