Durante as reuniões políticas anuais conhecidas como “Duas Sessões”, especialistas e legisladores discutiram o papel da chamada energia do futuro na estratégia econômica da China. O tema ganhou destaque após o governo incluir o setor entre as indústrias prioritárias para os próximos anos, dentro do planejamento ligado ao 15º Plano Quinquenal.
A iniciativa ocorre em um cenário de incertezas no mercado energético global. Oscilações recentes nos preços do petróleo e tensões geopolíticas reforçaram a preocupação com a segurança energética. Como maior consumidor de energia do mundo, a China busca ampliar a estabilidade do abastecimento e reduzir a dependência de combustíveis fósseis.
Para Lv Chunxiang, deputado da Assembleia Popular Nacional e pesquisador do Instituto de Química do Carvão de Shanxi da Academia Chinesa de Ciências, a discussão ocorre em meio a dois desafios principais: a necessidade de substituir fontes fósseis e o crescimento da demanda por eletricidade impulsionado por novas tecnologias. “Quem avançar na energia do futuro poderá assumir a iniciativa no desenvolvimento econômico”, afirmou.
No planejamento chinês, o conceito de energia do futuro não se refere a uma única fonte, mas a um conjunto de tecnologias energéticas avançadas, com maior eficiência e baixas emissões. Entre os setores prioritários estão energia nuclear, fusão nuclear, hidrogênio, biomassa, novas células solares e sistemas de armazenamento de energia. O governo também passou a citar hidrogênio e fusão como possíveis novos motores de crescimento econômico nas próximas décadas.
Entre essas tecnologias, o hidrogênio já apresenta avanços industriais mais concretos. A China possui capacidade anual de produção de hidrogênio verde superior a 220 mil toneladas, o que representa mais da metade da capacidade global. O país também ampliou a fabricação de equipamentos essenciais, como eletrolisadores, e expandiu o uso do hidrogênio para setores industriais de alto consumo energético, como refino, indústria química e metalurgia.
Apesar do avanço, especialistas apontam um desafio estrutural: a distância entre produção e uso. A infraestrutura de transporte e armazenamento ainda limita a aplicação em larga escala. Segundo Ma Yongsheng, membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês e acadêmico da Academia Chinesa de Engenharia, a liderança chinesa no setor está ligada principalmente à escala do mercado e ao número de aplicações industriais. Para ampliar o uso do hidrogênio, será necessário avançar na infraestrutura, na expansão de cenários industriais e na criação de modelos de negócios sustentáveis.
A fusão nuclear também ocupa lugar central no planejamento energético de longo prazo. Conhecida como “sol artificial”, a tecnologia busca reproduzir o processo de geração de energia do Sol para produzir eletricidade com baixas emissões. Na China, a pesquisa em fusão por confinamento magnético já se encontra entre as mais avançadas do mundo. Segundo Duan Xuru, cientista-chefe de fusão do Grupo Nuclear Nacional da China, experimentos de combustão de fusão podem começar por volta de 2027.
Nos próximos anos, pesquisadores devem concentrar esforços na resolução de desafios científicos ligados à estabilidade do plasma e à integração de tecnologias como supercondutores de alta temperatura e inteligência artificial.
Especialistas também apontam que o avanço da energia do futuro dependerá de políticas públicas, inovação científica e expansão do mercado interno. Relatório da Huatai Securities projeta que a demanda global por hidrogênio verde pode alcançar 8,3 milhões de toneladas até 2030, enquanto o mercado chinês apresenta amplo potencial de crescimento. Nesse cenário, analistas avaliam que 2026 pode marcar uma transição da fase de testes para o desenvolvimento em escala da indústria de hidrogênio no país.
Para pesquisadores e legisladores chineses, o desenvolvimento dessas tecnologias exige investimentos de longo prazo e mecanismos que compartilhem riscos entre governo, empresas e capital privado. A estratégia busca garantir segurança energética e, ao mesmo tempo, posicionar a China nos setores que podem definir a próxima etapa da indústria global de energia.
Fonte: gmw.cn


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