Brasil e China avançaram na abertura do mercado chinês para o cálculo biliar bovino, um subproduto raro utilizado há séculos na Medicina Tradicional Chinesa. Mais do que uma curiosidade da pecuária, trata-se de um insumo farmacêutico de alto valor e fortemente regulado.
Conhecido na China como niúhuáng (牛黄), o cálculo biliar ocorre naturalmente em apenas cerca de 1% a 2% dos bovinos. Segundo estudo do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o Brasil ocupa uma posição privilegiada nessa cadeia e responde por aproximadamente 40% da oferta mundial do produto.
A China começou a reabrir esse mercado em 2025, por meio de um programa piloto de importação destinado à indústria de medicamentos tradicionais. Argentina e Uruguai tiveram acesso antes do Brasil, enquanto as negociações entre o MAPA e a autoridade aduaneira chinesa avançaram ao longo de 2025 e 2026. A abertura, porém, não significa que qualquer frigorífico brasileiro poderá exportar imediatamente.
Os modelos regulatórios já adotados pela China para outros países exigem controle sanitário, rastreabilidade dos animais, procedimentos específicos de coleta, secagem e armazenamento, além da habilitação de frigoríficos e processadores perante as autoridades competentes.
Do lado chinês, a operação também é restrita. O importador precisa estar vinculado à indústria farmacêutica e autorizado a utilizar o cálculo biliar na fabricação de medicamentos. No programa piloto, o produto não funciona como uma commodity comum, que pode simplesmente ser importada e revendida.
Na prática, a cadeia tende a conectar:
Frigoríficos e processadores brasileiros habilitados → importadores farmacêuticos chineses autorizados → indústria de Medicina Tradicional Chinesa.
O elevado valor do produto chama atenção, mas é importante evitar interpretações exageradas. Trata-se de um mercado de baixo volume físico e alto valor por quilograma, limitado pela própria raridade natural do cálculo.
Para a pecuária brasileira, a abertura reforça uma tendência importante: aumentar o valor obtido de cada animal abatido. Couro, sebo, ossos, colágeno, gelatina e outros coprodutos já fazem parte dessa lógica. O cálculo biliar acrescenta uma nova possibilidade de geração de valor, agora conectada diretamente à indústria farmacêutica chinesa.
O próximo passo será acompanhar a publicação dos requisitos operacionais definitivos, do modelo de certificação e, principalmente, da relação de estabelecimentos brasileiros autorizados a participar dessa cadeia. Somente então será possível identificar com maior precisão quem poderá exportar, quais frigoríficos estarão posicionados para aproveitar essa oportunidade e quais empresas farmacêuticas chinesas poderão se tornar os principais compradores do produto brasileiro

