O governo chinês classificou os dados digitais como um recurso econômico oficial, posicionando a informação no mesmo patamar estratégico que recursos naturais, capital humano, tecnologia e investimentos. Segundo o relatório “MADE IN CHINA: A Nova Arquitetura da Inovação Global”, elaborado pelo Institute for Tomorrow em parceria com o E-Commerce Brasil, IEST Group e YouPix, essa mudança permite que cada clique, compra ou deslocamento do cidadão seja tratado como um ativo estratégico para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), que tem meta de 10% de participação da economia digital até 2025.
O documento foi elaborado a partir de visitas à empresas chinesas e detalha os aprendizados ao percorrer seis cidades estratégicas Beijing, Hengqin, Hangzhou, Guangzhou, Shenzhen e Xangai, para mapear como o planejamento estatal e a execução privada constroem um ecossistema de inovação integrada.
Planejamento estatal como motor da economia
O relatório observa que a inovação na China não é um processo espontâneo, mas uma arquitetura desenhada pelo Estado por meio dos Planos Quinquenais, que definem metas estratégicas, enquanto empresas privadas funcionam como braços executores. Essa coordenação permite que o país direcione recursos de forma massiva. A delegação observou que o governo chinês facilita o acesso à infraestrutura e ao capital para startups alinhadas às metas nacionais. Como resultado, a China registra crescimento acelerado em tecnologias verdes e cidades inteligentes, onde o poder público abre dados para que empresas criem soluções práticas para a população.
Como oportunidade para o mercado externo, o documento destaca a ilha de Hengqin. O local funciona como um laboratório de cooperação entre a China continental e os países de língua portuguesa. Segundo a delegação, Hengqin oferece incentivos fiscais e desburocratização para empresas brasileiras que desejam testar tecnologias no mercado asiático, servindo como uma porta de entrada para a nova arquitetura da inovação global.
A industrialização da influência e o varejo de entretenimento
Um dos pontos centrais detalhados pela delegação é a transformação do consumo através da “Creator Economy”. O relatório descreve que a China industrializou a criatividade, transformando o conteúdo em uma transação financeira direta. O sistema organiza os influenciadores em uma estrutura profissional dividida em Key Opinion Leaders (KOLs), voltados para o alcance de massa, e Key Opinion Consumers (KOCs), focados na conversão técnica em nichos específicos.
Segundo o documento, esse modelo de “social commerce” é sustentado pela Multi-Channel Networks (MCNs). Essas empresas funcionam como verdadeiras fábricas, oferecendo estúdios, logística e roteirização para transmissões ao vivo que duram 24 horas por dia. Em cidades como Hangzhou, sede do grupo Alibaba, a delegação visitou complexos físicos dedicados exclusivamente ao comércio em tempo real, onde o algoritmo de recomendação conecta o produto ao consumidor no exato momento da transmissão.
O movimento Guochao e a identidade tecnológica
A delegação brasileira identificou a força do movimento Guochao, ou “onda nacional” , fenômeno que representa orgulho nacional refletido no consumo. Jovens consumidores priorizam marcas locais, como Xiaomi, Huawei e Anta, que incorporam elementos da cultura tradicional em produtos de alta tecnologia. Esse fenômeno fortaleceu o mercado interno e reduziu a dependência de marcas estrangeiras.
As empresas monitoram em tempo real as preferências da população e ajustam estoques e designs quase instantaneamente, usando inteligência artificial. A soberania digital chinesa, portanto, manifesta-se tanto na infraestrutura de servidores quanto na preferência estética da população, criando um ecossistema fechado e resiliente a pressões externas.
Regulação e resposta das plataformas tecnológicas
O crescimento desse ecossistema trouxe novas medidas legais por parte do governo e das próprias empresas. Em 2025, a China implementou normas rígidas para a moderação de conteúdo gerado por inteligência artificial e para a atuação de influenciadores digitais. Profissionais que abordam temas sensíveis, como saúde, finanças ou direito, precisam agora apresentar certificações oficiais para operar nas plataformas. O objetivo é mitigar a disseminação de informações falsas e garantir a segurança do consumidor.
Plataformas como Douyin (a versão chinesa do TikTok) e WeChat adotaram sistemas de pontuação para criadores e marcas. O descumprimento de regras de transparência ou a entrega de produtos com qualidade inferior resulta na perda de alcance orgânico ou na suspensão imediata das contas. Empresas estrangeiras que operam no país, como Apple e Nike, ajustam suas estratégias para se integrarem a esses ecossistemas de dados, aceitando as regras locais de armazenamento de informações e participação em festivais de compras digitais para manter a competitividade.
Desafios da integração entre dados e vida privada
O modelo chinês de inovação apresenta um dilema entre a eficiência máxima e a privacidade individual. A integração total de serviços em superaplicativos como o WeChat facilita a vida urbana, mas gera um monitoramento constante de todas as esferas da vida civil. Segundo os participantes da missão, a rapidez com que a China implementa mudanças sociais e tecnológicas exige uma discussão ética sobre o papel dos algoritmos na autonomia humana.
O relatório conclui que, embora o modelo chinês seja difícil de replicar integralmente devido às diferenças políticas, ele serve como um espelho do que é possível realizar com planejamento de longo prazo. O desafio para países como o Brasil, de acordo com a delegação, é encontrar um equilíbrio entre a agilidade tecnológica observada na China e a manutenção dos direitos individuais e da diversidade de mercado.


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