Economia Negócios

Montadoras multinacionais adotam tecnologia chinesa e impulsionam onda de “joint ventures reversas” no setor automotivo

Nos últimos dias, a indústria automobilística chinesa testemunhou uma série de acontecimentos simbólicos. Em 31 de março, o último Land Rover Range Rover Evoque a combustão saiu da linha de produção da fábrica da Chery Jaguar Land Rover, dando lugar ao nascimento da nova marca global de veículos elétricos “FREELANDER”. O modelo lembra fortemente a estratégia adotada pela Audi dois anos antes, ao lançar a nova marca AUDI.

Quase ao mesmo tempo, o primeiro veículo desenvolvido de forma conjunta pela Volkswagen e pela XPeng saiu da linha de montagem; a Mercedes-Benz anunciou que seu centro de P&D em Xangai foi elevado de unidade regional para centro global de inovação; e executivos da BMW visitaram a Great Wall Motors para discutir cooperação tecnológica aprofundada.

Essa sucessão de movimentos mostra que o mapa global da inovação automotiva está se deslocando para o Oriente, enquanto a lógica tradicional de joint ventures baseada em “mercado em troca de tecnologia”, que marcou as últimas quatro décadas, está sendo completamente reformulada.

A ascensão: tecnologia automotiva chinesa sai dos bastidores para o protagonismo

Voltando a setembro de 2016, quando a direção autônoma ainda era um conceito restrito a círculos tecnológicos, Cao Xudong, então funcionário da empresa de inteligência artificial SenseTime, fundou em Pequim a Momenta ao lado de engenheiros da Universidade de Tsinghua e do Microsoft Research Asia. O objetivo era desenvolver tecnologias de direção autônoma e condução inteligente voltadas à produção em massa.

Na mesma época, Yu Kai, ex-pesquisador do Instituto de Deep Learning da Baidu, criou a Horizon Robotics em Zhongguancun, Pequim, apostando no então embrionário setor de inteligência automotiva.

Na fase inicial, essas empresas atuavam como fornecedoras secundárias, oferecendo algoritmos, chips e sensores nos bastidores das montadoras. Enquanto isso, Volkswagen, Toyota e Mercedes-Benz ainda dominavam o mercado global, e as joint ventures chinesas permaneciam focadas principalmente na manufatura.

O ponto de virada veio em 2019, quando empresas chinesas de tecnologia automotiva iniciaram uma mudança estratégica e estreitaram suas relações com montadoras.

Em maio daquele ano, a Huawei criou oficialmente sua divisão de Soluções Inteligentes para Automóveis (Car BU), entrando de forma independente no setor automotivo. As operações passaram a abranger direção inteligente, cabine inteligente, eletrificação, conectividade e nuvem automotiva.

Em 2021, Lei Jun, fundador da Xiaomi, anunciou sua entrada na indústria automobilística, com um investimento inicial de RMB 10 bilhões. No mesmo ano, a Huawei lançou o modelo “Huawei Smart Selection”, mantendo sua estratégia de não fabricar veículos próprios — o que deu origem à parceria com a Seres e à futura marca Aito.

Paralelamente, montadoras multinacionais começaram a perceber a transformação do mercado chinês. Em 2021, a Momenta captou mais de US$ 1 bilhão em uma rodada Série C — a maior do setor de direção autônoma na China naquele ano — atraindo investidores como SAIC, Toyota, General Motors, Mercedes-Benz e Bosch. A tecnologia chinesa de direção inteligente passou, então, a ser levada a sério pelas gigantes globais.

Da fabricação à exportação de tecnologia

Após anos de desenvolvimento, as empresas chinesas passaram dos bastidores ao centro do palco.

Em janeiro de 2024, a Huawei transferiu seus ativos de soluções automotivas para a nova empresa Yinwang Intelligent Technology, que passou a operar como fornecedora independente. O ecossistema Harmony Intelligent Mobility Alliance cresceu para cinco marcas: Aito, Luxeed, Stelato, Maextro e SAIC Shangjie.

Hoje, o sistema de direção inteligente “Qiankun”, da Huawei, já atende desde veículos abaixo de RMB 200 mil até modelos de luxo.

A Momenta consolidou-se como uma espécie de “campeã invisível” do setor. Seu sistema NOA (Navigation on Autopilot) saltou de apenas um modelo em produção em 2022 para mais de 160 atualmente. A Audi foi a primeira marca premium a adotar sua solução, seguida por Mercedes-Benz e BMW.

Já a Horizon Robotics abriu capital na Bolsa de Hong Kong em outubro de 2024, consolidando-se como uma das líderes chinesas em plataformas de computação inteligente automotiva, fornecendo chips para marcas como Chery, Changan e Volkswagen.

Com isso, tecnologias chinesas de direção inteligente passaram a ser exportadas para Europa e Estados Unidos, transformando a China em um centro global de tecnologia automotiva.

Ao contrário do modelo tradicional de joint venture, a nova onda de “joint ventures reversas” posiciona empresas chinesas como fornecedoras de tecnologia, com maior influência sobre a definição de produtos e inovação.

A transformação: montadoras globais entram na era “na China, para o mundo”

A mudança estratégica das montadoras multinacionais é vista pelo setor como a “segunda entrada na China”.

Em 1983, quando o primeiro Santana saiu da linha de produção em Anting, Xangai, iniciou-se uma longa fase de aprendizado da indústria automobilística chinesa. As montadoras estrangeiras trouxeram linhas modernas de produção e tecnologia industrial — era a fase do “mercado em troca de tecnologia”.

Quarenta anos depois, essa lógica mudou.

Em maio de 2024, Audi e SAIC assinaram um acordo para desenvolver conjuntamente a “ADP Smart Digital Platform”. Meses depois, nasceu a marca elétrica premium AUDI. Seu primeiro modelo, o E5 Sportback, combina tração inteligente, assistente de voz baseado no modelo de IA Doubao e direção inteligente desenvolvida com a Momenta.

Em março de 2026, o veículo já figurava entre os três mais vendidos do segmento.

O CEO global da Audi, Gernot Döllner, afirmou que este é “o primeiro caso desse tipo no mercado premium”. Na sede da Audi, na Alemanha, o E5 Sportback já divide espaço com carros de Fórmula 1 e conceitos futuristas, evidenciando o papel central da tecnologia chinesa na transformação da marca.

Em junho de 2024, Jaguar Land Rover e Chery firmaram parceria estratégica para ressuscitar a marca FREELANDER. Em março de 2026, o último Evoque a combustão saiu da fábrica de Changshu, marcando a transição definitiva para a era elétrica.

O CEO da marca FREELANDER, Wen Fei, declarou: “Vamos usar uma nova marca e um novo modelo para travar uma nova batalha.”

Esses casos mostram que a segunda fase da “entrada na China” das montadoras multinacionais já mudou seu eixo central: antes era “fabricar na China e adaptar para a China”; agora é “desenvolver na China e cocriar com a China”.


Fonte: news.cn