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Entre Brasil e China, empresária conecta empresas brasileiras a fornecedores chineses

Fornecedores chineses
Arte: China2Brazil/ Foto: Divulgação

Com mais de 17 anos de experiência em comércio exterior, a empresária do ramo de importação da China, Cheng Yi, construiu sua trajetória conectando empresas brasileiras a fornecedores chineses. Nascida em Taiwan e criada no Brasil, ela desenvolveu desde cedo a habilidade de transitar entre duas culturas e idiomas, competência que se tornaria central para seu sucesso no comércio internacional.

Cheng oferece consultoria para empresários que desejam importar e mantém o projeto educacional Cheng Importa, que inclui cursos online e materiais voltados a empreendedores que desejam iniciar no comércio de importação. Em entrevista ao China2Brazil, ela destacou que o sucesso nas negociações com empresas chinesas depende de preparo técnico, entendimento cultural e construção de relações de longo prazo. “O relacionamento com fornecedores chineses precisa ser construído ao longo do tempo. Não é uma negociação de curto prazo. Quando existe relacionamento, o fornecedor também se compromete mais com qualidade, prazos e soluções para problemas que podem surgir ao longo do processo”, afirmou.

O contato com esse modelo de negociação começou ainda no início da carreira. Na época, Cheng cursava direito quando recebeu um convite para trabalhar em uma empresa que precisava de alguém capaz de se comunicar em mandarim e português com fornecedores asiáticos. A oportunidade abriu as portas para o comércio exterior e marcou o início de sua trajetória na área. “Foi ali que comecei a entender como funcionam as negociações internacionais e como a comunicação entre empresas de países diferentes pode influenciar todo o processo,” disse.

Visão estratégica e oportunidades

Com o tempo, Cheng também passou a trabalhar diretamente na China, experiência que ampliou sua compreensão sobre a forma como fornecedores estruturam suas relações comerciais e tomam decisões. “Trabalhar na China me ajudou a entender melhor como os fornecedores pensam e como funciona a relação de negócios entre empresas chinesas e brasileiras. Muitas vezes o empresário brasileiro olha apenas para a negociação imediata, mas na cultura chinesa o relacionamento e a confiança têm um peso muito grande.”

A experiência acumulada ao longo dos anos também levou Cheng a identificar alguns erros recorrentes entre empresas brasileiras que iniciam processos de importação. Segundo ela, muitos empresários subestimam o impacto das diferenças culturais nas negociações e tratam a relação comercial apenas como uma transação pontual.

Cheng também observa que muitos empresários brasileiros buscam atalhos, procurando produtos ou segmentos “prontos para dar certo” sem considerar todos os aspectos da importação. “Pode ser o mercado mais lucrativo, mas se o empresário não estiver preparado para gerir estoque, vendas, contabilidade e concorrência, ele não vai prosperar. É preciso ter uma visão 360 graus do negócio antes de qualquer decisão”, explicou.

Entre os setores com maior potencial, estão o agronegócio, peças para veículos elétricos, moda e eletrônicos voltados a soluções práticas e acessíveis. Segundo Cheng, tendências recentes mostram que o consumo no Brasil tem se aproximado de padrões asiáticos, com cores mais discretas, tons pastéis e produtos inspirados na estética dos doramas coreanos e japoneses. “A moda está mudando, a forma de vestir, o gosto do consumidor. Isso abre oportunidades para quem sabe observar e adaptar essas tendências”, disse.

Consultoria e educação para novos importadores

Para suprir essa lacuna do mercado, Cheng montou seu próprio escritório de assessoria e consultoria, onde começou a levar clientes para a China, preparando empresas brasileiras para lidar com logística, requisitos burocráticos e entrega de produtos. “Desde a fábrica até a liberação e entrega do material na empresa do cliente, acompanhamos todo o processo”, explicou.

Com o passar do tempo, a empresária também passou a compartilhar sua experiência nas redes sociais, onde publica conteúdos voltados a empreendedores brasileiros interessados em iniciar operações de comércio exterior. A iniciativa surgiu a partir da percepção de que muitas empresas enfrentam dificuldades logo nas primeiras importações, principalmente por desconhecer etapas do processo ou práticas comuns nas negociações internacionais. Além disso, Cheng organiza imersões na China três vezes por ano, combinando experiências de campo com acompanhamento educativo, análise de custos e suporte pós-feiras.

Coragem e liderança feminina

Mesmo em um setor majoritariamente masculino, onde cerca de 80% dos profissionais de sua empresa são homens, Cheng Yi observa que a diferença não está na capacidade ou conhecimento técnico, mas na coragem de assumir riscos e o apoio para isso. “Muitas vezes, a mulher se dedica a cuidar das pessoas ao seu redor e acaba se ignorando. Mas, se conseguimos lidar com responsabilidades complexas, como criar uma família, podemos também enfrentar os desafios de montar e gerir um negócio”, explica.

Negociação com chineses
Imagem: Arte – China2Brazil/ Foto – Divulgação

Segundo ela, mulheres tendem a negociar tão bem quanto os homens, mas muitas se sentem inseguras. Ela cita exemplos de alunas que se destacam por iniciativa e autonomia. “São figuras femininas que mostram capacidade e que ainda vão me surpreender muito”, afirmou.

Escolhas que definem uma trajetória

Ao refletir sobre sua própria trajetória, Cheng apontou a decisão mais difícil e transformadora: largar a faculdade para se dedicar integralmente à importação. “Na época, isso era impensável, o diploma tinha muito valor. Mas foi a melhor escolha que eu poderia ter feito”, afirmou.

Ela explica que, para ela, a realização não se mede pela quantidade de dinheiro no bolso, mas pela sensação de estar no controle da própria vida e atingir metas que realmente importam. “A realização tem a ver com se sentir respeitada, autossuficiente, com conseguir aquilo que você almejava ou até mesmo viver algo que você não sabia se conseguiria. É atingir seus objetivos de forma consciente, equilibrando negócios, família e bem-estar”, afirmou.

Cheng acrescenta que essa perspectiva também influencia como ela encara o sucesso profissional e a liderança. “Quando você consegue tomar decisões baseadas em valores e não apenas no lucro, cria liberdade para cuidar de tudo o que é importante: da família, dos colaboradores, do seu próprio crescimento. Para mim, isso é o que diferencia o sucesso verdadeiro da simples conquista financeira”, concluiu.