4 de maio de 2026
Nos últimos dias, a indústria automobilística chinesa testemunhou uma série de acontecimentos simbólicos. Em 31 de março, o último Land Rover Range Rover Evoque a combustão saiu da linha de produção da fábrica da Chery Jaguar Land Rover, dando lugar ao nascimento da nova marca global de veículos elétricos “FREELANDER”. O modelo lembra fortemente a estratégia adotada pela Audi dois anos antes, ao lançar a nova marca AUDI. Quase ao mesmo tempo, o primeiro veículo desenvolvido de forma conjunta pela Volkswagen e pela XPeng saiu da linha de montagem; a Mercedes-Benz anunciou que seu centro de P&D em Xangai foi elevado de unidade regional para centro global de inovação; e executivos da BMW visitaram a Great Wall Motors para discutir cooperação tecnológica aprofundada. Essa sucessão de movimentos mostra que o mapa global da inovação automotiva está se deslocando para o Oriente, enquanto a lógica tradicional de joint ventures baseada em “mercado em troca de tecnologia”, que marcou as últimas quatro décadas, está sendo completamente reformulada. A ascensão: tecnologia automotiva chinesa sai dos bastidores para o protagonismo Voltando a setembro de 2016, quando a direção autônoma ainda era um conceito restrito a círculos tecnológicos, Cao Xudong, então funcionário da empresa de inteligência artificial SenseTime, fundou em Pequim a Momenta ao lado de engenheiros da Universidade de Tsinghua e do Microsoft Research Asia. O objetivo era desenvolver tecnologias de direção autônoma e condução inteligente voltadas à produção em massa. Na mesma época, Yu Kai, ex-pesquisador do Instituto de Deep Learning da Baidu, criou a Horizon Robotics em Zhongguancun, Pequim, apostando no então embrionário setor de inteligência automotiva. Na fase inicial, essas empresas atuavam como fornecedoras secundárias, oferecendo algoritmos, chips e sensores nos bastidores das montadoras. Enquanto isso, Volkswagen, Toyota e Mercedes-Benz ainda dominavam o mercado global, e as joint ventures chinesas permaneciam focadas principalmente na manufatura. O ponto de virada veio em 2019, quando empresas chinesas de tecnologia automotiva iniciaram uma mudança estratégica e estreitaram suas relações com montadoras. Em maio daquele ano, a Huawei criou oficialmente sua divisão de Soluções Inteligentes para Automóveis (Car BU), entrando de forma independente no setor automotivo. As operações passaram a abranger direção inteligente, cabine inteligente, eletrificação, conectividade e nuvem automotiva. Em 2021, Lei Jun, fundador da Xiaomi, anunciou sua entrada na indústria automobilística, com um investimento inicial de RMB 10 bilhões. No mesmo ano, a Huawei lançou o modelo “Huawei Smart Selection”, mantendo sua estratégia de não fabricar veículos próprios — o que deu origem à parceria com a Seres e à futura marca Aito. Paralelamente, montadoras multinacionais começaram a perceber a transformação do mercado chinês. Em 2021, a Momenta captou mais de US$ 1 bilhão em uma rodada Série C — a maior do setor de direção autônoma na China naquele ano — atraindo investidores como SAIC, Toyota, General Motors, Mercedes-Benz e Bosch. A tecnologia chinesa de direção inteligente passou, então, a ser levada a sério pelas gigantes globais. Da fabricação à exportação de tecnologia Após anos de desenvolvimento, as empresas chinesas passaram dos bastidores ao centro do palco. Em janeiro de 2024, a Huawei transferiu seus ativos de soluções automotivas para a nova empresa Yinwang Intelligent Technology, que passou a operar como fornecedora independente. O ecossistema Harmony Intelligent Mobility Alliance cresceu para cinco marcas: Aito, Luxeed, Stelato, Maextro e SAIC Shangjie. Hoje, o sistema de direção inteligente “Qiankun”, da Huawei, já atende desde veículos abaixo de RMB 200 mil até modelos de luxo. A Momenta consolidou-se como uma espécie de “campeã invisível” do setor. Seu sistema NOA (Navigation on Autopilot) saltou de apenas um modelo em produção em 2022 para mais de 160 atualmente. A Audi foi a primeira marca premium a adotar sua solução, seguida por Mercedes-Benz e BMW. Já a Horizon Robotics abriu capital na Bolsa de Hong Kong em outubro de 2024, consolidando-se como uma das líderes chinesas em plataformas de computação inteligente automotiva, fornecendo chips para marcas como Chery, Changan e Volkswagen. Com isso, tecnologias chinesas de direção inteligente passaram a ser exportadas para Europa e Estados Unidos, transformando a China em um centro global de tecnologia automotiva. Ao contrário do modelo tradicional de joint venture, a nova onda de “joint ventures reversas” posiciona empresas chinesas como fornecedoras de tecnologia, com maior influência sobre a definição de produtos e inovação. A transformação: montadoras globais entram na era “na China, para o mundo” A mudança estratégica das montadoras multinacionais é vista pelo setor como a “segunda entrada na