Cultura

Xiplomacia: como a visão de Xi Jinping mudou a atuação global da China

Xiplomacia
Imagem: Xie Huanchi/ Xinhua

“Xiplomacia” é a combinação de Xi, de Xi Jinping, com a palavra inglesa diplomacy. Usada por veículos estatais chineses para se referir à atuação e às ideias diplomáticas associadas ao presidente, a expressão procura sintetizar uma política externa que atribui à China participação mais ativa nos debates sobre desenvolvimento, segurança e governança internacional. Sob o comando de Xi, diferentes frentes da política externa chinesa passaram a ser articuladas de forma mais coordenada, aproximando diplomacia de temas econômicos, relações com países do Sul Global e participação em organismos multilaterais.

Em junho de 2026, a China publicou os volumes I e II de uma coletânea com 134 textos de Xi Jinping sobre política externa, referentes ao período entre janeiro de 2013 e novembro de 2025. Compiladas pelo Instituto de História e Literatura do Partido do Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh), as obras reúnem discursos, relatórios e pronunciamentos que registram mais de uma década da formulação diplomática do atual líder chinês.

Uma política externa mais associada a Xi

A projeção internacional da China antecede Xi Jinping e acompanhou a expansão econômica do país, a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, e a integração às cadeias globais de produção. Com Xi, porém, a política externa ganhou maior centralização e passou a ser vinculada de forma mais direta aos objetivos de desenvolvimento e à atuação internacional do país.

Steve Tsang e Olivia Cheung, autores de livro publicado pela Oxford University Press em 2026, argumentam que a China passou a buscar maior influência sobre a organização da ordem internacional. Segundo os pesquisadores, essa estratégia combina diplomacia, relações econômicas, participação em organismos internacionais e aproximação com países do Sul Global.

O Pensamento de Xi Jinping sobre Diplomacia foi estabelecido como orientação da política externa chinesa durante a Conferência Central de Trabalho sobre Relações Exteriores de 2018. Na edição seguinte do encontro, realizada em dezembro de 2023, o governo reafirmou essa diretriz e vinculou a atuação diplomática à modernização chinesa, à participação na governança global, à abertura econômica e às relações com países em desenvolvimento.

A mudança, portanto, não representa uma ruptura completa com a política externa anterior. O que se observa com Xi Jinping é uma maior articulação entre instrumentos que já faziam parte da atuação internacional chinesa e a criação de iniciativas apresentadas diretamente pelo governo como propostas para áreas como infraestrutura, desenvolvimento, segurança e governança global.

Cinturão e Rota conecta infraestrutura, comércio e diplomacia

A Iniciativa Cinturão e Rota, apresentada por Xi em 2013, colocou infraestrutura e conectividade no centro de parte da cooperação da China com outros países. Ferrovias, portos, estradas e projetos de energia passaram a integrar acordos que também têm efeitos sobre comércio e investimentos.

A relação entre infraestrutura e economia ajuda a explicar por que esse tipo de projeto ocupa espaço na política externa. Uma ferrovia, um porto ou uma nova conexão logística pode reduzir o tempo de transporte, criar rotas comerciais e aproximar mercados, ao mesmo tempo em que estabelece relações de longo prazo entre governos, empresas e instituições financeiras.

Nos primeiros sete meses de 2026, o comércio exterior de bens da China somou 30,13 trilhões de yuans (cerca de US$ 4,46 trilhões), crescimento de 17,3% sobre o mesmo período do ano anterior. As exportações chegaram a 17,44 trilhões de yuans, alta de 14%, enquanto as importações alcançaram 12,69 trilhões de yuans, crescimento de 22%.

Parte significativa desse fluxo ocorreu com países participantes da Iniciativa Cinturão e Rota. Entre janeiro e julho, o comércio da China com esse grupo chegou a 15,36 trilhões de yuans, 15,5% acima do registrado no mesmo intervalo de 2025.

Aproximação com países do Sul Global

A aproximação com países do Sul Global tornou-se uma das frentes da política externa de Xi Jinping. A China defende maior participação das economias em desenvolvimento nas decisões internacionais e se apresenta como parte desse grupo.

Em 2021, Xi lançou a Iniciativa de Desenvolvimento Global, voltada a áreas como redução da pobreza, segurança alimentar e industrialização. Segundo o Ministério das Relações Exteriores da China, mais de 130 países e organizações internacionais haviam manifestado apoio à iniciativa e participado de sua cooperação até julho de 2026, enquanto quase 100 haviam assinado documentos de cooperação.

Nos anos seguintes, Xi apresentou iniciativas voltadas à segurança internacional e ao intercâmbio entre diferentes civilizações. Com essas propostas, a China passou a buscar não apenas maior participação nas instituições internacionais, mas também maior influência nos debates sobre desenvolvimento, segurança e governança global.