Robôs humanoides participaram do Gala do Festival da Primavera, na China, ao executar esquetes, simular lutas de boxe e interagir com atores no palco. O evento funcionou como vitrine tecnológica e campo de testes para sistemas de inteligência artificial e controle de movimento. Empresas do setor afirmam que os avanços apresentados já começam a migrar para aplicações comerciais, embora especialistas apontem limites técnicos e custos elevados para uso doméstico em larga escala.
No esquete “O Favorito da Vovó”, um robô contracenou com atores humanos. Segundo Zhang Miao, diretor de marketing da Beijing Songyan Power Technology Group, o equipamento utiliza algoritmo próprio de controle facial e modelo interativo multimodal. O sistema possui mais de 30 graus de liberdade no rosto, o que permite executar microexpressões e micromovimentos.
A equipe técnica informou que precisou resolver a sincronização, em tempo real, entre voz, movimento labial e expressão facial. Para isso, coletou grande volume de vídeos de conversas humanas e treinou o sistema para reconhecer expressões, emoções e linguagem, com respostas adequadas ao contexto.
Além disso, o palco impôs exigências superiores às de laboratório. Os robôs precisaram ajustar posicionamento, ritmo e lógica de ação conforme o roteiro e a interação com atores e cenários.
Do palco à aplicação prática
O Festival da Primavera tem servido como vitrine para a robótica desde 2012, quando pequenos robôs apareceram pela primeira vez no evento. Em 2025, um robô da Yushu chamou atenção ao dançar Yangko. Já na edição mais recente, múltiplos robôs dividiram o palco. Ao longo da década, as apresentações passaram de movimentos simples para coreografias complexas e interação com humanos.
Parte das tecnologias exibidas já opera fora do ambiente artístico. Fu Qiang, sócio e gerente de produto da Beijing Galaxy General Robotics, afirmou que o modelo incorporado da empresa treina continuamente o sistema com bilhões de dados. O robô Galbot G1, apresentado no festival, atua em ambientes reais, onde recebe clientes, interage, registra pedidos, coleta produtos e realiza entregas.
Segundo Jiang Guangzhi, secretário do Partido e diretor do Departamento Municipal de Economia e Tecnologia da Informação de Pequim, a capital mudou o foco dos testes de habilidades motoras para capacidades operacionais. Nos Jogos de Robôs de 2025, os equipamentos executaram tarefas como triagem de medicamentos, manuseio de materiais e operações de precisão. A mudança indica transição da demonstração pública para a implantação prática.
Limites técnicos e custo elevado
Especialistas avaliam que o uso doméstico ainda exige tempo. Pan Helin, membro do Comitê de Especialistas em Economia da Informação e Comunicação do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, afirmou que as apresentações ao vivo continuam como principal cenário de aplicação. Segundo ele, o palco ajuda empresas a atrair capital, talentos e parcerias.
Lan Dapeng, pesquisador associado do Instituto de Automação de Shenyang, da Academia Chinesa de Ciências, apontou lacuna entre desempenho atual e exigências industriais. Ele afirmou que setores industriais demandam precisão elevada, enquanto muitos robôs humanoides alcançam apenas controle em nível centimétrico. Além disso, o custo total permanece alto. Como alternativa, ele sugeriu transferir tecnologias testadas para ambientes industriais específicos e adaptar sistemas conforme cada cenário.
Estratégia regional e projeção de mercado
O Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento do Conselho de Estado, no “Relatório de Desenvolvimento da China 2025”, projeta que o mercado de inteligência incorporada pode ultrapassar 1 trilhão de yuans até 2035. O relatório indica impacto em áreas como logística, manufatura e serviços.
As regiões chinesas adotaram estratégias distintas. A região Pequim-Tianjin-Hebei concentra pesquisa e inovação tecnológica. O Delta do Rio Yangtzé prioriza infraestrutura industrial, como centros de treinamento de dados e plataformas de código aberto. Já o Delta do Rio das Pérolas foca aplicação comercial e robôs de consumo e serviço.
De acordo com Li Yechuan, diretor da Divisão de Manufatura Inteligente e Indústria de Equipamentos de Pequim, a capital reúne mais de 940 empresas de robótica, com faturamento superior a 40 bilhões de yuans. O governo local apoia avanços tecnológicos, cenários de aplicação e colaboração industrial.
Escassez de talentos
Apesar do crescimento, o setor enfrenta falta de profissionais. Zhang Miao afirmou que o mercado precisa de talentos interdisciplinares com formação em engenharia de sistemas. Segundo ele, o ciclo de formação é longo, o que exige cooperação entre empresas, universidades e institutos de pesquisa.
Para o futuro, Lan Dapeng projeta avanço em duas frentes: fortalecimento de capacidades gerais, como percepção e tomada de decisão, e desenvolvimento específico para setores como cuidados domiciliares e montagem industrial. Ele defende integração entre regiões e cooperação ao longo da cadeia de pesquisa, produção e aplicação para sustentar o crescimento da indústria.
Fonte: news.cn


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