Ao longo dos últimos anos, o mercado chinês de vinhos tem passado por uma transformação profunda. O consumo deixou de ser guiado apenas por volume e status e passou a incorporar critérios como qualidade percebida, identidade de marca, custo-benefício e adequação aos canais digitais. Esse movimento foi detalhado no relatório “O Brasil que a China ainda não provou: Transformando desafios em oportunidades no mercado chinês de espumantes”, elaborado pelo adido agrícola brasileiro em Pequim, Leandro Feijó, no âmbito do programa AgroInsight, que apresenta uma leitura consistente sobre o cenário atual do setor de vinhos e espumantes na China, suas tendências de consumo e o espaço potencial para novas origens.
De acordo com o relatório, a China consolidou-se como um dos maiores importadores globais de vinho, apesar da retração observada após o pico de 2017. Em 2024, as importações voltaram a apresentar recuperação parcial, alcançando cerca de US$1,6 bilhão, com forte concentração em fornecedores tradicionais como Austrália, França, Chile, Itália, Espanha e Estados Unidos. O relatório destaca ainda a mudança no perfil do consumidor chinês, com crescimento do consumo doméstico (off-trade), avanço acelerado do e-commerce, uso intensivo de livestreaming e maior abertura a novos estilos, especialmente entre jovens urbanos e mulheres.
Nesse contexto, o Brasil surge, em tese, como uma origem alternativa. No entanto, a distância entre potencial de mercado e capacidade real de exportação ainda é significativa.
Do ponto de vista produtivo, o Brasil não é um grande player global em vinho. Segundo dados consolidados da International Organisation of Vine and Wine (OIV), a produção brasileira gira em torno de 2 milhões de hectolitros por ano, volume modesto quando comparado aos grandes exportadores do Novo e do Velho Mundo.
Essa produção é altamente concentrada. Mais de 85% do vinho brasileiro é produzido no Rio Grande do Sul, com destaque para a Serra Gaúcha, onde se encontram as principais vinícolas do país. Outras regiões, como Santa Catarina e o Vale do São Francisco, têm importância qualitativa e tecnológica, mas representam parcelas menores do volume total. Estados como Goiás e Distrito Federal aparecem apenas de forma marginal nas estatísticas, com iniciativas artesanais e experimentais, voltadas ao mercado local e ao enoturismo, sem escala exportadora.
Além disso, grande parte da produção nacional ainda é destinada ao mercado interno, que absorve volumes relevantes de vinhos de mesa, sucos e espumantes. A exportação é uma atividade complementar para poucas vinícolas, quase sempre concentradas no Sul do país.
Nos últimos anos, esse foco no mercado doméstico foi reforçado pelo crescimento consistente do e-commerce de vinhos no Brasil. Plataformas especializadas como a Wine.com.br, considerada a maior operação de venda online de vinhos da América Latina, e a Evino, com modelo voltado a campanhas promocionais e forte presença digital, ampliaram significativamente o acesso do consumidor brasileiro a rótulos nacionais e importados. Redes híbridas como a Grand Cru, que combinam lojas físicas e comércio eletrônico, também fortaleceram o canal digital.
Além dos players especializados, marketplaces como Amazon Brasil e Mercado Livre passaram a operar com maior relevância na categoria de bebidas alcoólicas, ampliando alcance logístico e capilaridade de vendas. Esse movimento consolidou o ambiente digital como canal estratégico para escoamento da produção nacional, especialmente em segmentos de maior valor agregado.
Na prática, isso significa que parte relevante das vinícolas brasileiras passou a enxergar no mercado interno digital um caminho mais previsível e financeiramente atrativo do que a entrada em mercados externos complexos, como o chinês. O investimento necessário para adaptação regulatória, registro no GACC, adequação de rotulagem, construção de marca e estrutura de importação na China muitas vezes supera o retorno esperado no curto e médio prazo, especialmente quando o mercado doméstico já oferece crescimento via e-commerce, com menor risco regulatório e maior controle operacional.
Os dados oficiais de comércio exterior do Brasil, compilados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) por meio do ComexStat, mostram que as exportações brasileiras de vinho são limitadas e concentradas em mercados regionais ou de nicho, como Paraguai, Estados Unidos, Uruguai, Haiti e alguns países do Caribe. A China, até o momento, não figura entre os principais destinos do vinho brasileiro.
Esse dado é fundamental para afastar leituras excessivamente otimistas. O Brasil não deixou de exportar vinho para a China por falta de mercado, mas porque as condições regulatórias, comerciais e econômicas não são favoráveis para a maioria das vinícolas.
Do ponto de vista legal, o Brasil não impõe qualquer restrição à exportação de vinho para a China. Vinícolas registradas no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) podem exportar livremente seus produtos. O problema começa no lado chinês.
Para que um vinho brasileiro possa entrar na China, a vinícola precisa estar registrada no sistema da General Administration of Customs of China (GACC), por meio do sistema CIFER. Esse registro é obrigatório, envolve análise documental, conformidade sanitária, adequação a padrões técnicos chineses e pode levar meses. Além disso, o sistema não divulga estatísticas consolidadas por país, o que dificulta até mesmo saber quantas vinícolas brasileiras estão efetivamente habilitadas.
A isso se somam exigências rigorosas de rotulagem em mandarim, necessidade de importador local habilitado, custos logísticos elevados, adaptação de produto ao gosto do consumidor chinês e investimentos contínuos em marketing digital. Diferentemente de países como Chile ou Austrália, o Brasil não possui acordo de livre-comércio com a China, o que reduz sua competitividade tarifária frente a concorrentes diretos.
Embora o relatório do adido agrícola destaque corretamente que existe espaço para o Brasil construir uma presença no mercado chinês de vinhos, é preciso reconhecer um ponto central: não há hoje um incentivo econômico claro para que a maioria das vinícolas brasileiras invista nesse mercado.
O custo regulatório é alto, o retorno é incerto, o volume potencial inicial é pequeno e o esforço de construção de marca na China é longo. Para vinícolas médias e pequenas — que compõem a maior parte do setor no Brasil —, faz mais sentido priorizar o mercado interno ou exportações regionais, onde os riscos são menores e o conhecimento do consumidor é maior.
O vinho brasileiro pode, sim, encontrar espaço na China. Mas esse caminho não é rápido, nem fácil, nem barato. Ele exige estratégia de longo prazo, escala mínima, estrutura regulatória, parceiro local confiável e disposição para competir em um dos mercados mais exigentes do mundo.
Como bem sugere o título do relatório do AgroInsight, a China ainda não provou o vinho brasileiro. Não por falta de qualidade ou curiosidade do consumidor, mas porque, hoje, o sistema não favorece a entrada espontânea de novos players sem apoio institucional, acordos comerciais ou políticas de incentivo específicas.
Tratar essa realidade com transparência é fundamental para evitar frustrações, alinhar expectativas e construir, quando houver condições, projetos sólidos e sustentáveis entre Brasil e China.


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