Aos 25 anos, Renan Vieira trocou São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, por Xangai para trabalhar como professor de jiu-jitsu. Faixa-preta e campeão brasileiro, ele começou no esporte aos 10 anos por meio de um projeto social que hoje reúne cerca de 300 alunos e já abriu caminho para outros jovens transformarem o tatame em profissão.
Renan chegou à China há cerca de dois meses para dar aulas em tempo integral na BUSHIDO Gym. A rede pertence ao brasileiro Saulo, que vive no país e, ao longo de 14 anos, participou da criação de 22 academias de jiu-jitsu.
O caminho até Xangai começou no projeto Vencedores em Cristo, criado em São Gonçalo por Rogério Moura em 2008. A iniciativa oferece aulas de jiu-jitsu a crianças e jovens e atualmente mantém três polos.
Renan conheceu o projeto pouco depois da morte do pai. Na época, segundo ele, a família enfrentava dificuldades financeiras e chegou a dividir quimonos entre diferentes alunos.
“No começo, a gente não tinha nem dinheiro para comprar um quimono, e três ou quatro crianças dividiam o mesmo”, relembrou. “Eu ia para o treino só para poder jantar no projeto e poupar minha mãe desse peso.”
Ao longo dos anos, Renan chegou à faixa preta, conquistou três títulos brasileiros pela Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu e uma medalha de prata no Campeonato Europeu da Federação Internacional de Jiu-Jitsu Brasileiro.
A mudança para a China transformou o esporte em trabalho. Para ele, a oportunidade também funciona como referência para as crianças que continuam treinando em São Gonçalo. “Eu acredito que hoje eu sou um incentivo para outras crianças, eu sou um exemplo”, afirmou.
De São Gonçalo para outros países
Renan não é o único atleta do projeto que passou a enxergar no jiu-jitsu uma possibilidade profissional fora do Brasil. Maxsuell, de 28 anos, também cresceu no Vencedores em Cristo e hoje concilia o trabalho com aulas voluntárias para crianças. Ele se prepara para seguir o mesmo caminho e trabalhar em Xangai.
O projeto também tem aumentado a participação feminina. Kettly Viviane, de 23 anos, passou anos como a única mulher nos treinos e hoje divide o tatame com meninas mais novas. Seu objetivo também é tornar-se professora.
“O meu desejo é ser professora. Ver meus amigos chegarem à China dá a todas nós permissão para sonhar mais alto”, afirmou.
Jiu-jitsu brasileiro encontra mercado na China
A procura pelo esporte na China abriu espaço para professores brasileiros. Segundo Saulo, responsável pela rede onde Renan trabalha, existe demanda por profissionais com formação e experiência no jiu-jitsu, o que levou à contratação de atletas ligados ao projeto de São Gonçalo nos últimos dois anos.
Para Rogério Moura, fundador do Vencedores em Cristo, a possibilidade de seguir carreira representa uma extensão do objetivo criado há quase duas décadas. “Primeiramente, eu quero que eles sejam cidadãos do bem e mostrar para eles que o jiu-jitsu dá oportunidade de vida e pode ser uma ferramenta de trabalho”, afirmou.
Renan vê também uma troca entre os dois países. Além de ensinar a técnica desenvolvida no Brasil, ele afirma estar aprendendo com os alunos e com a experiência de viver na China.
“O jiu-jitsu está crescendo na Ásia. É uma oportunidade muito boa para conhecer novas pessoas, novas culturas”, disse. “Estou muito feliz de estar aqui, podendo ensinar e aprender junto com meus alunos.”
Fonte: Xinhua