China”. Em 1983, quando o primeiro Santana saiu da linha de produção em Anting, Xangai, iniciou-se uma longa fase de aprendizado da indústria automobilística chinesa. As montadoras estrangeiras trouxeram linhas modernas de produção e tecnologia industrial — era a fase do “mercado em troca de tecnologia”. Quarenta anos depois, essa lógica mudou. Em maio de 2024, Audi e SAIC assinaram um acordo para desenvolver conjuntamente a “ADP Smart Digital Platform”. Meses depois, nasceu a marca elétrica premium AUDI. Seu primeiro modelo, o E5 Sportback, combina tração inteligente, assistente de voz baseado no modelo de IA Doubao e direção inteligente desenvolvida com a Momenta. Em março de 2026, o veículo já figurava entre os três mais vendidos do segmento. O CEO global da Audi, Gernot Döllner, afirmou que este é “o primeiro caso desse tipo no mercado premium”. Na sede da Audi, na Alemanha, o E5 Sportback já divide espaço com carros de Fórmula 1 e conceitos futuristas, evidenciando o papel central da tecnologia chinesa na transformação da marca. Em junho de 2024, Jaguar Land Rover e Chery firmaram parceria estratégica para ressuscitar a marca FREELANDER. Em março de 2026, o último Evoque a combustão saiu da fábrica de Changshu, marcando a transição definitiva para a era elétrica. O CEO da marca FREELANDER, Wen Fei, declarou: “Vamos usar uma nova marca e um novo modelo para travar uma nova batalha.” Esses casos mostram que a segunda fase da “entrada na China” das montadoras multinacionais já mudou seu eixo central: antes era “fabricar na China e adaptar para a China”; agora é “desenvolver na China e cocriar com a China”. Fonte: news.cn
27 de abril de 2026
A 19ª edição do Salão Internacional do Automóvel de Pequim, realizada em 2026, alcançou 380 mil metros quadrados de área de exposição e apresentou 1.451 veículos, com 181 estreias mundiais e 71 carros-conceito. O evento reuniu executivos de montadoras, fornecedores, parceiros internacionais e compradores profissionais, consolidando-se como um dos principais encontros globais da indústria automotiva. Além da escala, o salão funcionou como plataforma de articulação do setor. O volume de lançamentos e a presença de empresas internacionais reforçam o peso do mercado chinês na indústria global e indicam o papel do país na transição tecnológica do segmento. Entre as demonstrações, a BYD exibiu um compartimento a -30 °C no qual um veículo elétrico carregou de 20% a 97% em 12 minutos. Já a Nio apresentou uma interação entre carros e robôs, com o modelo ES9 executando movimentos coordenados por meio de um sistema de suspensão ativa, com respostas em milissegundos. No dia 26 de abril, primeiro aberto ao público, os pavilhões registraram alta circulação de visitantes. As demonstrações tecnológicas ampliaram a interação direta com os sistemas embarcados e soluções de mobilidade. Apesar do volume de lançamentos, o foco da indústria indica uma mudança de direção. As montadoras passam a priorizar desempenho e segurança, em vez de concentrar a comunicação em especificações técnicas. Lin Jie, vice-presidente sênior do grupo Geely e responsável pela Zeekr, afirmou que a evolução da dirigibilidade depende de desenvolvimento contínuo e integração de sistemas, com foco em controle e estabilidade em cenários críticos. A variedade de modelos também evidencia uma estratégia baseada em segmentação. Sedãs, SUVs inteligentes e veículos familiares ampliam a cobertura de perfis de consumo. As empresas buscam diferenciar produtos a partir do uso e da experiência do usuário. Outro movimento relevante envolve a cadeia produtiva. O salão adotou o formato de exposição conjunta entre montadoras e fornecedores nos mesmos pavilhões. A mudança indica uma transição do modelo tradicional de fornecimento para relações de desenvolvimento compartilhado. William Li, CEO da Nio, afirmou que a inovação depende da integração entre diferentes etapas da cadeia. Segundo ele, a concorrência tende a ocorrer entre ecossistemas industriais completos, e não mais entre empresas isoladas. Parcerias anunciadas durante o evento reforçam essa tendência. A Chery e a Bosch iniciaram o desenvolvimento conjunto de uma arquitetura de 48V. Já a Dongfeng e a Huawei apresentaram o modelo Epicland X9, com integração entre sistema elétrico, chassi e dados. O conceito de “Physical AI” (IA física) ganhou espaço nas apresentações. A aplicação da inteligência artificial em sistemas embarcados amplia a capacidade dos veículos de interpretar o ambiente e tomar decisões em tempo real. Com isso, os automóveis passam a atuar como sistemas de mobilidade com maior autonomia operacional. Cao Xudong, CEO da Momenta, explicou que modelos baseados em aprendizado por reforço já simulam cenários raros em ambientes virtuais. Segundo ele, o objetivo é superar a capacidade humana em situações extremas, com base em treinamento contínuo e análise de dados. Fonte: gmw