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Biossegurança e comércio internacional: o debate sobre a tilápia do Vietnã no Brasil

Biossegurança e comércio internacional

Nas últimas semanas, uma controvérsia envolvendo a importação de tilápia do Vietnã reacendeu uma questão sensível no Brasil: até onde vai a competência federal no comércio internacional e onde começa a autonomia sanitária dos Estados? O debate começou após o estado de Santa Catarina proibir a importação de tilápias oriundas do Vietnã, mesmo após a autorização de importação pelo governo federal.

O tema reúne, em um mesmo eixo, biossegurança aquícola, competitividade econômica e estratégia diplomático-comercial, com impactos diretos sobre produtores, consumidores e parceiros internacionais.
O ponto de partida desse debate remonta a 2024, quando o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) adotou uma suspensão preventiva das importações de tilápia vietnamita, amparada em análises técnicas relacionadas ao Tilapia Lake Virus (TiLV), patógeno associado a elevadas taxas de mortalidade em sistemas aquícolas em diferentes regiões do mundo. A decisão refletiu a aplicação do princípio da precaução sanitária, amplamente utilizado em cadeias agroalimentares sensíveis, sobretudo quando a introdução de agentes exóticos pode comprometer a produção local, a renda dos produtores e a segurança do abastecimento.

Em 2025, após reavaliações técnicas e no contexto de negociações bilaterais mais amplas entre Brasil e Vietnã, o MAPA revogou a suspensão e restabeleceu a autorização para importação. Do ponto de vista federal, a medida sinalizou confiança nos protocolos sanitários aplicáveis às importações, alinhamento com compromissos internacionais de comércio e uma leitura estratégica de reciprocidade nas agendas externas. A reabertura, no entanto, não eliminou as preocupações regionais — e foi justamente nesse ponto que o debate ganhou contornos federativos mais evidentes.

Mesmo com a autorização nacional, os Estados brasileiros mantêm competência para adotar medidas sanitárias adicionais dentro de seus territórios. Nesse contexto, Santa Catarina anunciou, em 18 de dezembro de 2025, a proibição da entrada e da comercialização de tilápia importada do Vietnã no âmbito estadual. A justificativa apresentada foi direta: proteger uma cadeia produtiva local altamente relevante, mitigar o risco de introdução de vírus exóticos e preservar a biossegurança regional. Na prática, o episódio evidencia um federalismo ativo, no qual decisões nacionais podem ser moduladas por estratégias estaduais quando estão em jogo sanidade animal e impactos econômicos localizados.

Os dados oficiais ajudam a dimensionar o debate com maior precisão. Segundo o ComexStat, base oficial de estatísticas de comércio exterior do governo brasileiro, o Brasil importou, até o momento em 2025, aproximadamente 173 mil quilos (173 toneladas) de tilápia originária do Vietnã. Para efeito de comparação, a produção nacional anual supera 660 mil toneladas, conforme os dados mais recentes consolidados pela Associação Brasileira da Piscicultura (PeixeBR). Em termos proporcionais, o volume importado representa uma fração residual da produção brasileira, inferior a 0,03%.

Essa assimetria numérica deixa claro que a controvérsia não é quantitativa. O debate não gira em torno de abastecimento ou de impacto imediato sobre preços ao consumidor, mas sim de questões qualitativas e estratégicas. O foco está nos riscos sanitários potenciais, nos precedentes regulatórios que se estabelecem e na percepção de assimetria competitiva entre produtores nacionais e fornecedores externos.

O setor produtivo também se posicionou. Entidades representativas da piscicultura brasileira, como a própria PeixeBR, manifestaram críticas à reabertura das importações. Entre os argumentos apresentados estão o risco sanitário residual, mesmo diante de controles oficiais, a concorrência com produto importado de menor custo de produção e a percepção de assimetria regulatória entre países exportadores e produtores nacionais. A reação do setor reforça que a discussão extrapola a sanidade e alcança a competitividade e a estratégia industrial do país.

Em meio à repercussão, circularam informações equivocadas sobre uma suposta proibição do cultivo de tilápia no Brasil. Órgãos federais, como o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente, esclareceram oficialmente que não há qualquer vedação ao cultivo da espécie. A tilápia segue autorizada, regulamentada e estratégica tanto para a segurança alimentar quanto para a economia aquícola nacional.

Para o público internacional — especialmente investidores e parceiros asiáticos — o episódio oferece uma leitura clara do ambiente brasileiro. Trata-se de um mercado grande e aberto, porém regulado, com atenção elevada à biossegurança e com um arranjo federativo que confere protagonismo aos Estados na gestão de riscos específicos. A experiência recente demonstra que decisões comerciais convivem com salvaguardas sanitárias e que a previsibilidade regulatória resulta do diálogo entre União, Estados e setor produtivo.

A discussão sobre a tilápia do Vietnã, portanto, vai além de um fluxo específico de importação. Ela evidencia os limites e alcances da integração comercial, a centralidade da governança sanitária e a maturidade institucional do agronegócio brasileiro. No China2Brazil, seguimos acompanhando como decisões regulatórias, interesses econômicos e relações internacionais moldam o futuro do comércio agroalimentar entre Brasil e Ásia.