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Compras da Turquia impulsionam recorde brasileiro de exportação de bovinos vivos

Compras da Turquia
Foto: João Luiz Ricardo de Souza Filho/ IEST AGRO

Programa do governo turco prevê a importação de 500 mil bovinos para engorda em 2026, país foi o maior comprador do gado brasileiro em agosto e já planeja novas importações em 2027.

O Brasil registrou em agosto de 2026 um dos resultados mais expressivos de sua história na exportação de bovinos vivos. Foram embarcadas aproximadamente 171 mil cabeças, alta de 109,4% em relação ao mesmo mês de 2025, com receita de cerca de US$ 243,9 milhões.

De janeiro a agosto, as exportações brasileiras chegaram a 917,6 mil bovinos, segundo levantamento dos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Por trás do avanço, entretanto, existe um movimento que vai além do crescimento pontual das exportações brasileiras.

A Turquia foi o principal destino do gado vivo brasileiro em agosto, recebendo aproximadamente 62,2 mil animais, equivalentes a 36,4% de todos os embarques do mês. Marrocos respondeu por 21,9% e o Iraque por 20,6%. Somados, os três países concentraram 79% das exportações brasileiras.

No caso turco, parte importante dessa demanda está associada a uma política oficial de abastecimento e organização da produção pecuária. O Ministério da Agricultura e Florestas da Turquia estabeleceu para 2026 um programa oficial prevendo a importação de 500 mil bovinos machos destinados à engorda.

De acordo com as regras publicadas pelo governo turco, 392 mil animais foram destinados a estabelecimentos com capacidade igual ou superior a 200 cabeças e outros 108 mil a propriedades com capacidade inferior a esse patamar.

As importações são realizadas por intermédio da estatal Et ve Süt Kurumu (ESK), instituição responsável pela operação e pela definição dos preços de venda dos animais importados aos produtores turcos.

O calendário estabelecido pelo governo também ajuda a entender o forte resultado brasileiro de agosto. A distribuição dos bovinos importados foi organizada em três períodos:

  • Abril, maio e junho;
  • Julho, agosto e setembro;
  • Outubro, novembro e dezembro.

Portanto, o recorde brasileiro de agosto ocorreu justamente durante o segundo período programado de distribuição de animais importados pela Turquia. Não é possível atribuir todo o crescimento brasileiro exclusivamente ao programa turco, outros destinos, especialmente Marrocos e Iraque, também tiveram participação relevante, mas os números mostram que a Turquia exerceu papel central no resultado.

Os documentos oficiais da Turquia também ajudam a explicar por que o país vem recorrendo às importações.

Ao divulgar as condições para a comercialização dos bovinos importados em 2026, a ESK informou que a operação pretende contribuir para o equilíbrio dos preços da carne vermelha, segurança da oferta no mercado e apoio aos produtores dedicados à engorda de bovinos.

Isso diferencia o movimento atual de uma simples oportunidade comercial circunstancial.
Existe uma estrutura governamental organizada para importar animais, distribuí-los entre produtores e utilizá-los como um dos instrumentos para abastecimento da cadeia pecuária turca.

Ao mesmo tempo, a Turquia continua possuindo um rebanho doméstico expressivo. Segundo dados oficiais publicados pelo Instituto Estatístico Turco (TÜİK), o país possuía aproximadamente 17,64 milhões de bovinos em junho de 2026, número 0,5% superior ao registrado em dezembro de 2025.

Assim, o aumento das importações não significa necessariamente uma retração generalizada da produção pecuária local. As compras externas estão inseridas em uma estratégia mais ampla de abastecimento e oferta de animais para engorda.

A relação comercial entre Brasil e Turquia também vem se ampliando. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) destaca que a Turquia passou a integrar, em 2024, o grupo dos dez maiores destinos dos produtos do agronegócio brasileiro e registra uma tendência de expansão das exportações brasileiras para aquele mercado ao longo da última década.

Além do complexo soja, café e algodão, o próprio Mapa coloca o gado vivo entre os produtos brasileiros relevantes nas vendas para a Turquia.

A relação sanitária para bovinos também avançou. Documentos da Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa mostram que o Brasil possui protocolos para exportação de bovinos vivos à Turquia tanto para engorda quanto para reprodução. Em 2025, por exemplo, o governo brasileiro publicou orientações específicas para a certificação de bovinos destinados à reprodução naquele mercado.

Esse avanço amplia as possibilidades comerciais além do fornecimento tradicional de animais destinados exclusivamente à engorda. Do lado brasileiro, o crescimento também apresenta forte concentração regional. Em agosto, o Pará respondeu por 65,9% dos bovinos vivos exportados pelo país, com aproximadamente 112,6 mil cabeças. Rio Grande do Sul respondeu por 23,6% e Paraná por 6,7%.

Somente o Pará foi responsável por grande parte do crescimento observado na comparação com agosto de 2025.

O movimento reforça a importância da infraestrutura portuária, dos estabelecimentos de pré-embarque e da logística especializada necessária para operações envolvendo animais vivos. Talvez o sinal mais relevante para o mercado brasileiro tenha surgido no final de setembro.

Em 26 de setembro de 2026, o Ministério da Agricultura e Florestas da Turquia divulgou seu planejamento para o próximo ano. O governo pretende autorizar, em 2027, a importação de 480 mil bovinos machos destinados à engorda.

Desse total, 380 mil animais deverão ser direcionados a estabelecimentos com capacidade igual ou superior a 200 cabeças e outros 100 mil a propriedades menores. As operações continuarão sendo realizadas por intermédio da ESK.

O anúncio não significa que esses 480 mil animais serão necessariamente comprados do Brasil. A Turquia pode utilizar diferentes países fornecedores e as compras dependerão de preços, disponibilidade, condições sanitárias e negociações comerciais. Entretanto, o planejamento demonstra que a necessidade turca de importação de bovinos não termina com o programa de 2026.

Para o Brasil, que já ocupa posição relevante nesse mercado e foi o principal fornecedor observado nos dados de agosto, a continuidade do programa representa uma oportunidade a ser acompanhada em 2027.

Os números de agosto mostram uma combinação pouco comum: forte crescimento dos embarques brasileiros, participação elevada da Turquia e expansão simultânea de outros mercados, principalmente do Marrocos e Iraque.

Ao mesmo tempo, a concentração merece atenção. Somente três países responderam por 79% dos bovinos vivos exportados pelo Brasil em agosto. Uma mudança de política de importação, exigência sanitária ou condição econômica em algum desses mercados pode alterar rapidamente o fluxo comercial.

Por isso, o recorde de agosto não deve ser interpretado isoladamente como garantia de uma trajetória contínua de crescimento.

O que os dados permitem afirmar é que o Brasil consolidou capacidade para atender grandes operações internacionais de bovinos vivos e encontrou, sobretudo na Turquia, um mercado apoiado por uma política oficial de importação.

Com 500 mil bovinos previstos pelo programa turco de 2026 e outros 480 mil planejados para 2027, a relação entre a pecuária brasileira e o mercado turco tende a permanecer como um dos movimentos mais relevantes a serem acompanhados no comércio internacional de gado vivo.